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A tática de R$ 13 bilhões da Sports Media para o Brasileirão mudar de liga

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A seleção brasileira desembarcou nos EUA para a Copa do Mundo 2026 com o peso de ser a única pentacampeã do torneio. Mas não como favorita. Para especialistas, França, Espanha, Argentina e Inglaterra estão à frente do escrete canarinho, hoje, apenas o sexto colocado no ranking da FIFA.

Entretanto, enquanto corre por fora nos gramados americanos, há quem aposte que o futebol brasileiro tem fôlego para avançar muito mais em outro campo: as receitas geradas pelo Campeonato Brasileiro, organizado atualmente pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

É o caso da Sports Media. Responsável pela captação e gestão dos recursos da Futebol Forte União (FFU), bloco comercial que reúne 33 clubes brasileiros, a empresa projeta que o Brasileirão tem potencial para sair do patamar de R$ 2,9 bilhões, em 2025, para R$ 13 bilhões, nos próximos anos.

“Nós já recuperamos uma parcela que estávamos deixando na mesa, mas foi só uma fração”, diz Bruno Pimenta, diretor-geral da Sports Media, ao NeoFeed. “Ainda existe um gap muito grande entre o que acontece aqui no Brasil e lá fora.”

Dados compilados pelo Itaú BBA mostram essa distância para o pelotão de elite das ligas de futebol. No topo está Premier League, da Inglaterra, com € 1,97 bilhão (R$ 11,6 bilhões). Seguida pela Bundesliga, da Alemanha, com € 1,11 bilhão (R$ 6,5 bilhões), e a espanhola LaLiga, com € 990 milhões (R$ 5,8 bilhões).

Outros números do banco de investimento indicam como o Brasileirão vem reforçando o seu caixa. Considerando a venda de direitos de transmissão, a estimativa é de uma evolução de R$ 1,6 bilhão, em 2019, para R$ 2,8 bilhões no ano passado, bem próximo da referência usada pela Sports Media.

Nos dois casos, quem contribuiu com uma fatia anual de cerca de R$ 1,2 bilhão para esse bolo foi a Liga do Futebol Brasileiro (Libra), bloco comercial que responde atualmente pelos direitos de 9 clubes da Série A, entre eles, Flamengo, São Paulo, Santos e Grêmio – o Palmeiras deixou o grupo recentemente.

Na conta da Sports Media, a partir de estudos internos, a venda de direitos de transmissão no mercado doméstico será o principal vetor de crescimento para reduzir esse abismo. Dos R$ 13 bilhões projetados, a estimativa é de que essa vertente responda por R$ 9 bilhões.

Pimenta defende que a empresa já mostrou o caminho mais viável para multiplicar esses números – a diversificação. Dos R$ 2,9 bilhões movimentados pelo Brasileirão em 2025, o bloco, cujo elenco é formado por times como Corinthians, Vasco, Cruzeiro e Internacional, contribuiu com R$ 1,7 bilhão.

Esse montante, válido por temporada, para o ciclo de 2025 a 2029, veio de acordos com o Grupo Globo, Record, CazéTV/YouTube e Amazon. Já a Libra negociou um contrato de cerca de R$ 1,2 bilhão apenas com o Grupo Globo.

“Nós mostramos que era possível vender fora da Globo, que, mesmo assim, segue sendo nossa principal parceira”, afirma. “Hoje, já está claro que o Brasileirão não vai ser mais vendido de forma fragmentada e isso só virou consenso porque, mais do que um PowerPoint, nós entregamos”.

Para reforçar esse ponto, ele cita a alta de 55% nas receitas de direitos de transmissão dos clubes da FFU, em 2025, o primeiro ano do acordo em vigor, além da expansão de 110% já contratada para o período até 2029. E prevê novos saltos com a chegada de novos jogadores a esse espaço.

“Ainda não trouxemos a Paramount, a Apple, a Netflix e o Mercado Livre para esse bolo”, diz. “Essas plataformas estão entrando em mídia esportiva e essa concorrência maior vai valorizar ainda mais o produto no próximo ciclo.”

Antes de negociar com esses novos players, a Sports Media já está aquecendo para as negociações dos direitos de transmissão da Série B, cujo ciclo se encerra em 2027. Hoje, a empresa e a FFU mantêm acordos com mídias e plataformas como Disney/ESPN, Goat e NSports.

Novo roteiro

O novo roteiro também passa por uma via ainda pouco explorada e que, hoje, é compartilhada pela FFU e a Libra: o mercado internacional. Em 2025, os blocos fecharam um acordo com a 1190 Sports para os direitos de transmissão no exterior das séries A e B, incluindo 39 times – com exceção do Flamengo.

Atualmente, essa linha é praticamente nula nas receitas. Até aqui, a estratégia adotada pela dupla é muito mais divulgar, e não rentabilizar, o Campeonato Brasileiro em outros países. Mas, na projeção da Sports Media, a frente pode alcançar uma escala de R$ 1 bilhão nos próximos anos.

Para que isso aconteça, porém, a FFU e a Libra vão precisar ir além dessa venda conjunta. Pimenta diz que a criação de uma liga única – com a união dos dois blocos – é essencial para avançar no exterior e em marketing – área que completa a projeção da Sports Media com uma fatia de R$ 3 bilhões.

