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como a IA reconfigurou o tabuleiro da cibersegurança corporativa – ConvergenciaDigital

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Por Solange Calvo, especial para o Convergência Digital

A Inteligência Artificial (IA) não pediu licença. Entrou no ambiente corporativo, reorganizou prioridades e, no processo, transformou empresas que antes observavam a tecnologia com desconfiança em entusiastas convictas de seu potencial. O que parecia, para muitos, apenas mais um ciclo de hype tecnológico com prazo de validade, se provou algo bem diferente: uma mudança estrutural na forma como as organizações pensam produtividade, risco e vantagem competitiva. Mas o preço da aceleração é repensar identidade, resiliência e cultura de inovação.

Esses insights foram discutidos em coletiva de imprensa liderada por Paul Furtado, Vice-Presidente Analista do Gartner e Oscar Isaka, diretor Analista Sênior do Gartner, realizada durante a Conferência Gartner Segurança & Gestão de Risco, evento que teve início ontem, em São Paulo, e termina hoje.

Especialistas do Gartner, em análises recentes sobre o futuro da IA e da cibersegurança, sustentam uma visão que desarma o discurso apocalíptico dos primeiros anos dessa revolução. “A jornada de inovação em si não mudou. Os processos de teste, adoção e maturação de uma nova tecnologia seguem uma lógica conhecida. O que mudou foi a intensidade”, disse Isaka.

E o sintoma mais evidente dessa intensidade tem nome: velocidade. A IA comprimiu ciclos, acelerou entregas e, paradoxalmente, abriu espaço para que as lideranças dedicassem mais tempo ao pensamento estratégico. Tempo hoje vale mais que terras raras na jornada de evolução da tecnologia.


Apetite por IA é maior que apetite por controle

Os números reforçam esse cenário de corrida acelerada. Segundo o Gartner, 87% dos CIOs e executivos de tecnologia planejam aumentar investimentos em IA generativa em 2026. Ou seja, o mesmo percentual reservado para segurança da informação, sinal de que as duas frentes já caminham juntas nos orçamentos corporativos. Não é coincidência: quanto mais a IA se espalha pela operação, maior a pressão sobre as defesas.

Essa pressão já chegou às salas de conselho. De acordo com pesquisa do Gartner com membros não executivos de boards, 84% enxergam a cibersegurança como risco de negócio, 93% acreditam que o risco cibernético ameaça diretamente o valor para acionistas, e praticamente a totalidade (98%) espera que as ameaças cresçam nos próximos dois anos. Segurança deixou de ser pauta técnica isolada para virar item permanente da agenda estratégica na era da IA.

Identidade, o novo perímetro

Um dos alertas mais contundentes do Gartner diz respeito às identidades digitais. Com a proliferação de agentes de IA operando de forma autônoma, as empresas caminham para ter até 80 vezes mais identidades de máquina do que identidades humanas em seus ambientes. “É um salto que redefine completamente o conceito de perímetro de segurança e que exige modernizar a gestão de identidade e acesso (IAM) como infraestrutura fundamental, não como item acessório”, destacou Furtado.

Some-se a isso um dado revelador sobre a chamada “shadow AI”. Mais da metade dos CISOs consultados pelo Gartner suspeita ou já tem evidências de automações via agentes de IA usadas por colaboradores sem aprovação formal, e quase um terço dos profissionais de TI que usam ferramentas de IA generativa no trabalho admite fazer isso às escondidas. A tecnologia avança mais rápido do que a governança e é justamente esse descompasso que mantém os CISOs em alerta.

Resiliência substitui prevenção como métrica de sucesso

O recado do Gartner aos líderes de segurança é direto: a era em que “não ser atacado” definia sucesso ficou para trás. Diante da normalização dos ataques, o novo critério é a capacidade de resistir, responder e se recuperar. Resiliência é hoje a única estratégia que pode ser testada e comprovada de fato aos stakeholders, ao contrário da prevenção pura, que é sempre uma promessa.

Para se manterem à frente, os CISOs devem concentrar esforços em três frentes, segundo o Gartner: modernizar a identidade como base de toda a arquitetura de segurança; redefinir sucesso a partir da resiliência, e não apenas da prevenção; e reduzir barreiras internas à inovação, permitindo que os times experimentem com segurança, escalem automação e apliquem IA aonde gera valor mensurável e imediato. Times de operação de segurança que executarem bem essa transição podem, segundo projeções do Gartner, reduzir em até 30% os incidentes que hoje exigem intervenção humana até 2028.

O ponto de virada é conceitual: atacantes e defensores usam a mesma IA generativa (GenAi), aprimorando habilidades no mesmo ritmo. A vantagem não está mais em ter a tecnologia, está em ter a governança para usá-la bem. Como resume o próprio Gartner, a IA será uma multiplicadora de força para quem defende, desde que identidade, ações de agentes e aplicações de IA estejam devidamente sob controle.

Proteger tempo para inovar, afinal, também é proteger o negócio. E nessa toada, uma ação urgente é a revisão da cultura da empresa, com políticas bem-definidas, alinhadas aos objetivos de negócio e letramento dos colaboradores na tecnologia com uso responsável para que se sintam pertencentes ao novo mundo.



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