Uma das maiores cooperativas de grãos do Brasil, a Cocamar (Cooperativa Agroindustrial de Maringá) está cada vez mais atuante na pecuária.
Os esforços já rendem frutos: a expectativa é faturar R$ 150 milhões nessa vertical em 2026. Ainda é pouco em relação ao faturamento total da cooperativa, de R$ 11,5 bilhões em 2025, mas já traz ganhos em margens e sinergias, segundo Renato Watanabe, superintendente de Relacionamento com Cooperados.
Com isso, a Cocamar ensaia se tornar um exemplo bem-sucedido na pecuária, onde o cooperativismo ainda não é tão pujante quanto na agricultura — ainda que às avessas, uma vez que o foco da entidade teve início no café e, atualmente, são os grãos.
Segundo Watanabe, a ideia é seguir transformando pecuaristas em cooperados e estudar novos passos no setor, como um piloto de confinamento terceirizado.
A relação da Cocamar com a pecuária remonta ao fim dos anos 1990, quando criou um projeto de regeneração de pastagens chamado Arenito Nova Fronteira.
À época, o desafio era viabilizar a agricultura no Arenito Caiuá, região que abrange mais de cem municípios no noroeste do Paraná, marcada por solos arenosos e pobres em nutrientes. Na falta de reformas de pasto que os pecuaristas não conseguiam pagar, o uso da terra ficava limitado a uma pecuária extensiva de baixa produtividade.
Para enfrentar o problema, a cooperativa apostou em uma integração lavoura-pecuária em parceria com instituições como o Instituto Agronômico do Paraná, a Embrapa Soja, a Embrapa Gado de Corte e a Universidade Estadual de Maringá (UEM).
Técnicos rodaram a região disseminando práticas de manejo junto a cerca de 200 produtores participantes. Por exemplo, plantar braquiária com o milho safrinha para melhorar cobertura, enraizamento, nutrientes e biologia do solo para a soja; pastejar o rebanho nas áreas agriculturáveis antes de recomeçar o ciclo, usando o esterco como adubo; ou deixar o pasto rebrotar antes de fazer o plantio direto.
“Além de serem arenosos, esses solos têm declividade. Se o produtor prepara do jeito convencional e vem uma chuva de 100 mm, abre uma erosão de caber a sede da Cocamar dentro. A integração com a pecuária trouxe segurança”, explicou Watanabe ao The AgriBiz.
Com os resultados, a visão inicial mudou. “Percebemos que a agricultura é um mal necessário para uma pecuária mais produtiva. A soja deixou de ser um fim e passou a ser um meio para equilibrar a equação financeira.”
As medidas trouxeram eficiência. “O boi ganhava 200 gramas no verão e perdia 100 gramas no inverno, saindo de bezerro a boi gordo em quatro anos. Passou a ganhar de 500 a 600 gramas por ano, e a idade de abate caiu de quatro para dois anos.”
Com o tempo, a Cocamar criou outras formas de ajudar os pecuaristas, como na intermediação da relação com os frigoríficos. Em um projeto junto a 150 cooperados, passou a colocar funcionários nas plantas aplicando um checklist de tipificação de carcaças. Com isso, garantiu que eles recebessem os bônus — ou justificativas caso o adicional tenha sido negado.
“A relação era de desconfiança. Muitos produtores preferiam vender o boi ‘em pé’, porque não viam rendimento na carcaça. ‘No frigorífico, a faca pesa, não pagam o quanto acho que tem de carne’, eles diziam”, conta Watanabe.
Em 2023, a Cocamar passou a abater animais em parceria com o FrigoMendes. Nasceram três marcas próprias: Dia a Dia, Prime e Precoce, vendidas nas unidades da cooperativa e em pontos de varejo e restaurantes em Maringá e Londrina.
A motivação, diz Watanabe, foi o crescimento do mercado de carnes nobres, com o surgimento de açougues especializados e “steakhouses”.
A expectativa, ele diz, é chegar a 17 mil cabeças abatidas neste ano. Do total, mais ou menos metade deve ser processada no frigorífico parceiro e vendida com as marcas próprias, enquanto o restante vai para clientes que comercializam com seus rótulos.
Ainda é muito pouco perto das gigantes do setor — JBS, MBRF e Minerva, com abates na casa dos milhões por ano —, mas permite explorar nichos.
Watanabe não vislumbra uma operação de exportação: “Não faz sentido no primeiro momento. Até porque nosso volume dá um contêiner e meio por ano”. A escala também afasta a ideia de um frigorífico próprio. “Para ser viável, preciso abater no mínimo 120 mil animais por ano, e ainda seria pequeno.”
Boitel
O próximo passo da Cocamar na pecuária é um projeto de confinamento terceirizado, o chamado boitel. A cooperativa vai assumir engorda, infraestrutura, nutrição e sanidade nas fazendas, e o produtor vai pagar por matéria seca consumida — o que atende pecuaristas sem estrutura ou fluxo de caixa para aplicar o modelo.
“Para confinar 150 animais, precisa ter feito silagem ou comprado barato a ração. Às vezes o produtor não tem essa expertise. Somos um facilitador técnico.”
A primeira rodada, ainda neste inverno, terá 300 animais. “Dando certo, vamos investir em um confinamento próprio”, diz Watanabe.
No futuro, a Cocamar estuda entrar na etapa da cria, usando os resultados de um estudo de melhoramento genético iniciado em 2025 com a UEM. Também está nos planos viabilizar a compra de insumos via compromisso de entrega, para o pecuarista não ter desembolsos.
“Se já sei quantos e quais animais vão ser abatidos, e o produtor sabe quanto terá de pagar, podemos fazer travas de preço e descontar no final”, explica Watanabe.




