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O acordo entre os Estados Unidos e o Irã para reabrir o Estreito de Ormuz pode aliviar as pressões inflacionárias, mas Andrew Hollenhorst, economista-chefe do Citi, acredita que isso não levará a cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed).
Ele destaca que a inflação permanece acima da meta de 2% e o mercado de trabalho está estável, com um crescimento econômico forte impulsionado pela inteligência artificial (IA) e consumo resiliente.
Embora a reabertura do estreito possa reduzir riscos inflacionários, Hollenhorst não vê justificativa para cortes de juros no momento. O cenário-base do Citi prevê cortes em setembro, mas dependem da evolução dos dados.
Ele também discute a possibilidade de mudar a meta de inflação, considerando que uma faixa poderia ser mais adequada. A resiliência do consumo é atribuída ao aumento dos ativos financeiros, mas há riscos se o entusiasmo com a IA diminuir.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
O acordo entre Estados Unidos e Irã para pôr fim à guerra abre caminho para a reabertura do Estreito de Ormuz, aliviando as pressões inflacionárias que o conflito trouxe para o mundo e para os Estados Unidos.
Para Andrew Hollenhorst, economista-chefe para os Estados Unidos do Citi, o desenvolvimento não deve levar o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) a acelerar os cortes de juros – para frustração do presidente Donald Trump e do Banco Central brasileiro.
Em entrevista ao NeoFeed, ele avalia que a reabertura do Estreito de Ormuz traz apenas um equilíbrio entre inflação e mercado de trabalho, sem forçar o índice de preços a atingir a meta de 2%.
“O núcleo da inflação continua acima da meta e o mercado de trabalho está estável. O crescimento econômico também segue forte, sustentado pela IA e pela resiliência do consumo. Diante desses fatores, não parece uma economia que precise urgentemente de cortes de juros”, afirma.
A resiliência do consumo conseguiu, inclusive, driblar os efeitos das tarifas e da alta do preço do petróleo. Para Hollenhorst, uma explicação vem do fato de que muitos americanos se beneficiaram dos impactos da IA sobre o mercado acionário.
Ele destaca, porém, que, se houver uma reversão desse cenário, os Estados Unidos podem caminhar para uma situação semelhante à vivida em 2000, quando ocorreu a bolha da internet.
Na entrevista, Hollenhorst também retoma um assunto que levantou há três anos: a possibilidade de os Estados Unidos abandonar a meta de 2% de inflação. Para ele, esse é um assunto que não deve prosperar. Mas o Fed tem de apontar como vai adotar um olhar mais holístico para a inflação.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Qual é sua opinião sobre o acordo de cessar-fogo? Alivia a inflação e muda as expectativas em relação ao Fed?
Esse acordo é relevante para os Estados Unidos e a economia global. Mas dois aspectos são interessantes em relação ao que talvez se esperava alguns meses atrás. Primeiro, os preços do petróleo nunca chegaram aos níveis que muitos temiam. Houve forte alta, mas os cenários extremos nunca se concretizaram. Isso significou uma pressão inflacionária menor. Segundo, a economia americana demonstrou resiliência. O consumo das famílias continuou forte. Há alguns meses, muitos temiam um choque estagflacionário. Em vez disso, observamos algo mais moderado. Não causou uma mudança radical nas previsões para a economia.
O que esperar então desse acordo?
Se a reabertura do Estreito de Ormuz ocorrer como esperado, isso reduz o risco de uma surpresa inflacionária. O fluxo de petróleo pode até gerar excesso de oferta, já que houve redução na demanda e outras fontes de suprimento chegaram ao mercado. Isso poderia derrubar os preços do petróleo e da gasolina. Mas, na minha avaliação, o recente relatório de emprego teve um impacto ainda maior do que os acontecimentos recentes relacionados ao petróleo.
“Se a reabertura do Estreito de Ormuz ocorrer como esperado, isso reduz o risco de uma surpresa inflacionária”
Como assim?
No início do ano, o crescimento do emprego parecia muito fraco. O crescimento médio dos salários era praticamente zero, e a taxa de desemprego estava aumentando. Ao mesmo tempo, a inflação parecia estar desacelerando. Nos últimos meses, o balanço de riscos mudou. Antes, o risco era uma piora no mercado de trabalho. Agora, o emprego deixou de ser uma preocupação para muitos dirigentes do Fed, enquanto a inflação passou a atenção. Com a reabertura do Estreito de Ormuz, o risco inflacionário pode cair novamente, deixando o Fed mais confortável com o equilíbrio entre inflação e mercado de trabalho.
O que isso significa em termos de política monetária? Trump conseguirá o que deseja, os cortes de juros? Ou o Fed ainda precisa agir com cautela?
É muito difícil justificar cortes de juros. O núcleo da inflação continua acima da meta e o mercado de trabalho está estável. O crescimento econômico também continua forte, sustentado pela IA e pela resiliência do consumo. Diante desses fatores, não parece uma economia que precise urgentemente de cortes de juros, não acho que o Waller vá buscar isso. Isso não significa que cortes estejam descartados. Para que ocorram, seria necessário observar mais evidências de desaceleração da inflação, do preço do petróleo e enfraquecimento do mercado de trabalho.
