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Eleições no Brasil vão colocar ‘Doutrina Donroe’ de Trump à prova, segundo pesquisador

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Bloomberg Línea — A eleição presidencial brasileira de outubro pode ser o teste mais difícil da política de Donald Trump para a América Latina, avalia Brian Winter, editor-chefe da Americas Quarterly e vice-presidente de política do Americas Society and Council of the Americas. Com a imposição de novas tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, a dimensão política da influência americana no país ganha ainda mais relevância.

Autor de artigo recente na revista acadêmica Foreign Affairs sobre o que Washington vem chamando de “Doutrina Donroe”, Winter vê o Brasil como a grande exceção a uma ofensiva que, em pouco mais de um ano, ajudou a consolidar uma onda de governos de direita na região, com vitórias na maioria das eleições presidenciais recentes.

Em entrevista à Bloomberg Línea, ele disse que o sucesso americano se explica menos pela figura de Trump, impopular em boa parte da região, do que pelo alinhamento entre sua agenda de segurança e o medo do eleitor latino-americano, que coloca o crime no topo das preocupações. É essa mesma lógica que ele projeta para o Brasil. “Se a eleição brasileira acabar sendo, na cabeça dos eleitores, sobre segurança, Flávio Bolsonaro vai vencer”, afirmou.

O país, porém, já mostrou que o manual do presidente americano tem limites. Para Winter, as tarifas impostas por Trump em 2025 para pressionar pelo arquivamento das acusações contra Jair Bolsonaro foram o maior revés da política do presidente americano na região: fortaleceram Lula, enfraqueceram o ex-presidente e contrariaram interesses comerciais dos próprios Estados Unidos, até serem revogadas pela Casa Branca.

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Ainda assim, o pesquisador não descarta uma nova ofensiva na reta final da campanha. Ele lembrou que esta é uma Casa Branca disposta a usar poder econômico às vésperas de eleições, como fez no resgate à Argentina de Javier Milei, e que a sequência de vitórias da direita na região pode dar a Trump a convicção de que está com a “mão quente” para agir em favor da família Bolsonaro, justamente no país onde a manobra tem mais chance de sair pela culatra.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista, editados para maior concisão e clareza.

Bloomberg Línea: Como você vê essa onda de novos governos de direita na América Latina e como ela se encaixa na ‘Doutrina Donroe’ e no que Trump está tentando fazer na região?

Brian Winter: O sucesso de Trump na América Latina até agora se resume a um fator principal: sua agenda de segurança está alinhada com os desejos e os medos de muitos eleitores latino-americanos e, portanto, de seus governos.

E acho importante notar que é a agenda de segurança dele, mais do que o homem em si, porque as pesquisas mostram que o presidente Trump não é particularmente popular em lugares como Chile, Peru e Colômbia, que acabaram de eleger líderes de direita. Eles estão votando em líderes de direita porque consideram o crime o problema número um. E Washington, como sempre, está na melhor posição para ajudar.

Leia também: EUA impõem tarifa de 25% sobre produtos brasileiros; café e carne bovina são isentos

Quando vi o meu artigo publicado na revista Foreign Affairs [Trump está refazendo a América Latina], meu primeiro impulso foi achar que o título era um pouco exagerado. Mas depois pensei e concluí que ele está correto. É verdade que são democracias votando nesses líderes e tomando suas próprias decisões soberanas. Mas não há dúvida de que o pacote de resgate de Trump para a Argentina e sua pressão sobre o governo Sheinbaum para priorizar a segurança, compartilhar inteligência e adotar uma abordagem mais dura, essas duas coisas sozinhas, bastam para sustentar a ideia de que ele está refazendo a América Latina.

E como essa doutrina se aplica ao Brasil?

O Brasil é a grande e fascinante exceção a muitas dessas tendências. Não é um país onde os EUA historicamente tiveram tanta influência quanto em lugares como Colômbia, Venezuela e a bacia do Caribe. É um país grande, com sua própria força gravitacional e um perfil exportador que lhe dá mais independência quando entra em conflito com Washington. Panamá ou México só poderiam sonhar em adotar a abordagem de confronto que o Brasil adotou. Some-se a isso um senso talvez mais agudo de nacionalismo, e isso explica por que as tarifas de 2025 acabaram sendo o maior revés da política de Trump na América Latina.

