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Na virada do algodão, o Brasil está pronto para ganhar

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O mercado de algodão sinaliza uma virada. E o Brasil, que está finalizando a maior colheita da história, está bem posicionado para o novo cenário.

Segundo Francisco Queiroz, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA, a recuperação dos preços já fez as margens quase dobrarem. “Para um produtor no Mato Grosso em segunda safra, a margem estava em 25% ou 26% em abril. Mas, nos últimos meses, a recuperação no preço da pluma trouxe um panorama diferente: hoje, está em 40%”, diz.

É um patamar menor que as margens “fora da realidade” de 70% nas safras 2019/20 e 2020/21, porém mais consistente, “em linha com uma média histórica”, acrescenta.

Essa melhora, combinada à atual atratividade maior do binômio soja-algodão frente ao combo soja-milho no Mato Grosso, faz o banco estimar um aumento de pelo menos 11% na área plantada em 2026/27, para cerca de 2,3 milhões de hectares. Seria o novo recorde, superior aos 2,2 milhões de hectares no ciclo 2024/25.

A StoneX também prevê mais área na próxima safra, estimando o aumento em 5%. “Dois anos de preços muito baixos fizeram o produtor plantar menos”, afirma Raphael Bulascoschi, analista de inteligência de mercado da StoneX.

Com os preços mais altos, o cotonicultor adentra a safra nova com mais incentivos para plantar. “O algodão sofre com custo, mas ele também está pesando no milho. Nessa escolha, o produtor olha muito o preço, e o do algodão está mais favorável”, diz.

O aumento de área, no entanto, não é homogêneo em todo o País. Na BrasilAgro, que produz na Bahia, a área deve diminuir na próxima safra. Nesse caso, a decisão é fruto de ajuste operacional mirando rentabilidade: em parte para evitar gastos sem retorno em terras velhas ou de sequeiro, onde o risco aumenta em um ano de El Niño, e em parte para aliviar o fluxo de caixa a partir do custo mais baixo no milho.

Queiroz salienta que o esperado aumento de área no algodão não necessariamente implica em redução no milho. “Nem todo produtor faz algodão. Nos grandes grupos, que fazem ambos, pode ter um deslocamento. Mas nos demais, que fazem só milho, o esperado é crescer área por causa da demanda, principalmente do etanol de milho.”

Para esta safra, cuja colheita está praticamente concluída, o Itaú BBA projeta de 4,2 milhões a 4,3 milhões de toneladas, um recorde de produção no País.

Estoques em queda

Desde julho, o preço da pluma acumula uma valorização superior a 8% na Bolsa de Nova York. A alta tem origem na expectativa de queda na produção global e demanda firme.

“A perspectiva para o balanço de oferta e demanda está bem melhor. Cresce consumo e cai bem o estoque. Pode haver problema de produtividade pelas janelas de chuvas, mas, olhando para o financeiro, a coisa melhorou bem”, diz Queiroz.

O aumento na demanda não vem do mercado interno, que há muitos anos não sai da ordem de 700 mil toneladas/ano, mas do exterior — em particular, da China.

Na última safra, os chineses compraram 23% da exportação brasileira, que foi recorde de 3,4 milhões de toneladas. O Brasil respondeu por metade da importação chinesa.

E a projeção do Itaú BBA é que o apetite do gigante asiático se mantenha. “O que temos para 2026/27 no balanço chinês é safra menor, por redução de produtividade. Por isso, mesmo consumindo estoques, a China deve manter demanda favorável.”

El Niño

O outro motivo que joga a favor do Brasil é a conjuntura de oferta global: o País é hoje o único grande produtor com perspectiva de aumento de produção neste ano. Estados Unidos e a China devem produzir menos, e, na Índia, onde a colheita termina em dezembro, o volume está sob dúvida graças ao El Niño.

“O mercado está apostando em produtividade menor nos EUA e na Índia, que sofreram com temperaturas elevadas, e na China”, pondera Bulascoschi.

Em relatório recente, o USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) reduziu a projeção de oferta global neste ano, de 16,4 milhões de toneladas para 15,2 milhões. A relação estoque-uso cairia de 62,2% na última safra para 56,8% na atual.

Nesse contexto, a expectativa é que o mercado siga operando como nos últimos meses, com base em perspectiva de oferta apertada — revertendo a tendência de excedente nos anos anteriores.

“Um cenário que não chamaria de escassez, porque tem as colheitas nos EUA e no Brasil vindo. Mas de aperto de balanço, que pode desembocar em escassez caso tenhamos problemas”, completa Bulascoschi, da StoneX.

Na safra 2026/27, a produtividade vai depender do El Niño. Bulascoschi reforça que o fenômeno tende a prejudicar mais outros produtores, como Austrália e Índia. No Brasil, Queiroz diz que o risco pesa mais na segunda safra, que responde pela grande maioria da produção, chegando a 95% no Mato Grosso.

“Uma coisa é ter preço, outra é ter produto. Estamos na mão do efeito do El Niño na segunda safra, e não dá para calcular quanto ele pode tirar da produção.”

Tem havido irregularidade nas chuvas no Centro-Oeste, ele diz. Já na Bahia, onde a Agroconsult estima 46% da produção irrigada, o cenário é mais otimista, com o plantio avançando em bom ritmo. (COLABOROU KARINA SOUZA)



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