Com o déficit público nominal atingindo 10% do PIB, o que antes preocupava apenas economistas, parte do mercado e uns poucos políticos transbordou para círculos maiores, chegando à arena eleitoral.
O descontrole foi permitido pela fragilidade intencional do chamado “arcabouço fiscal” – a mágica petista vendida como “âncora” para as expectativas, mas que “flutua” ao sabor das demandas políticas.
Sob aplausos de muitos e alertas de poucos, a invenção garantia o crescimento da despesa em 2,5% ao ano em termos reais, acolhia várias exceções ao teto de gastos, mas não incluía mecanismo algum de freio para o endividamento público.
Deu no que deu.
Com a atávica dedicação do PT a gastar, sobretudo visando sua permanência no poder, a dívida passou de 72% do PIB no final de 2022 para 82% em junho, and counting.
Diante do aumento do risco, a rolagem da dívida pública passa a ser feita com juros significativamente mais elevados – acima de 8% em termos reais nos prazos mais longos, provocando distorções crescentes em todo o organismo econômico.
A situação fiscal não é sustentável, e será necessário um esforço de ajuste importante em 2027. A hipótese de alternância de poder, com a eleição de um presidente fiscalmente responsável, vem evitando uma reação mais aguda nos preços dos ativos.
No entanto, à medida que as pesquisas apontam um aumento – temporário ou não – nas chances de Lula ser reeleito, cresce o temor de que possamos estar perto de uma correção.
Em sua peregrinação ao mercado financeiro, integrantes de alto escalão do Governo têm se esforçado para convencer os players de que this time is different – e que o PT fará um ajuste sério para evitar uma crise de confiança em 2027.
No entanto, não é o que pensam e defendem petistas históricos como Sergio Gabrielli, o coordenador do programa de governo, que não se intimida em defender o controle de capitais e o aumento dos gastos sociais em um quarto mandato de Lula.
É inevitável lembrar a fábula do escorpião e do sapo diante da verdadeira “natureza” de Lula e do PT.
Durante a crise de confiança em 2002, enquanto a Carta aos Brasileiros escrita por Palocci e equipe garantia a obtenção dos superávits necessários para estabilizar a relação dívida/PIB – espantando o temor de um calote – petistas veteranos afirmavam em reuniões sociais que depois de acalmados os mercados eles retomariam as rédeas da política econômica, como de fato fizeram.
No momento atual, em um quarto e último mandato iniciado aos 81 anos, sem deixar sucessor em seu partido envelhecido, Lula teria incentivos para promover o ajuste fiscal necessário, sabendo que colheria frutos amargos no início e deixaria a casa arrumada para o próximo presidente?
Ou faria um arremedo de ajuste, aplacando, por algumas semanas, os sempre solícitos seguidores do estilo “me engana que eu gosto”, e robustecendo sua biografia com mais do mesmo conhecido populismo?
Defrontamo-nos aqui com o desafio de saber se prevalecerá o mito ou a ciência: se os eleitores saltarão da panela de água em fervura, como indicam experimentos de laboratório, ou se prevalecerá o mito de que os sapos se acostumam – ou se conformam – com o aquecimento progressivo e morrem cozidos sem saltar da panela.
Maria Cristina Pinotti é economista e sócia da Pinotti & Schwartsman Associados.




