A Allied prevê um segundo semestre de 2026 positivo na venda de handsets. Em conversa recente com o Mobile Time, antes de entrar em período de silêncio na última terça-feira, 29, o CEO da empresa, Silvio Stagni, explicou que o período deve ser forte por alavancas comerciais, como os lançamentos de smartphones de Apple e Samsung, assim como a Black Friday que, tradicionalmente, supera o natal em vendas.
Como um dos principais distribuidores de celulares e eletroeletrônicos da América Latina, o executivo mantém essa visão otimista apesar da crise das memórias que assombra a cadeia de suprimento global de dispositivos. Mas reconhece que haverá uma alta de preços mais acentuada nos dispositivos para a segunda parte do ano, opinião que coincide com falas do CEO da Apple e relatório recente da Omdia.
Além das expectativas para o segundo semestre, Stagni dialogou com essa publicação sobre a dinâmica do mercado de dispositivos, o avanço de sua empresa na América Latina no mercado de serviços de valor agregado, o redesenho para o mercado de crédito B2B e a estratégia da companhia para a reforma tributária. Confira:
Mobile Time – Recentemente estive na operação de vocês em Jundiaí com a Trocafy [empresa de recondicionados da Allied] e fiquei impressionado com o espaço e o grau de segurança no local. Ainda mais tendo a Apple ao lado…
Silvio Stagni – Sim. Nós temos mais segurança que a Apple. Eles estão uns passos atrás da gente. É um bunker lá. Mas acabamos de alugar mais um módulo. Mesmo sem precisar, acreditamos que a reforma tributária trará uma corrida por armazéns em São Paulo. Então, surgiu a oportunidade do módulo anexo ao nosso, que estava livre.
Então, como vocês veem esse caminho da Allied com a reforma tributária?
As mudanças da reforma tributária começaram esse ano. Houve uma mudança muito sutil, mas as notas fiscais já faturamos desde primeiro de janeiro com o IBS e o CBS, apesar de não ter cobrança ainda. Acho que a grande mudança vem agora, na virada de 2026 para 2027 com o split payment. Em termos de sistema e de entendimento, acho que essa mudança vai trazer mais complexidade técnica para a gente se adequar à reforma tributária. Nós e o Brasil inteiro.
Existe a possibilidade de uma nova guerra fiscal?
Como a reforma tributária vai determinar o destino do imposto, essa guerra entre os estados deve acabar. Só que a guerra entre os estados é fortemente baseada no ICMS. E o ICMS, a gente tem um período de transição até 2032. As diferenças de ICMS entre estados serão cada vez menores, porque existe curva descendente do ICMS. Mas até 2032 ainda haverá possibilidades. Por exemplo, nós temos o armazenamento do Espírito Santo que tem um benefício fiscal de ICMS [Compete-ES]. É um benefício estadual com mais de 1 mil empresas. Mas vai diminuir até 2032. Então, nós entendemos que o período de transição é complicado, porque no fundo você vai trabalhar praticamente com dois sistemas, com o velho e com o novo. Mas vai simplificar muito em diversos aspectos.
Nos últimos meses, a Allied tem focado bastante na parte de serviços. Isso faz parte de uma estratégia mais alinhada com os benefícios da reforma tributária ou não?
Estamos no caminho para aumentar a venda de serviços. Nós já somos grandes vendedores de planos celulares. Temos uma solução (aplicativo) que a gente coloca na mão dos vendedores. Está no Magazine Luiza e na Fast Shop, por exemplo. Com o aplicativo na mão, os vendedores podem vender com simplicidade um plano (de celular) da Vivo, da Claro, da TIM. Com essa mesma solução podem vender o Microsoft Office e o antivírus McAfee. Então, a gente já vem trilhando caminho de venda de serviços. Mas com a reforma tributária os serviços devem ficar mais caros. Vai diminuir os impostos de produtos e aumentar nos serviços.
Como estão os resultados das vendas de serviços?
Apenas em celulares nós vendemos mais de 20 mil linhas por mês. Estamos trilhando esse caminho, o cliente entende que nós temos expertise. Hoje nós somos o grande vendedor de Microsoft no Brasil. Somos exclusivos de McAfee no Brasil. Então, é um caminho natural nosso. Temos diversos varejos conectados a nós que vendem o Microsoft Office de forma eletrônica.
Por vender 20 mil linhas de celular mensalmente, vocês nunca pensaram em montar uma operadora virtual (MVNO) da Allied?
