Bloomberg Línea — Eleita a melhor vinícola do mundo em 2025 pelo ranking The World’s 50 Best Vineyards, a chilena Vik transformou-se em uma das marcas mais reconhecidas do vinho de luxo internacional.
Para além dos prêmios e dos rótulos de alta pontuação, o grupo fundado pelos bilionários Alexander e Carrie Vik enxerga em outro ativo o principal motor de seu crescimento futuro: o Brasil.
Maior mercado da empresa para vinhos, principal origem dos hóspedes de seus hotéis e destino escolhido para o maior projeto de expansão atualmente em desenvolvimento, o país tornou-se peça central na estratégia da companhia para os próximos anos.
“O Brasil é indiscutivelmente nosso mercado número um”, disse Gastón Williams, CEO da Vik, em entrevista à Bloomberg Línea durante uma visita à propriedade em Millahue, a duas horas de carro de Santiago.
A operação de vinho no Chile fatura US$ 17 milhões por ano e produz cerca de 800 mil garrafas, e o país responde pela maior parte dessas vendas.
A relação vai além das vendas de garrafas. Segundo o executivo, os brasileiros representam mais de um terço de todo o público que frequenta os empreendimentos da marca, considerando vinícola e hotelaria. Quando analisado apenas o negócio de hospitalidade, o Brasil ocupa a liderança absoluta entre os mercados emissores de turistas.
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Somadas vinícola e hotel, a concentração é ainda mais evidente. “Ponho tudo no liquidificador, vinícola e hotel, tudo junto, e o Brasil é mais de um terço”, afirmou Williams, citando Chile e Estados Unidos como os mercados seguintes.
Quando o recorte é apenas a hotelaria, o domínio é completo. “Se falássemos só do hotel, é Brasil, depois Estados Unidos, depois Chile”, disse. Os americanos, observou, vêm sobretudo viver a experiência da degustação e da gastronomia, enquanto o brasileiro chega em maior número.
O padrão se repete fora do Chile. Nas propriedades do Uruguai, onde a Vik opera três hotéis, um beach bar e um salão de eventos, o brasileiro também lidera. Para uma marca que vende experiência de luxo, ter o mesmo público dominante em mercados distintos transforma a dependência do brasileiro em um dado estrutural do negócio, não em uma sazonalidade.
A força dessa demanda ajuda a explicar por que a empresa decidiu levar sua marca para território brasileiro. O grupo desenvolve um projeto de hospitalidade de luxo em Araçoiaba da Serra, próximo a Sorocaba, no interior paulista, em um investimento que deverá superar US$ 100 milhões.
Mais do que uma nova propriedade, a iniciativa representa uma tentativa de aproximar a marca de seus consumidores mais importantes. “Considerando que temos este vínculo tão forte com o Brasil, era o próximo passo natural levar a marca ao país”, disse o executivo.
O projeto inclui um empreendimento imobiliário com entre 90 e 100 unidades entre quartos, bangalôs e vilas. As obras do hotel estão começando e a previsão é de entrega em 2028. A Vik também pretende plantar vinhedos no entorno e, no longo prazo, eventualmente produzir vinho no Brasil, segundo Williams.
Williams o descreve como o mais ambicioso do grupo, com piscina de ondas, praia, o beach bar Susana trazido do Uruguai e a participação de artistas dos três países. A intenção é reunir as marcas de todas as propriedades em uma só. “Uma vez terminado, vai ser o mais ambicioso de todos”, disse, acrescentando que pretende dar protagonismo à bebida. “Queremos que o vinho seja um player.”
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Esse protagonismo, no entanto, fica para depois. A primeira fase é exclusivamente de hospitalidade. A empresa planeja plantar vinhedos ao redor do hotel e admite, no longo prazo, produzir vinho em solo brasileiro. “Nesta primeira etapa vai ser só hospitalidade, mas talvez em algum momento começar com um vinho no Brasil”, afirmou Williams. “É parte dessa projeção de longo prazo.”
Williams credita parte desse desempenho da marca entre brasileiros à curta distância e à afinidade entre os países. O Chile já é destino consolidado para o turismo brasileiro, o que abre caminho para a marca. “O norte, o sul, a neve; então naturalmente já é um destino para o Brasil”, disse, descrevendo o país vizinho como um destino “superacessível” para quem sai daqui.
A proximidade física, porém, explica só parte da adesão. Segundo o executivo, o brasileiro comprou a proposta justamente por ela não se resumir à taça.
“O brasileiro se sentiu muito identificado com o que propomos, que vai além do vinho”, afirmou, referindo-se à combinação de produção enológica e hospitalidade. Foi isso, na sua leitura, que acelerou a entrada da marca. “Nos ajudou a nos posicionar no Brasil muito mais rápido do que em outros mercados”, disse.
