O atraso na colheita do café no Brasil, causado principalmente por excesso de chuvas, e as dúvidas que as precipitações deixaram sobre a qualidade da produção foram os responsáveis por uma alta no preço no mercado internacional em julho.
Por outro lado, os primeiros resultados da produtividade na safra brasileira em 2026/27 reforçam a expectativa de uma recomposição dos estoques globais, após anos de aperto. E a entrada vagarosa da nova colheita abre oportunidades para os produtores.
As conclusões são da edição mais recente do relatório Radar Global, do Itaú BBA. No trabalho, os analistas Marina Marangon e Andrew Giaretta afirmam que “o excesso de chuvas, observado principalmente ao longo de junho, trouxe desafios importantes”.
Além de reduzir o ritmo da colheita, isso atrasou a secagem e o beneficiamento dos grãos, retardando a chegada do novo café ao mercado. Além disso, em algumas regiões, como sul de Minas, cerrado mineiro e Mogiana paulista, a chuva provocou queda de frutos no chão, “aumentando preocupações com a qualidade”.
Essas foram as razões, segundo Marangon e Giaretta, para o aumento nos preços em julho, até aqui de 5,8%. Em um único dia, em 6 de julho, o arábica subiu mais de 16% em Nova York no embalo das preocupações com o café brasileiro.
Depois, “à medida que o mercado absorveu o choque e houve realização de lucros”, os preços se acomodaram, mas ainda em “patamar elevado”. Segundo o Itaú BBA, o robusta seguiu o comportamento, com alta de 4% no mês em Londres, e um pico de 4% no mesmo dia 6 em que o arábica disparou.
Para os analistas, colaborou para a tendência altista a previsão de um El Niño “muito forte”, com o mercado “incorporando um prêmio de risco climático”, e os preços devem seguir acompanhando o aumento da disponibilidade e os testes de qualidade.
Números da Cooxupé confirmam o cenário. A colheita atingiu nesta semana 47,3% na área de cobertura — sul de Minas, cerrado mineiro, matas de Minas e Média Mogiana paulista. No ano passado eram 59%, e na média dos últimos cinco anos, 58,3%.
A Safras & Cifras reforçou a percepção em sua estimativa da produção do País. Segundo a consultoria, 64% da safra brasileira havia sido colhida até 16 de julho, abaixo dos 77% em 2025 e dos 70% na média dos últimos cinco anos.
José Donizeti Alves, professor da Universidade Federal de Lavras, detalhou os efeitos na lavoura. Em divulgação do fórum da Cooxupé sobre previsões climáticas, no dia 29, ele citou chuvas localizadas e irregulares, intercaladas por períodos de veranicos com déficits hídricos e choques térmicos que induziram floradas fora de hora.
“Houve também períodos com noites frias e dias quentes que geraram grandes amplitudes térmicas e provocaram a queda de gemas, flores, frutos e folhas”, disse Alves, que também mencionou episódios localizados de granizo e geadas acima da média histórica.
Estratégia de proteção
Para o Itaú BBA, a recente valorização do café cria oportunidades aos produtores.
Na compra de insumos e na comercialização, o banco recomenda estratégias de proteção para garantir margens e reduzir riscos. E diz que apesar da esperada volatilidade ligada ao clima, “as perspectivas de recuperação da oferta global, bem como as relações de troca de fertilizantes favoráveis para o próximo ano”, abrem oportunidades em derivativos.
Uma alternativa, diz o banco, é a venda de NDFs em Nova York, em reais, para contratos de setembro ou dezembro de 2027. Os NDFs, do inglês para “contrato a termo não entregável de café”, é um derivativo que fixa o preço futuro de venda sem entrega física no vencimento. Isso dá ao vendedor mais liberdade para negociar a produção mais próximo da colheita, afirma o relatório.
Recomposição de estoques
Os analistas do Itaú BBA reforçam que, mesmo com atraso e eventuais problemas de qualidade, a nova safra — somada a boas produções em Vietnã, Colômbia e Etiópia — deve ser suficiente para recompor os estoques ao melhor nível dos últimos anos.
Citando dados do USDA, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o banco estima a produção global em 190 milhões de sacas, alta de 6,1% frente a 2025/26. Na demanda, o USDA projeta o consumo global em 180 milhões de sacas, 3,6% a mais que 2025/26. Com isso, “o mercado deve ter superávit de 9,9 milhões de sacas”.
O excedente em 2026/27 levaria o estoque global a 26 milhões de sacas. “Com isso, a relação estoque/consumo avança de 14% para 15%, sinalizando uma recomposição gradual da disponibilidade”, ainda que os níveis sigam abaixo do início da década”.
De acordo com o relatório, a nova safra também deve ampliar o excedente exportável de café verde do Brasil em 29,6% na base anual, para 49,4 milhões de sacas.