Elas não funcionaram econômica nem politicamente como ele esperava. Acabaram beneficiando Lula em vez de prejudicá-lo. Acabaram prejudicando Bolsonaro em vez de beneficiá-lo. E, claro, também prejudicaram interesses comerciais americanos, e por isso havia uma longa fila de gente na Casa Branca e no Departamento de Estado pressionando pelo fim daquelas tarifas quase assim que foram anunciadas, o que a Casa Branca acabou fazendo.

O Brasil é um caso claro de backlash. Não é o único país onde isso poderia acontecer, mas talvez seja o país onde aconteceu primeiro, porque é o mais independente e historicamente um dos menos suscetíveis às ações de Washington.

Leia também: Tarifas dos EUA dão a Lula novo trunfo eleitoral contra Flávio

Estamos entrando no ciclo eleitoral no Brasil, e a segurança também preocupa o eleitor daqui. Esse playbook usado em outros países vai influenciar a eleição brasileira?

Se a eleição brasileira acabar sendo, na cabeça dos eleitores, sobre segurança, Flávio Bolsonaro vai vencer. E isso é mais uma prova de que não é Donald Trump em si que está conquistando todas essas vitórias e produzindo aliados na região. É a agenda de segurança, na qual Donald Trump é forte.

Acho que a eleição brasileira vai ser muito complicada. Haverá outros fatores além da segurança. Não está claro para mim que a segurança será o que os brasileiros terão em mente quando forem votar em outubro, embora as pesquisas sugiram que ela estará pelo menos perto do topo da lista.

Trump vai se limitar a isso ou pode tentar influenciar diretamente a disputa?

Trump já deixou bastante clara sua preferência por Flávio Bolsonaro. Há outras coisas que o governo americano pode fazer para tentar influenciar o resultado. Esta é uma Casa Branca que se mostrou muito disposta a usar artilharia pesada, economicamente falando, nos dias que antecedem uma eleição, de um jeito que nenhuma outra Casa Branca durante a minha vida esteve disposta a fazer.

A Argentina foi o caso-teste. Aquilo foi cronometrado para ter impacto político, para ajudar Milei na eleição de meio de mandato. E isso depois de um período de provavelmente 50 anos ou mais em que os EUA aprenderam do jeito difícil que intervir em eleições assim saía pela culatra quase tão frequentemente quanto ajudava.

A questão agora é que Trump só teve sucesso na hora de escolher seus candidatos na região, porque 12 dos últimos 15 presidentes eleitos na América Latina foram de centro-direita ou direita. Ele provavelmente acha que está com a mão quente, o que pode torná-lo ainda mais propenso a não apenas opinar, mas agir em favor da família Bolsonaro, de um jeito que parece mais provável de sair pela culatra no Brasil do que em muitos outros países.

Pelo que você tem ouvido de suas fontes, quão preocupado o governo brasileiro está com uma interferência americana na eleição?

O governo Lula está bastante preocupado com isso, com o potencial de mais tarifas, mais sanções, mais intervenções verbais. Mas nem todo mundo está preocupado. Há também pessoas no governo Lula que veem isso como uma oportunidade clara, que estão quase rezando para que Donald Trump intervenha, porque até agora isso tem sido bom para Lula.

O backlash é forte o suficiente para acabar beneficiando o resultado dele. E já vemos sinais: boa parte da propaganda do governo brasileiro hoje fala de soberania e apresenta Lula defendendo o interesse nacional. Isso dá a ele um grande antagonista na cabeça de muitos eleitores brasileiros.

Leia também: Tarifa de 50% sobre o Brasil expõe uso do comércio como arma política por Trump

Uma preocupação que ouvimos é a de Trump não reconhecer uma eleição apertada, como Biden fez rapidamente em 2022. Isso é possível ou é exagero?