Nunca pensamos. Por que com uma MVNO, no fundo, você está comprando de alguma operadora. Nunca acreditamos que uma MVNO fosse ter sucesso (no Brasil). O maior caso de sucesso é a NuCel que conseguiu crescer bastante. Mas, mesmo no mundo, são poucas empresas. Virgin foi a maior delas, mas começou a diminuir também. Portanto, nós nunca pensamos nisso. O que fazemos é levar a solução para o vendedor, facilitar e simplificar. Somos agnósticos, a solução atende todas as operadoras. No Magazine Luiza, uma pessoa consegue comprar um plano controle em quatro minutos.
Há outros planos de celular, além de controle?
Nós não vendemos os planos pós-pagos, pois exige uma documentação mais complexa. Focamos no controle para todas as operadoras e somos comissionados neste processo. Portanto, a dor de cabeça de resolver o problema da operadora continua com a operadora. Não é nosso. Prestar atendimento a esse plano não é nosso. Nós vendemos 20 mil planos/mês, porque temos o acesso ao cliente da Magalu. Ou seja, a nossa plataforma é intermediária para prover uma solução à operadora. Então, nós temos esse SAV [superapp de vendas] que é um marketplace de serviço. Estamos provendo uma solução para a operadora chegar no varejo. Todos os nossos negócios são meio nessa linha, de fazer uma parte que o time deles não pode ou não querem fazer sozinhos. Eles precisam de alguém para fazer com eles e a gente é esse parceiro.
Há outros serviços que vocês querem ter neste marketplace?
Olhamos com carinho tudo que podemos colocar como venda de serviço, sempre pensando no consumidor. Portanto, nós continuamos olhando as oportunidades. Esse aplicativo pode acoplar serviços nele. Então, nós acoplamos também a nossa solução de trade-in. Se o cliente entrar em uma loja da Fast Shop e o vendedor oferecer para comprar o seu telefone usado, o trade-in será com a Trocafone que você conheceu. A maneira como o profissional executa a compra no ponto de venda é através desse mesmo aplicativo. Então aqui tem antivírus, tem Office, tem trade-in… Colocamos seguros. Com isso, nós continuamos olhando as oportunidades.
Allied, 2026 e a crise das memórias

Imagem de arquivo com Silvio Stagni, CEO da Allied (reprodução: Allied Day em 2023)
Como tem sido o ano da Allied até aqui?
No final do ano passado, quando a NVIDIA declarou a necessidade para ter mais memórias, os três fabricantes de memória (Samsung, SK Linx e Micron) viram que não teriam capacidade para suprir a NVIDIA e o resto do mercado. Os fabricantes nos procuraram e falaram: ‘vai ser um ano onde os preços subirão significativamente e que talvez tenha até falta de produtos’. Nós começamos 2026 muito temerosos. Mas, se olharmos os dados da GFK no Brasil até maio, o mercado de celulares caiu 5% em volume, mas cresceu 5% em receita. Ou seja, entre janeiro a maio, os preços dos celulares subiram 10% no Brasil. O mesmo aconteceu com televisão. E o mesmo vem acontecendo com notebooks. Então, os volumes vêm caindo, mas os preços vêm crescendo e o mercado em valor vem crescendo. Teve um um fator positivo no mercado de televisão que foi a Copa do Mundo, um grande driver de venda de televisão. Então, televisão é o único que foge desse padrão, pois cresceu em valor e volume no primeiro semestre.
Mas qual o impacto até o momento?
Nós não tivemos falta de produtos, mas a gente viu os preços crescerem constantemente e isso sempre nos deixa temerosos, se pode esfriar o mercado ou não. Até agora, o mercado está absorvendo o aumento de preço (na ponta), pois apesar da queda de volume dos 5% os preços aumentaram. Portanto, deu conta de absorver. Um ano que podia ser muito difícil não foi muito difícil até agora.
Mas este não é o único impacto no setor. Tem taxa da Selic alta, eleições, certo?
Sim. O ano vem trazendo dificuldade com a manutenção de uma taxa de juros tão alta que fere muito o varejo. O varejo vende em 10 vezes ou 12 vezes, isso demanda capital de giro e a Selic de 15% está há bastante tempo. Temos visto alguns varejos terem mais dificuldade e estão diminuindo o número de prestações. Mas, se olhar o todo do primeiro semestre de 2026, o mercado foi muito melhor do que a gente esperava. GFK mostra isso.
Nenhuma categoria tem sofrido com a crise das memórias? Quais impactos podemos esperar?