Vocês preveem cortes de juros? Se sim, quantos?
Nosso cenário-base prevê o retorno dos cortes em setembro, mas isso depende dos dados sobre mercado de trabalho. No momento, nosso cenário base é de reduções de 0,25 ponto percentual em setembro, outubro e dezembro. Mas nossa maior convicção é que os cortes acabarão acontecendo alguma hora, com o momento exato dependendo da evolução dos dados econômicos. Dependendo de como vierem, os cortes podem ficar para o ano que vem. O timing exato é difícil de cravar.
“Nosso cenário-base prevê o retorno dos cortes em setembro, mas isso depende dos dados sobre mercado de trabalho”
Há três anos conversamos sobre a possibilidade de elevar a meta de inflação para algo próximo de 3%. Essa discussão ainda é relevante?
Sim, continua relevante, mas é uma discussão difícil para os formuladores de política monetária. Enquanto a inflação estiver acima da meta e os bancos centrais continuarem falhando em alcançá-la, mudar oficialmente o objetivo comprometeria a credibilidade da instituição. Se fosse possível começar do zero, talvez fosse mais razoável trabalhar com uma faixa, algo como 1,5% a 3%, em vez de uma meta rígida de 2%.
Pode dar um exemplo?
Do ponto de vista econômico, não existe grande diferença entre uma inflação estável de 1,75% e outra de 2,5%. O problema é que, depois de anos acima da meta, qualquer alteração poderia ser interpretada como uma tentativa de acomodar o fracasso em controlar a inflação. Por isso, não acredito que veremos uma mudança formal da meta. O mais provável é que o Fed passe a considerar uma gama mais ampla de indicadores de inflação, em vez de depender excessivamente do índice PCE.
Como você avalia a economia americana atualmente? Quanto desse desempenho vem dos investimentos em IA? E a IA está beneficiando outros setores?
Hoje, a IA é parte central das projeções econômicas. Quando analisamos investimentos em data centers, eletrônicos e infraestrutura relacionada à IA, concluímos que aproximadamente metade do crescimento do PIB está vindo desse setor. A outra vem do consumo das famílias. A diferença é que o consumo gera benefícios amplamente distribuídos. Quando as pessoas frequentam restaurantes, geram empregos, movimentam fornecedores e impulsionam diversos setores. A IA gera crescimento, mas é muito mais concentrado. Além disso, depende muito do entusiasmo dos investidores. Caso esse sentimento mude, os investimentos podem desacelerar tornando-se um fator negativo para o crescimento.
“Quando analisamos investimentos em data centers, eletrônicos e infraestrutura relacionada à IA, concluímos que aproximadamente metade do crescimento do PIB está vindo desse setor”
As tarifas de importação tiveram impacto relevante sobre o consumo e a economia?
O impacto foi bastante limitado. Houve algum aumento nos preços de bens importados, mas nada próximo do que muitos temiam. Isso reduziu um pouco o poder de compra dos consumidores e desacelerou ligeiramente os gastos. Mas o efeito foi relativamente pequeno. O mesmo ocorreu com os preços da energia. As famílias de baixa renda foram mais afetadas pelos aumentos dos combustíveis, mas, olhando a economia como um todo, o impacto não foi suficiente para provocar uma queda brusca do consumo.
É curiosa essa resiliência do consumo. Parece que as pessoas conseguiram se adaptar ao cenário inflacionário…
Um fator que ajuda a sustentar o consumo agregado, embora não de forma igual por todos, é que, enquanto os preços vêm subindo, os preços dos ativos financeiros vêm subindo ainda mais rápido. Isso é muito importante. Famílias que possuem patrimônio em ações ou imóveis sentiram-se mais ricas e continuaram consumindo. Isso sustenta o crescimento. Por outro lado, existe um risco. Se houver uma reavaliação negativa do entusiasmo em torno da IA e os mercados acionários caírem, esses consumidores poderão reduzir seus gastos. Esse seria um cenário semelhante ao início dos anos 2000.
Quanto devemos nos preocupar com o déficit dos Estados Unidos?
Não vejo os mercados financeiros preocupados com um risco imediato. Os Estados Unidos convivem com déficits elevados e alta relação dívida/PIB há muitos anos. Ao longo de toda a minha vida profissional, ouvi previsões de crise da dívida americana que nunca se concretizaram. Mas isso não significa que o problema não exista. Déficits de 6% ou 7% do PIB não são sustentáveis no longo prazo. Em algum momento será necessário aumentar receitas, reduzir gastos ou acelerar o crescimento econômico.
E o dólar? A tendência continua sendo de enfraquecimento?
Há forças atuando em direções opostas. Por um lado, o crescimento econômico dos Estados Unidos continua forte. Isso normalmente favoreceria um dólar mais forte. Por outro lado, o Fed dificilmente elevará juros e pode até reduzi-los. Enquanto isso, outros bancos centrais vêm adotando políticas monetárias mais restritivas. Essa diferença de juros tende a enfraquecer o dólar. Por isso, nossa visão atual é neutra. Os fundamentos econômicos sugerem um dólar forte, mas os diferenciais de juros apontam na direção contrária.




