A força de uma moeda no sistema internacional não depende apenas das reservas de ouro de um país, de sua produção de petróleo ou do tamanho de seu Produto Interno Bruto. Ela depende de um conjunto de fatores: o tamanho e a produtividade da economia, a estabilidade institucional, a profundidade dos mercados financeiros, a liquidez dos títulos públicos e a confiança dos investidores.
Quando escrevi este artigo originalmente, em 2018, o objetivo era mostrar por que o dólar continuava ocupando posição central no sistema financeiro mundial. Passados oito anos, os dados mais recentes mostram que essa posição continua muito forte, embora o cenário internacional tenha mudado e a participação da China e de sua moeda tenha aumentado.
O ouro continua importante, mas não é o lastro do dólar
Os dados mais recentes do World Gold Council, com informações disponíveis até junho de 2026 para a maior parte dos países, mostram a seguinte posição entre os maiores detentores oficiais de ouro:
Considerando uma cotação próxima de US$ 4.250 por onça-troy em 24 de setembro de 2026, as 8.133,5 toneladas dos Estados Unidos equivalem a aproximadamente US$ 1,11 trilhão pelo preço de mercado. É uma cifra enorme. Entretanto, ela ainda precisa ser colocada em perspectiva diante do tamanho da economia e do mercado financeiro americano.
Além disso, o ouro voltou a ganhar importância nas reservas internacionais. O World Gold Council registra que os bancos centrais vêm comprando volumes elevados de ouro nos últimos anos, em parte como estratégia de diversificação das reservas.
Portanto, o ouro continua sendo um importante ativo de reserva, mas não é correto afirmar que o dólar seja hoje lastreado pelo ouro. O sistema monetário internacional contemporâneo é baseado em moedas fiduciárias. O dólar deixou de ter conversibilidade oficial em ouro em 1971.
Bretton Woods e o fim da conversibilidade
O sistema de Bretton Woods, estabelecido em 1944, criou um sistema de taxas de câmbio fixas, porém ajustáveis, no qual o dólar ocupava posição central e os Estados Unidos mantinham a conversibilidade oficial do dólar em ouro para autoridades monetárias estrangeiras.
A estrutura negociada em Bretton Woods estabeleceu o dólar como principal moeda de referência, ligado ao ouro a US$ 35 por onça, enquanto as demais moedas mantinham paridades em relação ao dólar.
Em 15 de agosto de 1971, o governo de Richard Nixon suspendeu a conversibilidade do dólar em ouro. O sistema de Bretton Woods entrou em colapso e, posteriormente, consolidou-se o sistema de câmbio predominantemente flutuante que conhecemos atualmente.
A partir daí, a força do dólar passou a depender muito mais da dimensão econômica e financeira dos Estados Unidos, da confiança em suas instituições e da profundidade de seus mercados do que de uma conversibilidade em ouro.
O tamanho da economia americana
Em 2018, o PIB nominal americano estava próximo de US$ 21 trilhões. Hoje, os dados mais recentes do Banco Mundial apontam para aproximadamente: Estados Unidos: US$ 30,8 trilhões e a China: US$ 19,5 trilhões. São valores de PIB nominal em dólares correntes referentes a 2025.
A economia americana, portanto, continua sendo significativamente maior em termos nominais. A China, por sua vez, continua crescendo mais rapidamente: em 2025, o crescimento do PIB foi de aproximadamente 5,0% na China, contra 2,2% nos Estados Unidos.
Essa diferença é importante. A China tem apresentado crescimento econômico mais elevado, mas o tamanho nominal da economia americana e, principalmente, a profundidade de seu sistema financeiro continuam sendo elementos centrais para a posição internacional do dólar.
O verdadeiro poder do dólar está também no mercado financeiro
O dólar não é importante apenas porque os Estados Unidos têm um PIB gigantesco. Ele é importante porque existe um enorme mercado de ativos denominados em dólares, especialmente títulos do Tesouro americano. Além disso, o mercado cambial internacional continua fortemente concentrado no dólar.
Segundo o Banco de Compensações Internacionais (BIS), o mercado global de câmbio movimentou aproximadamente US$ 9,6 trilhões por dia em abril de 2025. O dólar esteve presente em 89,2% de todas as operações de câmbio realizadas naquele levantamento.
O renminbi chinês também avançou. Sua participação chegou a cerca de 8,5% do volume global de operações de câmbio, colocando a moeda chinesa entre as principais moedas negociadas internacionalmente.
Esses números mostram uma realidade importante: a internacionalização do renminbi está ocorrendo, mas existe uma diferença fundamental entre aumentar a utilização de uma moeda e alcançar a posição internacional atualmente ocupada pelo dólar.
As reservas internacionais também mostram a força do dólar
Segundo o FMI, no primeiro trimestre de 2026 as reservas cambiais oficiais globais somavam aproximadamente US$ 13,1 trilhões. A participação do dólar nessas reservas chegou a 57,13%. O número merece atenção porque demonstra que, mesmo diante do crescimento da China e da diversificação promovida por diversos bancos centrais, o dólar continua sendo, de longe, a principal moeda de reserva internacional.
