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“Data centers modulares estarão por toda parte”

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Aplicações de inteligência artificial presentes no mundo físico, como carros autônomos, vão demandar baixíssima latência, o que deve incentivar a construção de pequenos data centers nas pontas das redes. Na opinião de Ivo Ivanov, CEO da DE-CIX, uma das maiores operadoras neutras de troca de tráfego de Internet, data centers modulares serão implantados por toda parte no futuro. Em entrevista para Mobile Time em Lisboa, durante o evento Atlantic Convergence, o executivo falou também sobre os planos da DE-CIX para o uso de satélites; processamento multiagêntico; capital digital distribuída; e a operação no Brasil.

Mobile Time – Como a demanda por aplicações de IA física, de baixíssima latência, vai remodelar o mercado de data centers?

Ivo Ivanov – Sim, a IA física, e especialmente a inferência de IA, ditará como a infraestrutura deve ser construída. Bilhões, provavelmente trilhões de dólares, estão sendo investidos mundialmente, não apenas em modelos de texto ou para produzir vídeos engraçados, mas em agentes treinados para realizar processos industriais em diversos segmentos. Eles têm uma característica em comum: são extremamente sensíveis ao tempo real. Isso significa que precisam de uma comunicação muito rápida entre o sistema de inferência e o dispositivo — seja um robô, um carro ou outro equipamento controlado por agentes de IA.

A distância entre o sistema de inferência e o robô não pode exceder dois a três milissegundos. Isso equivale a cerca de 200 quilômetros. Essa é a realidade física; não podemos alterar a velocidade da luz. Portanto, a infraestrutura digital que atende a esses dispositivos precisa se aproximar deles. Os robôs não entrarão nos data centers; os data centers precisam se aproximar dos robôs, dos carros e das outras instalações. Teremos que desenvolver uma infraestrutura o mais próxima possível dos usuários, sejam eles seres humanos ou dispositivos.

Então teremos mais data centers menores na borda (edge) das redes?

Exatamente. Data centers modulares precisarão ser implantados literalmente por toda parte, suportados por tecnologias de transmissão como fibra ou redes móveis — o 5G Advanced já está em progresso e, em breve, esperamos o 6G —, além da conectividade satelital.

Ivo Ivanov, CEO da DE-CIX

Ivo Ivanov, CEO da DE-CIX, durante o evento Atlantic Convergence 2026, em lisboa (Crédito: Rita Gazzo)

Como a demanda por menor latência impactará o tráfego de internet, considerando que haverá mais agentes acessando a rede do que seres humanos?

O tráfego será muito mais localizado. Ainda teremos deslocamento de tráfego devido ao treinamento e aplicações de interesse global — como telenovelas, que não podem ser restritas a um único país —, mas, na era da IA, o processamento precisa ser local. Isso é excelente para a soberania, pois mantém os dados protegidos dentro da jurisdição.

Recentemente, a Anatel propôs para o leilão da faixa de 6 GHz, que as operadoras invistam em data centers de borda. Qual sua opinião sobre isso?

É uma ideia excelente. Deve ser executada o quanto antes.

Operadoras de telecomunicações frequentemente reclamam que a conectividade se tornou uma commodity, transformando-as em “dumb pipes”. Você acredita que elas poderiam reverter esse cenário com a IA? As teles poderiam ter um papel diferente nesta era da IA?

Depende da gestão. É fácil reclamar; é melhor definir novas ideias. Os tempos de incumbência acabaram; hoje é a era da digitalização, dos serviços digitais, da colaboração e da parceria. O mercado exige ofertas complementares de valor agregado, combinando forças de diferentes parceiros. A ideia de que “eu sou o dono do mercado” era popular nos anos 70, mas não funciona mais.

Clientes corporativos esperam agilidade e opções de conectividade de ponta que incluam inovações, novos provedores de serviços e de GPU. Um exemplo é a nossa oferta de acesso a provedores de GPU como serviço. Uma empresa automotiva ou um banco pode construir sua comunidade privada de GPU como serviço e treinar o quanto desejar, utilizando agentes em um ambiente privado. Chamo isso de “roteamento multiagente”, onde diferentes provedores de agentes podem ser combinados em um ambiente seguro com interconexão direta. É o novo multi-cloud.

Você mencionou o roteamento multiagente em março. Essa solução já foi lançada ou implantada em algum lugar?

O conceito e a tecnologia estão prontos e operacionais no Brasil. Estamos aguardando a entrada dos provedores de agentes e serviços. Estamos apenas no início desta nova era e queremos estar um passo à frente. Acredito fortemente que o Brasil possui todas as condições para se tornar um enorme universo de IA.