Esse desempenho alimenta uma engrenagem maior. Williams descreve um efeito de rede entre as propriedades, em que cada destino ajuda a vender os outros. “Muita gente chega ao mundo Vik pela vinícola ou pelo hotel e depois continua com o Uruguai, com Milão e, em breve, com o Brasil”, afirmou.
Por trás do calendário de expansão da marca no Brasil há também um cálculo competitivo. O acordo entre Mercosul e União Europeia deve baratear o vinho europeu no país e acirrar a concorrência, mas a pressão recai sobre os rótulos mais baratos, faixa da qual a Vik se manteve afastada desde a fundação.
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“Começamos nos posicionando em cima e fomos desenvolvendo o portfólio um pouco para baixo, mas só um pouco”, disse. O vinho de entrada da casa parte de cerca de US$ 100 a caixa. “Os segmentos que mais sofrem justamente são os de entrada. Nunca estivemos, não queremos estar ali, não é o nosso core business”, afirmou. “Temos todo esse tempo para seguir posicionando a marca dentro do segmento de luxo”, disse Williams, para quem a janela atual serve para firmar a Vik no topo antes que isso aconteça.
A paciência do capital ajuda. Para Williams, os donos tratam o negócio como paixão. Mais do que uma operação que precisa ser rentável, “é um negócio com o qual realmente vibram”, disse.
A aposta também acontece em um momento particularmente favorável para a empresa após a premiação internacional como melhor vinícola do mundo. O reconhecimento ampliou a visibilidade internacional da marca e aumentou o fluxo de visitantes interessados em conhecer a propriedade localizada ao sul de Santiago.
Estar fisicamente no Brasil cumpre outras funções além de vender hospedagem. Williams diz que a operação local encurta o ciclo de decisões e permite experimentar mais rápido. “Para estar mais perto do nosso consumidor, para testar coisas novas com o mercado, coisas que hoje levam mais tempo”, afirmou.
Há ainda um público específico que a marca quer alcançar e que dificilmente cruzaria a fronteira. O executivo aponta o mercado corporativo brasileiro, que prefere realizar eventos e viagens dentro do próprio país a se deslocar para o Chile ou o Uruguai. “É um público importante e que que não necessariamente viaja sempre; prefere estar no Brasil”, disse. Ter uma propriedade em São Paulo coloca a Vik ao alcance desse segmento.
Experiência de luxo
Ao contrário de muitas vinícolas tradicionais, porém, a Vik não se define apenas pelo vinho. A empresa nasceu oficialmente em 2004, quando Alexander e Carrie Vik iniciaram uma busca por áreas aptas à produção de vinhos de classe mundial na América do Sul. Após analisar alternativas no Brasil, Argentina, Uruguai e Chile, o casal escolheu uma propriedade de 4.400 hectares em Millahue para construir a vinícola.
Ao longo das últimas duas décadas o projeto evoluiu para algo maior. “É uma experiência de luxo onde misturamos vinho, gastronomia, arte, inovação, sustentabilidade e desenho”, explicou o CEO.
Hoje o grupo reúne vinícola, hotéis, restaurantes, centros de bem-estar e empreendimentos imobiliários distribuídos entre Chile, Uruguai, Itália e, em breve, Brasil.
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Por mais que o vinho continue sendo o principal negócio da companhia, o modelo de negócios construído pela marca busca capturar uma tendência cada vez mais presente no mercado global de luxo: a valorização das experiências.
Além da produção de vinhos premium, a companhia opera restaurantes, atividades ao ar livre, programas de wellness, experiências gastronômicas e projetos ligados à arte contemporânea.
A ideia é ampliar o relacionamento com o cliente para além da compra de uma garrafa. A estratégia acompanha uma mudança de hábito que Williams observa no setor. O consumo global de vinho recua, mas quem segue bebendo migra para a qualidade. “Prefere consumir menos, mas algo bom, algo bom com história”, disse.
Essa estratégia parece encontrar forte ressonância entre os consumidores brasileiros. Segundo Williams, parte importante do sucesso da Vik no país está relacionada justamente à combinação entre vinho e hospitalidade.
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Para Williams, a conquista do título de melhor vinícola do mundo trouxe benefícios evidentes, mas também elevou significativamente as expectativas dos clientes.
“O reconhecimento também faz às vezes de um novo standard, porque a gente espera ainda mais”, disse. “Temos que estar disponíveis para uma maior quantidade de gente, mas com standards ainda mais exigentes.”