Ao mesmo tempo, é importante registrar uma mudança relevante: em 2025, o valor do ouro nas reservas oficiais globais superou o valor dos títulos do Tesouro americano, principalmente em razão da forte valorização do ouro. Isso não significa que o dólar tenha perdido sua posição. Significa que os bancos centrais passaram a diversificar mais suas reservas e que a valorização extraordinária do ouro alterou a composição patrimonial dessas reservas.
A China é hoje o principal país que busca ampliar, de forma deliberada, a utilização internacional de sua própria moeda. Suas reservas internacionais chegaram a aproximadamente US$ 3,438 trilhões em agosto de 2026, segundo a Administração Estatal de Divisas da China.
Os dados do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos mostram que a China continental possuía aproximadamente US$ 618 bilhões em títulos do Tesouro americano em julho de 2026. Portanto, os títulos do Tesouro americano continuam sendo uma parcela importante dos ativos externos chineses.
E o Brasil?
As reservas internacionais brasileiras permanecem próximas de US$ 370 bilhões, dependendo da metodologia e da data de referência. Os dados do Departamento do Tesouro americano mostram que, em julho de 2026, o Brasil possuía aproximadamente US$ 168 bilhões em títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
Hoje, os Estados Unidos são o maior produtor mundial de petróleo.
Segundo a Energy Information Administration (EIA), a produção americana de petróleo bruto, incluindo condensado de lease, alcançou aproximadamente 13,6 milhões de barris por dia em 2025, novo recorde histórico.
A produção americana ficou cerca de 40% acima da produção dos dois principais produtores seguintes, Rússia e Arábia Saudita. A revolução do petróleo e do gás de xisto alterou profundamente a posição energética americana.
Em 2025, os Estados Unidos produziram aproximadamente 13,6 milhões de barris/dia de petróleo bruto e importaram, em média, cerca de 6,2 milhões de barris/dia. Ao mesmo tempo, exportaram aproximadamente 4 milhões de barris/dia de petróleo bruto, além de grandes volumes de derivados. Isso demonstra que “produção”, “consumo”, “importação” e “exportação” precisam ser analisadas conjuntamente.
O mundo continua dependente do petróleo, mas a geografia mudou
O petróleo continua sendo uma das principais fontes de energia do mundo. Entretanto, a matriz energética mundial está mudando rapidamente. O Statistical Review of World Energy 2026, do Energy Institute, mostra que 2025 registrou novos recordes de demanda mundial de energia e de produção de petróleo.
Ao mesmo tempo, energias renováveis, especialmente solar, vêm crescendo em ritmo muito acelerado. A China tornou-se uma potência energética além de continuar sendo um grande consumidor e importador de petróleo, o país ampliou fortemente sua produção de energia solar, eólica, veículos elétricos, baterias e outras tecnologias.
Isso significa que a disputa econômica do século XXI não será definida apenas pelo petróleo. Ela envolverá também tecnologia, energia, semicondutores, inteligência artificial, infraestrutura digital, minerais críticos e capacidade financeira.
A China vem promovendo há anos a internacionalização do renminbi e ampliando sua utilização no comércio exterior, nos sistemas de pagamentos e nas reservas de alguns países. Os dados do BIS mostram esse avanço: o renminbi passou a representar aproximadamente 8,5% das operações globais de câmbio em 2025, contra uma participação menor nas pesquisas anteriores.
Mas existe uma diferença fundamental entre aumentar a utilização de uma moeda e substituir o dólar como principal moeda internacional. Para uma moeda exercer plenamente a função de moeda de reserva internacional, não basta que o país tenha uma grande economia.
É necessário possuir mercados financeiros extremamente profundos e líquidos, grande quantidade de ativos disponíveis para investidores estrangeiros, ampla liberdade de movimentação de capitais, confiança institucional e capacidade de fornecer ativos seguros em grande escala.
Nesse aspecto, os Estados Unidos continuam possuindo uma vantagem estrutural.
O tamanho do mercado de títulos americanos
Os títulos do Tesouro dos Estados Unidos constituem um dos principais instrumentos financeiros utilizados por governos, bancos centrais, fundos soberanos, bancos e investidores institucionais de todo o mundo. O mercado americano oferece uma quantidade enorme de ativos com diferentes prazos, liquidez elevada e negociação contínua. Essa característica é extremamente importante.
Um país pode ter uma grande quantidade de reservas, mas, se não possuir um mercado financeiro suficientemente profundo para absorver essas reservas e permitir sua movimentação com liquidez, sua moeda terá dificuldades para assumir o papel de principal moeda internacional.
O dólar pode perder espaço? Pode perder participação, mas isso é diferente de perder sua posição central.
Nas últimas décadas, diversas propostas surgiram para diminuir a dependência internacional do dólar. Já se discutiu uma cesta de moedas, o fortalecimento do euro, a utilização dos Direitos Especiais de Saque do FMI, maior participação do yuan e, mais recentemente, mecanismos de pagamentos entre países emergentes.
