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HomeCiência & TecnologiaOPINIÃO. Os três terremotos desta eleição

OPINIÃO. Os três terremotos desta eleição

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A direita venceu o primeiro turno de domingo. Isso o leitor já sabe. O que vale a pena entender é por que ela venceu, e de quem tirou os votos.
As duas respostas, reconstruídas a partir de um levantamento do Ranking dos Políticos sobre os resultados nas 27 unidades da federação, dizem mais sobre o Brasil de 2027 do que qualquer manchete de segunda-feira.
Comecemos pela força mais profunda. Parte da esquerda saiu da eleição falando em revolução de extrema direita. Falar em revolução até faz sentido. O alvo é que está completamente equivocado.
Imagine um restaurante em que você tem que plantar o alimento, colhê-lo, cozinhá-lo – e ainda tem que pagar R$ 100 por pessoa para comer. 
A comida que você preparou não vem para a sua mesa. Vai para uma sala fechada, com segurança na porta, onde um grupo pequeno se serve de lagosta e champanhe. Para você e seus filhos, chega apenas o resto do arroz e feijão. E chega a conta. O Brasil é esse restaurante, e a revolução de domingo não foi dos ricos nem das elites. Foi dos pagadores de conta.
Quem são eles?
O motorista de aplicativo de Goiânia, a cabeleireira gaúcha, o microempreendedor de São Paulo, o operário catarinense. Gente que nos últimos anos viu os juros entre os maiores do mundo encarecerem o carro, a máquina e o estoque, as famílias baterem recorde de endividamento, as empresas quebrarem em ritmo também recorde, a carga tributária atingir o maior patamar da história e a dívida pública disparar – sinal de que a conta ainda vai crescer.
É o mesmo cidadão que, depois de pagar tudo isso, enfrenta a fila do posto de saúde, vê a escola do filho caindo aos pedaços e ouve tiroteio no bairro. A prova de que foi essa gente que virou a mesa está no mapa do voto, como mostrou o jornalista Pedro Dória. Lula venceu nos bairros elitizados de São Paulo e do Rio de Janeiro, redutos de profissionais liberais de viés de esquerda. Venceu também na classe E, entre quem depende de auxílio do governo para ter o que comer. E perdeu em todas as demais faixas de renda, exatamente as que carregam o piano.
Essa frustração encontrou um segundo alvo: o Supremo Tribunal Federal.
Para o pagador de conta, a Corte deixou de ser percebida como árbitro e passou a ser vista como tropa de choque do governo. O raciocínio do eleitor é simples e difícil de rebater: o Supremo protegeu a si mesmo, com ministros citados nas investigações do Banco Master e um relator afastado por conflito de interesse familiar, sem consequência alguma.
O Senado protegeu a si mesmo, engavetando os pedidos de impeachment. E a mesma Corte colocou na cadeia Jair Bolsonaro, o principal opositor do governo. Ninguém imagina que o STF esteja do lado de quem ele prendeu. Logo, na cabeça de quem paga a conta, só restava um lado para ele estar.
O World Justice Project, que mede o Estado de Direito em todo o mundo, colocou o Brasil em penúltimo lugar em imparcialidade da Justiça. O eleitor respondeu nas urnas, e essa resposta se desdobra em três deslocamentos sísmicos do poder.
O primeiro terremoto é contraintuitivo: a direita cresceu em cima do Centrão, e não da esquerda. O PL ganhou 22 deputados, o Podemos 15, o Novo 7. São 44 cadeiras a mais para a direita de bandeira.
O União Brasil perdeu 13, o PP perdeu 6, o MDB perdeu 6. O eleitor migrou do partido do prefeito para o partido da ideia.
A esquerda, somada, teve saldo zero: o PT ganhou 3 cadeiras, o PCdoB 5, e quem desabou foi o PDT, que perdeu 11 e praticamente deixou de existir como força nacional.
A esquerda não encolheu: reorganizou-se em torno do PT, que mantém 70 deputados e 9 senadores. O problema petista não está no Congresso. Está no Planalto, onde Lula chega ao segundo turno em desvantagem. A terceira via, de quem se esperava mais, somou 7,6% dos votos para presidente.
O segundo terremoto foi no Senado. O PL ganhou 15 cadeiras no Senado e chega a 28, a maior bancada da Casa. O União perdeu 7, o PSD perdeu 5. Quarenta dos 54 eleitos são novos.
Mas o número que define o próximo biênio é outro: segundo a apuração do Ranking, 54 dos 81 senadores já declararam apoio ao impeachment de ministros do STF. A condenação exige dois terços da Casa. Dois terços de 81 são exatamente 54.
Foi uma derrota clara para a Corte, e o que vem pela frente é uma agenda de contenção: limite a decisões monocráticas, mandatos para ministros, revisão de competências.
Quem controla essa pauta é a disputa de fevereiro. Davi Alcolumbre saiu enfraquecido: perdeu o governo do Amapá, não elegeu senador em casa e viu seu partido encolher. O PL terá candidato à presidência do Senado, com Rogério Marinho e Tereza Cristina entre os cotados. Quem ocupar a cadeira decide se o impeachment vai a voto.
O terceiro terremoto é estrutural. O bolsonarismo deixou de ser um homem e virou uma organização. Flávio disputa a Presidência. Michelle é senadora pelo Distrito Federal; Carlos, por Santa Catarina. Jair Renan Bolsonaro é deputado federal pelo mesmo estado, e Renato, por São Paulo. Cinco membros da família, cinco mandatos.
E a base já não depende deles: em quase todos os estados, o deputado mais votado é um nome jovem da direita digital. Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato passaram de 3 milhões de votos cada.
Nos estados, o quadro é coerente. PL, Republicanos e PP elegeram dez governadores no primeiro turno e lideram em quatro dos sete segundos turnos.
Se confirmarem, terão 14 dos 27 estados, com o eixo econômico inteiro: São Paulo, Minas, Rio, Paraná, os três do Sul, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
O PSD foi o vencedor silencioso do centro, com quatro governos e presença no segundo turno do Amazonas. O PT manteve seus três estados, todos no Nordeste, todos por reeleição apertada. O União Brasil, a maior bancada da Câmara em 2022, não elegeu governador algum.
Resta a pergunta que vai definir os próximos quatro anos, e que o PL ainda não respondeu. Com 121 deputados e 28 senadores, o partido é um bloco ideológico ou um Centrão com outra camisa?
Se votar com disciplina, o Brasil terá algo que nunca teve: uma direita organizada no Congresso, capaz de pautar reformas de Estado com coerência. Se cada parlamentar votar conforme a emenda e o cargo, nada mudou. Apenas trocou a sigla.
A esquerda pode chamar isso de contrarrevolução. O cidadão que preparou a comida e pagou a conta tem outro nome. Está dizendo que a conta chegou.
Alexandre Ostrowiecki é presidente do conselho do Grupo Multilaser e fundador do Ranking dos Políticos.



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