Enquanto a Fictor tenta equacionar dívidas bilionárias com investidores em seu processo de recuperação judicial, uma empresa que teve origem no grupo segue fechando negócios. E com um detalhe: com o poder público.
Trata-se da 3RP Consignado, a nova marca da antiga Fictor Consignado, que é sócia de três empresas de cartão benefício credenciadas por prefeituras para descontar parcelas diretamente da folha de servidores.
A principal delas é a Alvo Card, que afirma em seu site ter mais de 60 convênios com estados e municípios, entre eles as prefeituras de São Paulo, São José dos Campos e Campinas. Outra é a BCBR Card, que assinou um convênio com a Prefeitura de Taubaté em 4 de maio deste ano, três meses depois de a Fictor pedir recuperação judicial. E a terceira é a EI Card, segundo registros societários.
No contexto da recuperação judicial envolvendo cerca de R$ 3 bilhões captados por meio de Sociedades em Conta de Participação (SCPs) e de uma baixa contábil de R$ 309,7 milhões registrada pela Fictor Holding Financeira, a ex-Fictor Consignado não faz parte da recuperação judicial.
Como a atual 3RP Consignado já não integrava o grupo quando o pedido de recuperação judicial foi apresentado, o NeoFeed reconstituiu a sequência de alterações societárias que culminou na transferência do controle da empresa para um novo proprietário. E esse novo dono é Rafael Paixão Ferreira Giuseppe, ex-sócio da empresa.
Em novembro de 2024, a Fictor Holding transferiu, por meio de instrumento de cessão registrado na Junta Comercial de São Paulo, 100% da então Fictor Consignado a Rafael Paixão Ferreira Giuseppe, conhecido como Paixão, que administrava a empresa desde agosto daquele ano. O contrato, registrado na Junta Comercial de São Paulo, não informa o valor da operação, e as partes deram-se “plena e geral quitação”.
Com a cessão, foram junto as participações que a empresa havia acumulado nos meses anteriores em empresas de cartão como a Alvo Card, da qual a Fictor Consignado passou a ser sócia em maio de 2024, quando ainda pertencia integralmente à holding. Até o momento, não foi localizada pela reportagem decisão judicial que tenha reconhecido irregularidade na transferência da Fictor Consignado para a atual 3RP Consignado.
Paixão está entre os sócios da Fictor com créditos de empréstimos mútuos contra o grupo, segundo o relatório da Laspro, administradora judicial da recuperação, revelado pelo NeoFeed em abril: R$ 373 mil – o mesmo valor atribuído a Góis.
No fim de outubro de 2023, ele também abriu a FCT Consultoria, hoje 3RP Partners, com Rafael Góis, fundador do grupo Fictor, e Luiz Phillippe Rubini. Cada um tinha cerca de um terço da empresa, segundo documentos da Junta Comercial de São Paulo obtidos pelo NeoFeed.
Seis meses depois, Rubini deixou a sociedade. Góis e Paixão ficaram como os únicos sócios entre maio e dezembro de 2024, quando Góis cedeu suas quotas a Paixão, que ficou com 100%. Ao assinar as cessões, em dezembro daquele ano, os dois ainda usavam e-mails com o domínio da Fictor.
Documentos analisados pela administradora judicial também registram movimentações financeiras posteriores à cessão. Segundo a Laspro, a Fictor recebeu R$ 20 milhões de uma conta de Paixão em outubro de 2025, onze meses depois de ele assumir o consignado. De acordo com a administradora judicial, a operação não possuía registro contábil identificado em sua análise.
Góis é um dos principais investigados na Operação Fallax, da Polícia Federal, que apura suspeitas de fraudes bancárias, gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro. Em agosto, a Laspro pediu à Justiça o afastamento dele e de outros cinco diretores. Até o momento, não há informação pública indicando que a 3RP Consignado, a Alvo Card, a BCBR Card ou a EI Card sejam alvos dessa investigação.
Uma centena de contratos
A antiga Fictor Consignado entrou nas três empresas – Alvo Card, BCBR Card e EI Card – entre maio e agosto de 2024, sob o comando de Góis. Primeiro por meio da Fictor Holding e depois diretamente, quando ele passou a deter 100% da empresa em seu nome.
