Bloomberg Línea — A União Europeia confirmou que as terras raras estão entre os minerais críticos cujo abastecimento busca garantir na América Latina e destacou que o Brasil poderia se tornar um parceiro estratégico, segundo informaram fontes da Comissão Europeia à Bloomberg Línea.
O comissário para as Relações Internacionais, Jozef Síkela, visitou o Brasil de 19 a 24 de junho para impulsionar a parceria estratégica entre a União Europeia (UE) e o Brasil no âmbito da estratégia Global Gateway.
Por meio do Global Gateway, a UE está mobilizando investimentos em energia limpa, matérias-primas críticas, transporte e infraestrutura digital no Brasil e no restante da região, com o objetivo de criar cadeias de valor compartilhadas, mais limpas, resilientes e alinhadas a padrões ambientais, sociais e de governança.
A visita teve como foco o fortalecimento da cooperação nas áreas de infraestrutura sustentável, cadeias de valor de matérias-primas críticas, energia limpa, conectividade digital e investimentos.
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O desenvolvimento de cadeias de valor conjuntas entre a UE e o Brasil para matérias-primas críticas (CRM, na sigla em inglês) foi um dos principais pontos da agenda.
O comissário Síkela se reuniu com representantes dos setores público e privado.
Funcionários da Comissão Europeia, que optaram por permanecer anônimos por não estarem autorizados a se pronunciar publicamente sobre o assunto, afirmaram que as matérias-primas críticas são essenciais para as transições ecológica e digital, bem como para os setores aeroespacial e de defesa.
Nesse sentido, afirmaram que tanto o Brasil quanto a UE têm grande interesse em construir cadeias de abastecimento mais resilientes, diversificadas e sustentáveis.
Para isso, buscam estabelecer parcerias de longo prazo que gerem valor.
Essas fontes afirmaram que a UE busca parceiros confiáveis e que considera o Brasil um ator global fundamental no setor de matérias-primas críticas.
O interesse europeu por minerais críticos e, especialmente, pelas terras raras já havia sido divulgado à Bloomberg Línea durante uma visita de jornalistas à Bélgica no âmbito do projeto Diálogos sobre o Clima da UE 2 (EUCDS 2), no início de junho.
Prospeção de minerais essenciais
Com base nas prioridades estabelecidas pelo Regulamento sobre Matérias-Primas Críticas, em vigor desde maio de 2024, o Plano de Ação RESourceEU, adotado em dezembro de 2025, prioriza as matérias-primas críticas necessárias para setores industriais-chave.
Entre eles, a indústria automotiva, motores industriais, defesa, setor aeroespacial, chips de inteligência artificial e centros de dados.
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Os minerais essenciais para essas indústrias são aqueles que a UE busca em países terceiros, incluindo a América Latina.
Na América Latina, a UE mantém parcerias relacionadas às cadeias de valor de matérias-primas com a Argentina e o Chile.
No Plano de Ação RESourceEU, foi anunciado o início de negociações com o Brasil para estabelecer uma parceria semelhante.
Além da cooperação e do abastecimento provenientes de países parceiros, fontes da Comissão Europeia afirmaram que a UE está aberta a garantir o abastecimento a partir de outros países onde existam projetos sustentáveis promissores para a indústria europeia e que gerem benefícios mútuos.
Essa cooperação pode ser desenvolvida por meio de outros instrumentos, como as solicitações para Projetos Estratégicos e o Mecanismo de Matérias-Primas.
De acordo com dados da Organização Latino-Americana e Caribenha de Energia (Olacde), a América Latina e o Caribe representam 25% da produção mundial de minerais estratégicos para a transição energética global.
Ele explica que o cobre e o lítio lideram nos setores de eletrificação, redes, baterias e mobilidade elétrica, embora o níquel, o grafite e as terras raras estejam ganhando importância nas tecnologias limpas.