Não houve falta de produtos, mas tivemos aumento de preço. Algumas categorias mais do que outras. A categoria mais impactada pelo aumento de preço até agora é a de notebooks. Mas o aumento de preço do fabricante demora um certo tempo até chegar na ponta. Qualquer varejo trabalha com 90 dias de estoque. Então, como os aumentos que aconteceram aí no primeiro e no segundo trimestre ainda vão aparecer no consumidor. Já surgem parcialmente, mas veremos um segundo semestre com os preços aumentando. Então, as dúvida são se o consumidor vai aceitar esse aumento do preço no segundo semestre e se o mercado vai se esfriar um pouco. Normalmente, o comportamento normal é uma reação inicial de resfriamento e depois se assimila que o mundo mudou e que os preços serão outros. Essa crise de memórias não é só 2026, deve durar 2027 inteiro. Só existem três fabricantes. A expansão desses três fabricantes ou a criação de novas fábricas demanda não só investimentos muito grandes, mas dois anos para estar pronto. Então, nós teremos uma pressão de preço pelos componentes por pelo menos dois anos.
Em smartphones, qual o impacto esperado e como o mercado pode enfrentá-lo?
A inteligência artificial demanda mais capacidade dos aparelhos, então, nós temos visto uma migração para produtos com mais memória. Há uma migração de portfólio com os aparelhos de celular de pouca memória deixando de existir e as pessoas estão migrando para produtos com maior capacidade. E as categorias no mercado falam muito por faixa de preço. Com o aumento do custo da memória, quem vai sofrer mais são os handsets mais baratos. Então, a variação percentual de preço será maior nos telefones mais baratos que nos mais caros. Por exemplo, um iPhone 17 que custa R$ 10 mil consegue absorver o aumento do custo da memória mais que um telefone básico de R$ 799 ou R$ 999. Esses vão sofrer mais.
Nesse cenário, eu imagino que a Trocafy tem um papel importante para democratizar o acesso da população aos celulares de memória mais alta, ainda que recondicionados?
Sim, naturalmente. Se os produtos de entrada vão diminuir e os produtos mais caros continuarão em uma curva de crescimento, nós acreditamos que a Trocafy é uma boa aposta e uma alavanca de crescimento. Porque entendemos que o mercado de recondicionados se torna ainda mais relevante e será favorecido neste período de transição. Voltando à GFK, a tabela mostra na comparação de janeiro a maio de 2025 x 2026: os produtos até R$ 1,5 mil eram 36% do mercado de celulares. Esse ano são 29%. Então cai quase 6 pontos percentuais. Enquanto a categoria acima de R$ 3 mil reais foi de 41,5% para 46,5%, um crescimento de 5 p.p. O aumento de preço está impactando os telefones de valor mais baixo, muito mais do que os de valor mais alto.
Nós falamos muito do Brasil, mas como está a Allied na América Latina? Foi registrada uma queda de receita no primeiro trimestre.
Legal que você trouxe isso. É um tema importante para explicarmos. Como você disse, a receita caiu, mas a margem melhorou. Se olharmos o primeiro trimestre de 2026, a receita cai por causa da nossa operação internacional. A operação internacional, em Miami, tem três linhas de produtos. Nós temos Motorola, Xbox da Microsoft e Apple. São poucas linhas de produto. Por que caiu no primeiro trimestre? O iPhone 17, lançado em outubro do ano passado, foi um sucesso brutal no mundo inteiro. E não tivemos todo o volume para suprir a demanda. Foi uma limitação de supply. [O iPhone 17 na América Latina não vem com eSIM, vem com SIMCard físico, por isso a demora, explica a gerente de RI da Allied, Lia Camargo. Ela Também afirmou que a operação é bem flexível e enxuta com dois funcionários e grande parte do trabalho operacional feito a partir do Brasil].
No geral, como está a operação internacional? Quantos países são atendidos hoje pela Allied? Há planos para expansão?
O internacional é um dos drivers de crescimento que temos dentro da empresa. Primeiro em crescimento de portfólio. Hoje nós temos só três linhas. No Brasil temos mais de dez categorias de produtos. Portanto, há espaço para crescer. Também temos espaço para crescer em termos geográficos. Hoje atuamos com varejistas de 16 países da América Latina, os principais países. Os próximos serão menores.
Como está a operação de crédito da Allied? Vocês deixaram o B2C e passaram a atuar apenas no B2B?
[Camargo: Somos bons em dar crédito para o varejo. O crédito para o consumidor não é o nosso perfil. Nós aprendemos que temos produtos de compra de frequência alta. Esses negócios de crédito ao consumidor exigem uma frequência de compra maior do que o portfólio que a gente atua. Então não fez sentido e a gente saiu desse negócio].