As três vendem o mesmo produto: o cartão benefício consignado. O servidor recebe um cartão cujo limite está atrelado à margem consignável do salário, pode sacar parte desse limite em dinheiro, e as parcelas são descontadas direto da folha de pagamento. Os sites das empresas oferecem ainda telemedicina, descontos em farmácias e assistência funeral.
Somados, os números que as três empresas divulgam em seus sites passam de 100 convênios com estados, municípios e institutos de previdência.
A Alvo, com sede em Alphaville, no município paulista de Barueri, é a que declara mais convênios. A empresa diz ter mais de 55 mil contratos e mais de R$ 30 milhões concedidos em crédito consignado. Apesar dos “mais de 60” convênios anunciados, seu próprio site nomeia 34 entes públicos, em 11 estados.
A EI Card funciona no mesmo endereço da Alvo, em Alphaville, e tem como sócios, desde maio de 2024, a Fictor Consignado, Regis Martins de Oliveira e Ewerton Charles Garcia de Sousa. Em seu site, informa 15 convênios (sem nomeá-los), 1,9 mil contratos e R$ 6 milhões liberados.
A BCBR, que fica na capital maranhense, São Luís, afirma ter 30 convênios, a maior parte no Estado, mais de R$ 100 milhões em crédito e mais de 10 mil clientes. A empresa tem Lícia Sacramento Brito, que é sócia-administradora desde 2001 da BCBR Promotora e de outras empresas com a marca Barão – o site diz que o “Grupo Barão” tem “mais de 23 anos de atuação” no consignado. A Fictor Consignado entrou na sociedade em agosto de 2024.
Sinal fechado
A expansão, porém, nem sempre passou pelo crivo das prefeituras. Em Santos, no litoral paulista, a Alvo Card foi inabilitada duas vezes, em setembro de 2025 e em fevereiro de 2026, num chamamento para conceder crédito na margem consignável de servidores municipais.
O motivo, segundo publicação no Diário Oficial da cidade, foi o mesmo nas duas ocasiões: a empresa “não apresentou a autorização do Banco Central do Brasil em nome da ALVO CARD”. A BCBR Card foi barrada no mesmo processo em novembro de 2025, também por não apresentar a autorização do Banco Central.
A autorização do BC também foi questão em Maricá, no Rio de Janeiro, onde o edital pedia “instituições financeiras autorizadas a funcionar”.
Segundo a ata do credenciamento, publicada em dezembro de 2025, a Alvo “informou que não se enquadra como instituição financeira e sim como instituição de pagamento” e, por isso, não apresentou o índice de Basileia, indicador de solidez exigido de bancos. A ata registra Paixão como representante legal da Alvo no processo. A comissão aceitou o argumento e credenciou a empresa “em atendimento ao princípio da razoabilidade”.
A regulamentação do Banco Central prevê hipóteses em que instituições de pagamento dependem de autorização para funcionamento, bem como situações específicas de dispensa previstas nas normas aplicáveis.
Em consulta realizada pelo NeoFeed em 1º de outubro de 2026 ao cadastro público de instituições do Banco Central, não foram localizados registros das empresas Alvo Card, BCBR Card, EI Card e 3RP Consignado como instituições autorizadas ou dispensadas de autorização naquele sistema.
Houve outros reveses. A Alvo foi inabilitada em na cidade carioca de Nova Iguaçu em maio de 2025 e considerada “desabilitada” em Londrina, no Paraná, em julho deste ano.
A SPPREV, que administra a previdência dos servidores do Estado de São Paulo, aparece no site da Alvo como convênio, mas a empresa não consta dos relatórios oficiais de consignatárias da autarquia de julho e agosto de 2026. Em Taubaté, por outro lado, o despacho de abril que autorizou o credenciamento da Alvo registra que a empresa “atendeu aos requisitos” do decreto municipal sobre o tema.
A recuperação judicial do Grupo Fictor foi pedida em 2 de fevereiro à Justiça de São Paulo. Em março, o juiz do caso ampliou o processo para 43 empresas do grupo, 13 delas incluídas por decisão própria, e afirmou que a lista “não é exaustiva”. Segundo a decisão, outras empresas poderiam entrar a partir de novas apurações da Laspro.
A 3RP não está entre as empresas incluídas no processo. O relatório mais recente da Laspro, referente a abril e maio, não menciona a 3RP nem a operação de consignado.
Procurados, a Fictor, o advogado de Rafael Paixão, Bruno Burilli, a Alvo Card e o Banco Central não se manifestaram até a publicação desta reportagem.