Esses movimentos ganharam força especialmente depois das sanções financeiras aplicadas contra a Rússia e do aumento das preocupações de diversos países com a concentração de suas reservas em ativos denominados em dólar.
O movimento de diversificação é real, entretanto, os dados disponíveis até 2026 mostram que o dólar continua ocupando posição dominante nas reservas internacionais e, principalmente, nas transações cambiais internacionais.
A questão, portanto, não é saber apenas se o dólar continuará sendo importante. A questão mais interessante é saber quanto de sua participação poderá ser gradualmente transferida para outras moedas e outros ativos ao longo das próximas décadas.
A principal conclusão desta análise permanece semelhante àquela que apresentei em 2018, mas hoje ela pode ser formulada de maneira mais abrangente.
A força do dólar não está no ouro existente nos cofres americanos. Também não está apenas no petróleo. E não está apenas no tamanho do PIB. Ela está na combinação de vários fatores:
- uma economia de aproximadamente US$ 30,8 trilhões;
- um mercado financeiro extremamente profundo e líquido;
- o maior e mais líquido mercado de títulos públicos do mundo;
- forte presença do dólar nas reservas internacionais;
- participação do dólar em aproximadamente 89% das operações globais de câmbio;
- enorme capacidade de financiamento em sua própria moeda;
- grande capacidade tecnológica e de inovação;
- elevada produção de petróleo e gás;
- capacidade de exportação de energia;
- e uma rede internacional de comércio, finanças e pagamentos construída ao longo de muitas décadas.
A China possui uma economia gigantesca e vem avançando rapidamente em tecnologia, comércio e finanças. O renminbi também está ganhando espaço. Entretanto, transformar uma grande economia em uma economia cuja moeda seja a principal reserva mundial é um processo muito mais complexo e demorado.
Conclusão
O mundo está passando por uma transformação econômica e financeira importante. A China continua ampliando sua participação na economia mundial, o renminbi está se internacionalizando, os bancos centrais estão comprando mais ouro e vários países procuram diversificar suas reservas.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos continuam apresentando uma combinação muito particular de escala econômica, mercado financeiro, tecnologia, energia, liquidez e capacidade de financiamento em sua própria moeda. Por isso, a possibilidade de um mundo monetário mais diversificado é concreta. É possível que o dólar perca alguma participação relativa ao longo dos próximos anos.
Mas substituir completamente o dólar exigiria não apenas uma economia concorrente de grande dimensão. Exigiria também a construção de um mercado financeiro internacional capaz de oferecer ao mundo uma alternativa equivalente em liquidez, segurança, profundidade e escala.
Essa é uma tarefa muito maior do que simplesmente criar uma moeda alternativa ou aumentar as reservas de ouro. O ouro continua importante. O petróleo continua importante. A China continua crescendo. Mas, até o momento, o principal fundamento da força do dólar continua sendo a combinação entre o tamanho da economia americana e a extraordinária profundidade do seu sistema financeiro.

Roberto Vertamatti é Vice-presidente de Economia da ADVB, Conselheiro da ANEFAC, PhD em Administração pela FCU – Florida Christian University
Artigo publicado originalmente pelo DCI em janeiro de 2018. Na versão atualizada em 24.09.2026, houve mudanças relativas em relação aos dados do artigo original.
Fontes principais utilizadas
- World Gold Council — reservas oficiais de ouro por país e evolução das compras dos bancos centrais. Os dados mais recentes disponíveis em setembro de 2026 são referentes principalmente a junho de 2026.
- FMI – COFER — composição das reservas cambiais mundiais; no 1º trimestre de 2026, o dólar representava 57,13% das reservas cambiais alocadas.
- BIS – Triennial Central Bank Survey 2025 — mercado cambial de US$ 9,6 trilhões/dia e dólar em 89,2% das operações.
- Banco Mundial — PIB nominal de 2025: EUA US$ 30,8 trilhões e China US$ 19,5 trilhões.
- U.S. Department of the Treasury – TIC — títulos do Tesouro americano em poder de estrangeiros; em julho de 2026, China continental: US$ 618 bilhões e Brasil: aproximadamente US$ 168 bilhões.
- EIA – U.S. Energy Information Administration — produção americana de petróleo de 13,6 milhões de barris/dia em 2025 e posição dos EUA como exportador líquido de energia.
- Energy Institute – Statistical Review of World Energy 2026 — dados globais de energia e petróleo referentes a 2025.
- China State Administration of Foreign Exchange (SAFE) — reservas internacionais chinesas de US$ 3,438 trilhões em agosto de 2026.
- FMI – história do sistema de Bretton Woods — suspensão da conversibilidade do dólar em ouro em 15 de agosto de 1971.
- Para a cotação do ouro usada apenas no cálculo ilustrativo, a referência consultada em 24/09/2026 estava na faixa de US$ 4,25 mil/onça-troy.
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