Porque que criamos a Soudi (antiga marca de financiamento B2C da Allied)? Temos lojas físicas Samsung e percebemos que até 10% dos consumidores entravam na loja, mas não tinham saldo no cartão de crédito para comprar o handset que queriam. Vimos uma oportunidade, uma diferença tecnológica que nós – com uma solução da Samsung – poderíamos bloquear o telefone do consumidor caso ele não ficasse adimplente. Pareceu naquele momento uma solução muito boa, pois conseguiria dar taxas de juros baixa e tínhamos como garantia o próprio bem. Mas como a Lia Camargo estava contando, dar crédito ao consumidor é muito complicado. Nós não criamos um conhecimento de crédito suficiente para ser eficiente ao consumidor.
Mas tem outros modelos de pagamento que planejam explorar? Para atender esse público menos bancarizado?
Em algumas lojas Samsung, nós estamos testando uma solução da PayJoy. Que é uma solução muito parecida com a que usávamos. A plataforma aprova o crédito de uma forma bastante agressiva, porque também tem o celular como garantia. Isso é feito através de uma solução tecnológica que trava o celular do consumidor caso ele deixe de pagar. Mas, de novo, isso é para resolver um problema de 10% dos consumidores que entram na loja. Porque a maior parcela na loja da Samsung, naturalmente, é de consumidores bancarizados.
Como vocês são os responsáveis pelas lojas próprias da Samsung? Como funciona esse negócio? Qual o perfil desses compradores?
Nós temos o maior tíquete médio de celulares do Brasil. Os consumidores não entram para comprar o telefone de R$ 800. Os clientes entram na loja Samsung para comprar o telefone de R$ 9 mil. Isso porque a loja vai ter todas as cores, todos os tamanhos de memórias, um vendedor vai despender tempo para transferir os dados do telefone antigo para o novo. É uma venda assistida. Aliás, essa é a razão de existir nessas lojas: a Samsung quer ter um espaço físico para promover essa experiência de marca e essa venda do portfólio premium.
Voltando ao crédito, como funciona a operação de apoio ao B2B?
Desde o começo do ano passado, nós decidimos que isso seria uma vantagem competitiva para nós. Temos múltiplas opções de crédito para o nosso varejo. Então, nós já tínhamos tradicionalmente uma seguradora de crédito, que é uma solução normal nesse mercado. Algo como: ‘Olha, até R$ 10 milhões (em compra) eu dou seguro’’. Trouxemos uma startup que dá crédito baseado no comprometimento dos recebíveis, trouxemos uma outra empresa que tem uma inteligência muito grande na análise do comportamento de varejo e consegue dar um adicional de crédito em relação à seguradora. Hoje nós temos seis soluções de crédito. Com isso a gente consegue prover para praticamente todo o varejo brasileiro, às vezes não o limite total que eles querem, mas quase a totalidade da necessidade deles.
Quem é o público-alvo dessas soluções?
Nós oferecemos para aquilo que consideramos ‘varejo ativo’, um mercador que fez alguma compra conosco nos últimos três meses. Hoje nós temos 600 varejos ativos. Atuamos na lógica da pirâmide. O topo da pirâmide são os 50 maiores varejistas que são atendidos pela indústria. Depois vem esses 600 que nós atendemos. Entre eles há o pequeno distribuidor que, por exemplo, vende cartucho da impressora para as papelarias. Nós vamos nessa camada intermediária dos varejistas.
Agora, no geral, como a Allied espera o segundo semestre?
Temos três fatos importantes que deixam o segundo semestre forte todos os anos: lançamento do iPhone; o lançamento dos dobráveis Samsung; e a Black Friday.
Sim, é verdade que esse ano a gente terá aumento de preço como consequência da falta de memórias. O quanto isso vai impactar nessas três datas não sabemos mensurar. Mas apostaria que será um segundo semestre positivo para o mercado. Não sei se será tão positivo quanto o ano passado, mas essas três ocorrências realmente são muito fortes e levam o mercado para cima.
A IA já é fator para melhorar este cenário em handsets?
Sim. O que guia o mercado são as mudanças tecnológicas. E a IA vem trazendo o mercado de celular para cima há três anos. Se lembrarmos, as campanhas da Samsung estão sempre em cima de funções da IA, como o Circle to Search. Essas mudanças estão sendo o foco da comunicação e fomentam a vontade do consumidor de trocar para um handset apto para isso. Os novos celulares estão trazendo cada vez mais funções de IA. Essas novas tecnologias fomentam o crescimento do mercado. Os computadores também vêm com novos chipsets preparados para IA. Pode usar o ChatGPT de uma forma muito mais eficiente. Isso também vai fomentar a venda de computadores.