Fale sobre os planos da DE-CIX para o uso de satélites.

É uma nova esperança para aumentar a disponibilidade de serviços digitais, especialmente em regiões hoje subatendidas, onde é difícil implantar fibra. Acredito na conectividade via órbita também como uma solução redundante e complementar para mercados estabelecidos, protegendo a infraestrutura contra ataques ou desastres naturais, já que não há vento ou tsunamis no espaço. Além disso, é uma extensão relevante para soluções de defesa e segurança para governos e corporações que lidam com dados críticos.

Nosso objetivo é construir o primeiro ponto de troca de internet no espaço, o “De-CIX Space-IX“, permitindo o roteamento entre diferentes operadoras em órbita, interconectando data centers espaciais com instalações de nuvem, inferência de IA e sinalização quântica.

Quais satélites serão utilizados? Serão geoestacionários?

Utilizaremos satélites em órbita baixa (LEO) e ultra-LEO. Não estamos falando de construir enormes fazendas de servidores no espaço, mas de módulos do tamanho de cabines telefônicas. Eles não servirão para treinamento de IA, mas são ótimos para inferência, que é mais leve, e para cache de conteúdo. A vantagem é a latência reduzida.

Quando espera a primeira implantação?

Dependemos da prontidão dos módulos de data center das empresas de satélite. Como há muitos projetos bem financiados, isso acontecerá muito em breve.

Lisboa, Madri e Barcelona compõem uma “capital digital distribuída”. Quais são as características desse conceito? Você acredita que algo semelhante surgirá na América Latina? Onde e quando exatamente?

Até agora, por décadas, a concentração da infraestrutura digital ocorreu em hubs únicos, como São Paulo, Nova Iorque, Miami, Los Angeles, São Francisco, Frankfurt, Tóquio ou Singapura. O que temos visto, e apoiado, é que um ecossistema muito mais poderoso pode ser criado se combinarmos, dentro de uma distância razoável em termos de latência, alguns ecossistemas fortes em uma única “capital digital distribuída”. A Península Ibérica é um exemplo perfeito e, até onde sei, o primeiro do tipo no planeta, graças ao crescimento de Lisboa, Madri e Barcelona.

Cada hub dentro desse conjunto tem um papel específico. Lisboa é uma excelente porta de entrada para a conectividade através do Atlântico, para a América Latina, América do Norte e África Ocidental. Madri é o centro de negócios mais forte da região e o maior ecossistema atual na Península Ibérica, com uma enorme concentração de data centers e redes internacionais. Barcelona atua como uma oferta complementar, atraindo redundância em cabos submarinos e concentrando muitas corporações internacionais.

Quanto à América Latina, isso inspirará ainda mais o novo corredor transatlântico sul-sul. Não há razão para enviar tráfego do Brasil para a Europa via Miami, Nova Iorque e Londres. Isso deve ser feito diretamente. Com a parceria que anunciamos com a Cabo Verde Telecom, esperamos incentivar a comunicação direta e o aumento do tráfego entre os continentes. Uma vez que as empresas descubram que isso faz sentido em termos de tráfego, elas estabelecerão presença local, e vice-versa. Isso fortalecerá o intercâmbio econômico entre regiões que já são culturalmente próximas há séculos.

Você espera que uma capital digital distribuída semelhante surja na América Latina? Onde seria?

Pode surgir em alguns países. No entanto, há elementos a considerar, como a latência de milissegundos. O ecossistema não pode ser excessivamente distribuído; não pode cobrir metade do Brasil. Acredito que São Paulo e Rio de Janeiro podem formar uma grande zona digital econômica. Já desenvolvemos um ecossistema local forte em São Paulo e no Rio, e eles já estão interconectados. Isso pode ser a próxima capital digital distribuída do mundo e a primeira nas Américas.

Para finalizar, fale sobre a operação no Brasil. Quais são os números mais recentes?

Temos quase 100 redes comprometidas e conectadas, e o crescimento é acelerado. Há um forte interesse de parceiros no Brasil em utilizar o ecossistema da DE-CIX para serviços de conectividade corporativa. Além da nossa oferta de peering complementar ao IX.br, nosso foco é estender a orquestração de conectividade para serviços corporativos, como nuvem e IA. O tráfego está crescendo, mas, para serviços corporativos, o valor do serviço é mais importante do que o volume bruto.

*O jornalista viajou a convite da DE-CIX

 

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As ilustrações das matérias são produzidas por Mobile Time com IA



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