Brian Requarth vendeu o marketplace de imóveis Viva Real para a OLX Brasil em 2020 por R$ 2,9 bilhões. Meses depois, fundou a Latitud Ventures – um fundo de venture capital para ser o “primeiro cheque” de startups latino-americanas.
No início, quase todas as investidas eram voltadas para os próprios países onde haviam sido fundadas. Mas do final de 2024 para cá, Brian notou uma grande mudança: cada vez mais as startups já nascem mirando o mercado global.
O que explica essa virada?
“Foi um ChatGPT moment,” Brian disse ao Brazil Journal.
Luisa Dalla Costa, outra sócia da Latitud, disse que a inteligência artificial “borrou as barreiras geográficas”; hoje é possível construir soluções globais com um time pequeno a partir de um escritório em São Paulo.
“Começamos a ver founders muito mais ambiciosos, querendo dominar mercados no exterior,” disse Luisa.
A transformação impactou a principal tese de investimento da Latitud: em vez de apostar em negócios na América Latina, agora o fundo procura apostar mais em founders da região.
“Deixamos de ver a América Latina como mercado, e agora pensamos na região como base de talentos,” disse Brian.
A Latitud já captou dois fundos, um de US$ 12 milhões e outro de US$ 25 milhões, e hoje tem participação em mais de 100 startups.
Além dos fundos, a gestora também oferece uma fellowship concorrida, cujos números comprovam a ‘mudança de chavinha’ na ambição da nova geração de startups latinoamericanas.
Em 2021, nem 4% dos participantes do programa tinham negócios focados no mercado internacional em vez de seu país de origem. Esse percentual deu um salto a partir de 2024, e no segundo semestre do ano passado chegou a 46%.

No universo do venture capital para AI, (quase) todos os caminhos levam a São Francisco. No ano passado, os EUA concentraram 79% do funding. Foram US$ 159 bilhões – e desse total, US$ 122 bilhões saíram da Bay Area.
A fellowship, antes essencialmente uma oportunidade de networking e de entrar em contato com pessoas que lideram o setor de tecnologia nos EUA, agora evoluiu para ser o primeiro cheque das startups.

O funil de seleção é cruel. São apenas 8 selecionados por ‘turma’, cerca de 1% do total de inscrições – uma taxa de aprovação menor que a de Stanford ou Harvard, onde os percentuais ficam entre 3% e 4%.
Entre as startups vencedoras das fellowships mais recentes, a maior parte focou em criar soluções ‘horizontais’ de AI, com camadas de aplicação para fins específicos a partir dos modelos de fronteira de gigantes como OpenAI e Anthropic.
Duas startups criadas por brasileiros (e apoiadas pela Latitud) são exemplos disso.
Uma é a Taste Labs, fundada por Thais Castello Branco, que vende dados para treinamento de modelos e tem como missão desenvolver o gosto e os sentidos dos LLMs. Outra é a BeConfident, criada por Robson Amorim, que desenvolveu um tutor de AI para aprimorar a fluência em inglês e já tem mais de 3 milhões de usuários pelo mundo.
“Vemos muitas oportunidades para aplicar de maneira mais eficiente os modelos na fronteira da AI, sobretudo no middle-market e em workflows específicos,” disse Luisa. “É isso o que temos visto acontecer.”




