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O futebol entrou na era da Inteligência Artificial. Mas ainda não conhece s…

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Há algumas semanas, enquanto preparava minha apresentação para o Confut USA, em Nova York, reencontrei uma reflexão que me acompanha há muitos anos. Ela voltou à minha mente enquanto organizava um dos slides da palestra e, curiosamente, me fez retornar ao mesmo questionamento que, lá atrás, foi uma das principais motivações para criarmos uma startup dedicada à transformação digital do futebol. A pergunta era simples, mas quanto mais eu refletia sobre ela, mais percebia sua complexidade: como um clube de futebol consegue conectar milhões de pessoas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, vivendo realidades completamente diferentes e, ainda assim, fazer com que todas compartilhem exatamente o mesmo sentimento de pertencimento?

O Maracanã, um dos maiores templos do futebol mundial, recebe pouco mais de setenta e oito mil torcedores em uma partida. Ao mesmo tempo, um clube como o Flamengo reúne dezenas de milhões de apaixonados espalhados por praticamente todos os estados brasileiros e por centenas de embaixadas organizadas ao redor do mundo.

Basta imaginar essa diversidade para compreender a dimensão desse fenômeno. Um torcedor em Manaus, outro em Florianópolis, outro em Fortaleza, outro em São Paulo, outro em Miami e outro em Tóquio vivem realidades completamente diferentes. Cresceram em culturas distintas, possuem sotaques próprios, tradições regionais, hábitos de consumo diferentes, culinárias características de suas regiões e rotinas que pouco se parecem entre si. Apesar de toda essa diversidade, existe algo que permanece absolutamente igual: a emoção de vestir a mesma camisa, cantar o mesmo hino e sentir que pertencem à mesma comunidade.

Quanto mais eu observava essa realidade, mais percebia que a verdadeira riqueza do futebol nunca esteve na sua capacidade de reunir milhares de pessoas dentro de um estádio, mas na extraordinária habilidade de conectar milhões delas muito além das suas arquibancadas.

Durante décadas, aprendemos a medir praticamente tudo o que acontece dentro de um clube. Sabemos quantos ingressos foram vendidos, quanto vale um contrato de transmissão, qual foi a arrecadação com patrocínios, quantas camisas foram comercializadas, qual é a audiência de uma partida e até quantos quilômetros um atleta percorreu durante noventa minutos.

A gestão esportiva tornou-se cada vez mais profissional, mais orientada por indicadores e mais eficiente na administração dos seus ativos. Entretanto, quanto mais me envolvia com projetos para clubes de futebol, mais me convencia de que estávamos dedicando enorme esforço para medir as consequências de um fenômeno sem compreender verdadeiramente sua origem.

Quando perguntamos qual é o maior patrimônio de um clube, normalmente pensamos em grandes jogadores, na força da camisa, nos títulos conquistados, em um estádio emblemático, na tradição construída ao longo de décadas ou na força da marca. Todas essas respostas fazem sentido e representam ativos extraordinariamente valiosos.

No entanto, nenhuma delas explica por que uma criança aprende a amar um clube antes mesmo de compreender as regras do jogo, por que famílias inteiras atravessam gerações compartilhando o mesmo escudo ou por que milhões de pessoas permanecem emocionalmente conectadas a uma instituição mesmo depois de temporadas marcadas por derrotas, crises financeiras e rebaixamentos.

Foi observando essas histórias que compreendi que o maior patrimônio do futebol jamais esteve dentro das quatro linhas. Os grandes jogadores encerram suas carreiras, treinadores mudam de clube, presidentes concluem seus mandatos, patrocinadores seguem novos caminhos e até os estádios passam por reformas ou mudam de nome.

Existe, porém, um patrimônio que permanece vivo independentemente de qualquer uma dessas mudanças, atravessa gerações, resiste ao tempo, sobrevive aos resultados e continua sendo transmitido de pais para filhos como poucas coisas conseguem ser.

Esse patrimônio é a paixão.

Talvez essa seja a maior singularidade da indústria do futebol. Enquanto praticamente todos os setores da economia disputam consumidores, os clubes constroem comunidades. Empresas trabalham para conquistar clientes; clubes conquistam espaço na identidade das pessoas. Empresas competem por participação de mercado; clubes criam vínculos emocionais capazes de atravessar toda uma vida.

Foi justamente essa percepção que deu origem à startup que, mais tarde, se transformaria na Virtual Fans. Naquele momento, nossa intenção era utilizar a tecnologia para aproximar clubes e torcedores, rompendo as limitações físicas impostas pelos estádios e permitindo que a experiência do futebol pudesse continuar viva mesmo quando a partida terminasse.