Ele explica que a liga única permitiria, entre outras iniciativas, estabelecer regras como a qualidade do gramado, da infraestrutura dos estádios, iluminação e outras linhas que influenciam decisivamente nas transmissões.

Já na estratégia internacional, seria possível definir, por exemplo, um jogo por semana ou rodada com narradores, transmissões, idiomas e fusos horários adaptados a esses mercados. Isso sem falar na venda de novos formatos e propriedades, tanto no Brasil como fora do País.

“A Copa do Mundo é um ótimo exemplo. Você tem uma música de abertura, um protocolo, o cooling break, as entrevistas pré e pós-jogo”, afirma Pimenta. “Se eu tenho uma liga, eu consigo trabalhar, de fato, o produto e criar um padrão. Fica muito mais fácil replicar esse modelo e trazer patrocinadores”.

Bruno Pimenta, diretor-geral da Sports Media

Diante desse quadro, ele diz que, recentemente, houve uma retomada no diálogo entre FFU e Libra, que, em 2025, estiveram perto de assinar um memorando de entendimento. Agora, quem também entrou em campo foi a CBF, que parece disposta a liderar a conversa sobre a criação da liga.

Nos bastidores, embora não tenha citado nomes, a confederação teria vetado a participação de fundos e outros atores, como a Sports Media, nesse processo. Embora não confirme essa informação, Pimenta diz que esse debate está mesmo restrito aos clubes.

“Se vai ser com ou sem a CBF e à parte de qual será o papel de cada ator nesse processo, o fato é que a criação da liga já está dada”, ressalta Pimenta. “A única questão é quando e em qual formato”.

Dos elogios de um rival ao fogo amigo

À parte desse meio de campo ainda embolado, ele ressalta que a Sports Media está acostumada a enfrentar barreiras desde que foi criada, no fim de 2023, pela gestora Life Capital Partners, como o fundo da FFU. A operação inclui ainda a Livemode, além da General Atlantic e da XP, seus investidores.

“Disseram que nunca conseguiríamos compor com os clubes, que nunca iríamos atrair investidores, vender os direitos fora da Globo. E, depois, que venderíamos esses direitos a preço de banana”, conta. “E superamos tudo isso.”

A própria chancela dos investidores por trás da operação da Sports Media é citada como um argumento para rebater as críticas e reforçar o que a empresa ajudou a desbravar. Assim como o embarque de peso, como o Itaú, em uma captação, via debêntures, de cerca de R$ 800 milhões, feita em 2025.

Ele traz outros dados de evolução da venda dos direitos de transmissão para fortalecer seu discurso. Em 2025, a diferença entre o Corinthians, o time que mais faturou no bolo da FFU, e o Sport, na outra ponta, foi de 1,97 vez, contra 6,25 vezes em 2024. Na Premier League, esse índice foi de 1,6 vez.

“Lembrando que o Sport teve uma receita de direitos de transmissão de R$ 96 milhões, mesmo sendo rebaixado. Em 2024, o Cuiabá caiu com R$ 45 milhões”, afirma. “E isso porque 55% da nossa distribuição de recursos é variável e depende exatamente do desempenho no campeonato e da audiência”.

Também nessa direção, Pimenta cita o caso do Fortaleza, outro clube da FFU rebaixado no ano passado, cuja receita com os direitos de transmissão foi de R$ 160 milhões. “Mesmo caindo, eles faturaram mais que times como Atlético Mineiro, Grêmio e Santos”, pontua.

Esse modelo da Sports foi elogiado, inclusive, por rivais. Esse foi o caso de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, presidente do Flamengo, membro da Libra. Em participação recente na São Paulo Innovation Week, ele ressaltou os resultados obtidos pela FFU.

“Eles tinham 40% da audiência e pegaram 60% do contrato. Fizeram um trabalho excepcional e negociaram melhor. Eu entendo que eles têm uma visão de mercado de futuro que é mais próxima do que eu penso”, afirmou o dirigente.

Em contrapartida, a Sports Media tem sofrido com o fogo amigo, em particular, de clubes da série B e da Série C. Um episódio recente envolveu o Amazonas FC, que alegou ter sido pressionado a retirar ações judiciais que pediam mais transparência nos contratos, sob a pena de retaliações no repasse de recursos.

Sobre essas e outros imbróglios, Pimenta se limita a dizer que são casos isolados. E que já estão sendo tomadas medidas na esfera judicial que, em breve, se tornarão públicas. Ele não economiza palavras, porém, para defender a tese e o modelo da companhia.

“É um ganha-ganha, mas o risco está 100% do nosso lado”, diz. “Não há nenhum compromisso do clube em relação a retorno. Se o time cair de série, não há nenhum tipo de penalização ou ajuste de preço. Ele não me deve nada. Se der errado, o prejuízo fica comigo”.

Ele ressalta que, obviamente, não se trata de um mau negócio. E faz paralelo com um investimento em infraestrutura, no qual, se investe intensivamente nos primeiros 10, 15 anos. Para depois, colher os retornos no longo prazo.

“É claro que estamos enfrentando as dificuldades de crescer e crescer rápido. Você começa a incomodar e, eventualmente, tem mais oposição e críticas. Mas faz parte do processo”, afirma Pimenta. “Com o tempo, todos vão entender que nós não somos os ‘malvadões’ da Faria Lima”.



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