Nada é impossível em 2026. Mas os riscos parecem menores. Lula não precisa do reconhecimento imediato dos resultados pelo governo americano, porque Lula é quem está no Palácio do Planalto. As Forças Armadas também voltaram em grande medida aos quartéis e não estão mais, ao menos por enquanto, politicamente ativas como estavam naquele período. E essa era sempre a preocupação: que Bolsonaro pudesse tentar reverter a eleição contando com o apoio de ao menos setores dos militares.

Há ainda outro elemento, que é um certo clima no Brasil hoje, que vi este ano em várias visitas, e que se poderia descrever como polarização apática. As pessoas continuam polarizadas, continuam vestindo a camiseta de seu ‘time’, mas ninguém parece tão animado quanto há quatro anos, de nenhum dos lados. Vamos ver como isso estará em outubro. Mas, ao menos por enquanto, não parece que a democracia esteja em jogo como estava nesta altura da eleição de 2022.

Trump tem mais dois anos de mandato e não pode disputar um terceiro. Essa abordagem deve continuar depois que ele deixar o cargo? Vai virar política de Estado dos EUA para a América Latina?

O playbook de Trump para a América Latina é o playbook clássico de Washington para a América Latina. Nós apenas não tínhamos visto muito dele nos últimos 30 anos. Pessoas de uma certa idade nunca tinham visto a Washington que invade e derruba governos e usa ameaças para promover sua agenda. Mas essa abordagem produziu resultados, não há dúvida. A questão é saber se outros republicanos, um sucessor republicano ou possivelmente um democrata podem se sentir tentados a usar a mesma abordagem.

E posso dizer que conversei com formuladores de política democratas, incluindo pessoas que fizeram parte do governo Biden, que estão observando Trump e, embora possam discordar dele, tomam nota de quão eficaz parte dessa pressão tem sido. Então eu não ficaria surpreso se alguma versão da Doutrina Donroe estivesse aqui para ficar, potencialmente por anos.

Leia também: Pentágono pressiona América Latina a elevar gastos com defesa contra o crime organizado

Isso não pode gerar uma reação contrária, com a região se voltando ainda mais contra a intervenção americana?

A história nos diz que sempre há uma reação a esse tipo de tática pesada, de big stick. Você pode traçar uma linha reta entre as intervenções na América Latina sob Theodore Roosevelt, a ocupação de países como Cuba, República Dominicana e Nicarágua, e as figuras antiamericanas que emergiram em meados do século XX, como Fidel Castro, cuja ascensão acabou sendo desastrosa para os interesses estratégicos e comerciais dos EUA por décadas.

Mas também é verdade que há um intervalo de décadas entre as intervenções e a reação. Os que formulam políticas hoje estão naturalmente pensando em obter resultados no curto prazo, e podem dizer que cabe aos sucessores lidar com a reação que pode ou não vir. A história também mostra que algumas dessas intervenções foram relativamente populares em seu tempo, especialmente entre as classes dirigentes. Acho que as autoridades do governo Trump certamente estão cientes dos riscos, e ainda assim dizem: vamos agir no interesse nacional americano hoje, e outros que lidem com as consequências depois.

Quanto dessa pressão sobre a América Latina tem a ver também com economia e com a preocupação com a influência chinesa na região?

Trump incorporou pequenas doses de doutrinas e ideias que caracterizaram a política de Washington para a América Latina ao longo de 200 anos. A face intervencionista do big stick é bem conhecida, mas há também a diplomacia do dólar de William Taft, que elevou os interesses comerciais americanos a prioridade da diplomacia com a América Latina pela primeira vez, e vimos outros casos disso nos anos 1950 e 1960.

É uma abordagem que soma tudo isso, mas o que a unifica é não ter medo de usar o poder americano no Hemisfério Ocidental. É claro que, em alguns casos, os interesses comerciais americanos tiveram papel central nas decisões, com a Venezuela no topo dessa lista.

A justificativa declarada para a Venezuela, nas horas seguintes à captura de Maduro, não foi segurança, e sim petróleo. Na prática, acho que foram as duas coisas. Mas não deveríamos minimizar o aspecto econômico de muitas dessas decisões.





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