À medida que os primeiros projetos evoluíam, comecei a perceber que existia algo muito mais valioso acontecendo diante dos nossos olhos. Cada visita virtual, cada conteúdo acessado, cada experiência compartilhada, cada interação realizada e cada decisão tomada por um torcedor revelavam pequenas pistas sobre sua relação emocional com o clube.

Individualmente, esses registros pareciam apenas dados. Observados em conjunto, entretanto, começavam a revelar padrões extraordinários sobre como a paixão nasce, evolui, se fortalece e se manifesta ao longo da vida de milhões de pessoas.

Foi dessa experiência que nasceram os três pilares que hoje orientam nossa visão na Virtual Fans: audiência, comunidade e pertencimento.

A audiência representa a capacidade de um clube alcançar milhões de pessoas. A comunidade surge quando essas pessoas deixam de ser apenas espectadores e passam a compartilhar histórias, valores e experiências. O pertencimento aparece quando o clube deixa de ser apenas uma instituição esportiva para tornar-se parte da identidade daquele indivíduo.

Quanto mais aprofundávamos essa visão, mais compreendíamos que o verdadeiro valor da transformação digital não estava em criar novas plataformas, mas em compreender a jornada que transforma audiência em comunidade e comunidade em pertencimento.

Essa constatação trouxe uma pergunta muito maior do que imaginávamos inicialmente. Como compreender milhões de torcedores que vivem realidades completamente diferentes sem tratá-los como uma massa homogênea? Como criar experiências relevantes para quem frequenta o estádio todos os finais de semana e, ao mesmo tempo, para quem talvez jamais tenha tido a oportunidade de assistir a uma partida presencialmente? Como apoiar patrocinadores com inteligência de mercado verdadeiramente segmentada e fortalecer o relacionamento entre clube e torcida sem perder a individualidade de cada pessoa?

Percebi que o problema não era falta de dados, tampouco falta de tecnologia. O problema era que cada área falava uma linguagem própria e enxergava apenas uma pequena parte da mesma pessoa. Enquanto o clube permanecesse organizado dessa maneira, qualquer decisão continuaria sendo parcial, porque nenhuma área conseguiria compreender a jornada completa daquele que, na minha visão, sempre foi o maior ativo da instituição.

Foi essa necessidade que me levou a criar a primeira Ontologia do futebol, concebida para conectar todas as áreas do clube em torno do seu maior patrimônio: o torcedor. Em vez de cada departamento enxergar apenas uma pequena parte dessa relação, a Ontologia passou a integrar marketing, comercial, sócio-torcedor, bilheteria, e-commerce, comunicação, patrocínios, operações e experiência do torcedor em uma única estrutura de conhecimento. Sobre essa base, agentes de Inteligência Artificial passaram a atuar de forma coordenada, compreendendo hábitos, preferências, comportamentos e jornadas para identificar prioridades, apoiar decisões e otimizar continuamente toda a operação do clube.

Quanto mais aprofundava essas pesquisas, mais compreendia que organizações nunca sofreram pela falta de dados. O verdadeiro problema sempre esteve na incapacidade de representar corretamente as relações entre esses dados. Informação isolada produz indicadores; relações produzem conhecimento; e somente o conhecimento é capaz de apoiar decisões verdadeiramente inteligentes.

Enquanto concluía este artigo, lembrei-me de uma conversa que tive recentemente com o presidente de um grande clube de futebol. Depois de ouvir atentamente tudo o que conversávamos sobre Inteligência Artificial, Ontologia e o futuro da gestão esportiva, ele sorriu e me fez uma pergunta que permaneceu comigo muito tempo depois daquela reunião.

“Leandro, seja sincero… por que eu investiria no que você está me propondo se, pelo mesmo valor, eu poderia contratar mais um centroavante goleador?”

Naquele momento, respondi à pergunta.

Hoje, depois de tudo o que aprendi ao longo dessa jornada, acredito que essa resposta já não pertence apenas a mim.

Ela pertence ao futuro do futebol.

 

 

Leandro Monteiro é Vice-Presidente da ADVB, Chairman da Virtual Fans, CEO da ClubBrain.ai e Autor de “Ontologia da Decisão Empresarial”

 

 

 

* As ideias e opiniões expressas nos artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões da ADVB. Para publicar um artigo ou matéria neste Portal ADVB, envie para redacao@advb.org para aprovação da publicação.

 



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