A OLACDE estima que a região gere US$ 180 bilhões por ano em minerais essenciais. O cobre representa cerca de US$ 70 bilhões do mercado regional. E o Chile e o Peru lideram a mineração de cobre na região.
Projetos estratégicos
As fontes consultadas afirmaram que a UE está firmando parcerias estratégicas com três países latino-americanos para desenvolver cadeias de valor sustentáveis de matérias-primas.
Essas alianças garantem o acesso da UE a minerais críticos e, ao mesmo tempo, apoiam o desenvolvimento de capacidades locais de processamento e refino nos países parceiros.
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Na opinião dessas fontes, ambas as partes se beneficiam dessa cooperação.
Por exemplo, um dos projetos de interesse tanto para o Brasil quanto para a UE é a refinaria de níquel e cobalto de São Miguel Paulista, da Jervois.
Este projeto, que envolve uma instalação já existente, visa fornecer produtos refinados de níquel e cobalto aos mercados brasileiro e europeu, além de fortalecer a resiliência das cadeias de suprimentos.
Além disso, o projeto de terras raras Colossus, da empresa Viridis, em Minas Gerais, é uma das quatro iniciativas prioritárias selecionadas para acelerar a colaboração entre a UE e o Brasil em cadeias de suprimentos seguras e sustentáveis.
De acordo com as pessoas consultadas, essa iniciativa reflete o interesse comum por minerais estratégicos, processamento de maior valor agregado, transferência de tecnologia e cadeias de valor mais sustentáveis no Brasil.
Eles explicaram que o modelo de parceria não se limita à extração, mas abrange toda a cadeia de valor para gerar valor agregado localmente.
Nesse sentido, afirmaram que as parcerias estratégicas devem impulsionar o desenvolvimento industrial, a tecnologia, as capacidades e o emprego nos países parceiros.
Por isso, afirmaram que os projetos do programa Global Gateway são definidos diretamente com os países parceiros, atendendo tanto às necessidades de infraestrutura física quanto institucional, a partir de uma abordagem integral.
Competição global por matérias-primas
Em um contexto de maior concorrência global, as autoridades europeias afirmaram que a resposta da Europa não é pedir que seus parceiros escolham um lado, mas sim construir laços mais fortes, diversificados e sustentáveis com regiões como a América Latina.
Eles explicaram que a UE e a América Latina são parceiros naturais.
No atual contexto geopolítico, ambas as regiões precisam uma da outra mais do que nunca, segundo essas fontes.
A UE é o maior investidor na América Latina e no Caribe, seu terceiro parceiro comercial externo e o principal doador de cooperação.
A América Latina e o Caribe ocupam um lugar central na estratégia europeia de segurança econômica e redução de riscos.
Ao mesmo tempo, a Europa desempenha um papel importante na diversificação, estabilidade e crescimento da região, com investimentos europeus que sustentam cerca de 3 milhões de empregos.
Trata-se de uma parceria que visa fortalecer laços, e não criar dependências, acrescentaram as fontes consultadas.
Por exemplo, por meio do Diálogo Digital UE-Brasil e do Partnership Facility, promove-se a harmonização regulatória na área digital e o apoio a startups.
Além disso, no âmbito da iniciativa “Amazônia Verde” e em parceria com a Nokia, está sendo implantada a conectividade móvel 4G nessa região
Além disso, em conjunto com a França e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a UE financia a ampliação do cabo submarino soberano que liga a Europa ao norte do Brasil.
Essa cooperação também abrange o setor de transportes, como a construção da Linha 6 do Metrô de São Paulo, o maior projeto de infraestrutura atualmente em andamento na América Latina.
Paralelamente, acordos comerciais como o tratado UE-Mercosul buscam ampliar o acesso aos mercados e a cooperação regulatória, para que as empresas de ambas as regiões possam diversificar seus fornecedores, reduzir gargalos e fortalecer a resiliência das cadeias de abastecimento diante de futuras perturbações.




