A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu um processo administrativo sancionador contra a EFB Regimes Especiais, empresa de Eduardo Félix Bianchini nomeada pelo Banco Central para conduzir a liquidação das instituições do grupo Master. É o primeiro processo sancionador contra a EFB e contra Bianchini, que também figura como acusado, registrado na base de dados da autarquia.
A CVM apura o descumprimento do prazo para convocar assembleias de cotistas de fundos imobiliários administrados pela Master Corretora, que, quase um ano depois da quebra do conglomerado de Daniel Vorcaro, seguem presos à instituição liquidada.
Pelas regras da autarquia, quando a administradora de um fundo imobiliário entra em liquidação extrajudicial, cabe ao liquidante convocar a assembleia de cotistas que vai eleger uma substituta. Se os cotistas não escolherem um novo administrador em até 30 dias úteis, contados da publicação do ato de liquidação no Diário Oficial, o Banco Central deve nomear uma instituição para liquidar o fundo.
Na prática, com a administradora em liquidação, os cotistas ficam presos aos fundos. Entre os investidores estão um fundo de pensão e institutos de previdência de servidores de ao menos sete municípios, que não conseguem trocar a administração nem vender as cotas sem aceitar grandes descontos. No maior dos fundos, o impasse também secou o caixa: as despesas se acumulam, o balanço de 2025 nem chegou a ser auditado e os cotistas rejeitaram aportar mais dinheiro.
A Master Corretora teve a liquidação decretada em 18 de novembro de 2025. Mais de 11 meses depois, três fundos imobiliários continuam sob sua administração: o Macam Shopping, o CMX Realty III e o Reag Recebíveis Imobiliários. Juntos, somam cerca de R$ 610 milhões em patrimônio. O Macam e o CMX seguem sem nova administradora, e o terceiro chegou às mãos da liquidante já depois da quebra.
O maior deles é o Macam Shopping, com R$ 467 milhões em patrimônio líquido. O fundo tem como único ativo ações da Blue Malls, empresa que detém participações em quatro ativos: nos Boulevard Shopping de Londrina e de Vila Velha; no Passeio das Águas, em Goiânia; e no Praça das Dunas, em construção na Grande Natal.
São 120 cotistas, segundo o informe de setembro enviado à CVM. Fontes do NeoFeed próximas à operação indicaram que, antes das reorganizações, a maior posição era detida pelo Banco Master. Hoje, ela é ocupada pelo BRB, que aparece como cotista nos documentos do fundo e detém 49,9% das cotas, segundo reportagem do Metrópoles.
A lista de cotistas ainda inclui 87 pessoas físicas e 20 investidores classificados como entidades de previdência. Entre eles estão a Serpros, fundo de pensão dos funcionários do Serpro (Empresa Nacional de Inteligência em Governo Digital e Tecnologia da Informação), que aplicou R$ 50 milhões no fundo em 2012, e ao menos sete institutos de previdência de servidores municipais: os de Betim e Pouso Alegre (MG), Angra dos Reis e Mesquita (RJ), e Guarujá, Ilhabela e Santo Antônio de Posse (SP).
Desde março de 2023, a gestão do Macam está com a Master Capital Asset Management, criada por Felipe Mota Separovic Rodrigues e depois rebatizada de Bluemac e Axor, da qual ele é hoje o único sócio.
A gestora assumiu o fundo depois de uma passagem de cinco meses da Trustee DTVM, casa que tem entre os sócios Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master, e que teve a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em 3 de setembro de 2026.
Rodrigues, porém, não era apenas o gestor. Segundo a Receita Federal, ele presidiu a Blue Malls, único ativo do Macam, de 2014 até o primeiro semestre de 2026.
A primeira tentativa de tirar o fundo das mãos do Master veio pela Justiça. Em 26 de novembro de 2025, oito dias depois da liquidação, a Justiça de São Paulo, em ação movida pela Legatus, ex-gestora e cotista do Macam, determinou a convocação de uma assembleia para destituir a administradora e a gestora. A decisão também proibiu operações extraordinárias de venda de patrimônio e de endividamento e decretou a intervenção judicial no fundo, com a nomeação de um administrador judicial.
Nos meses seguintes, a pressão aumentou. Em dezembro, a Serpros, outra cotista do fundo, pediu à CVM a nomeação de um administrador provisório. Em fevereiro deste ano, o BRB convocou por conta própria uma assembleia extraordinária. Em abril, a Legatus levou o caso à autarquia. Nenhuma assembleia desse período, porém, tem ata registrada no sistema da CVM.
Em 20 de maio, a área técnica da CVM, por meio da mesma gerência que hoje conduz o processo contra a liquidante, intimou a administradora a convocar “imediatamente” a assembleia de cotistas. A consulta formal só foi publicada em 10 de agosto, 82 dias depois e quase nove meses após a liquidação. O resultado, apurado em 4 de setembro, deixou tudo como estava.
Assembleia mantém o Master
Os cotistas rejeitaram a proposta da Genial para assumir a administração e a gestão, a destituição da Axor e a contratação da Legatus como consultora técnica. Outras duas candidatas à administração, a Trustee e a Mérito, ficaram pelo caminho por falta de proposta formal. Assim, o Macam segue administrado pela Master Corretora, em liquidação, e gerido pela empresa de Felipe.
A consulta teve participação de cotistas que somam 93,54% das cotas, e a destituição da Axor foi rejeitada por 56,25%. Como os demais cotistas reúnem, no máximo, 43,64% das cotas, a conta só fecha com o voto contrário do principal investidor do fundo. No sentido inverso, as contas de 2024, que registraram prejuízo de R$ 196,7 milhões, só passaram com o voto favorável do banco. Foram aprovadas por 57,61% das cotas, um ano depois de terem sido reprovadas em assembleia, em setembro de 2025.
Na mesma consulta votou a Vexor, cotista do Macam administrada pela Master Corretora e gerida pela Axor, a gestora de Felipe. Na prática, a gestora do Macam participou, por meio de outro fundo sob sua gestão, de uma votação que incluía a sua própria destituição e as contas do período em que já geria o fundo. Nas manifestações registradas em ata, a Vexor argumentou contra a proposta da Genial.
O edital da consulta vedava justamente o voto de prestadores de serviço do fundo, de seus sócios e de partes relacionadas, e previa a divulgação do resultado com e sem esses votos. A ata traz um único placar. Pelos números, a exclusão dos votos da Vexor não mudaria o resultado.
No mesmo edital, a EFB lembrou que, pela regra da CVM, se a assembleia não eleger novo administrador em 30 dias úteis contados da publicação do ato de liquidação, o Banco Central deve nomear uma instituição para liquidar o fundo. O regulamento do Macam vai além ao prever a liquidação antecipada se, em até 90 dias, a assembleia convocada para substituir a administradora não deliberar. O prazo de 30 dias úteis venceu no início de janeiro. Até agora, não há registro de que o Banco Central tenha nomeado alguém para o fundo.
RPPS presos ao prejuízo
Para os institutos de previdência, o impasse tem um custo concreto. O Macam é um fundo fechado e não permite resgates: a única saída é vender as cotas na B3, onde elas são negociadas perto de R$ 100, ante um valor patrimonial de R$ 535 informado pelo próprio fundo.
Além do desconto, falta comprador. O estudo de ALM de 2026 do IlhabelaPrev, de Ilhabela (SP), registra que, “devido à falta de liquidez do ativo”, adotou como premissa a manutenção das cotas na carteira, e recomenda que o instituto faça “o desinvestimento do ativo à medida do possível”. Na consulta, o Guarujá Previdência votou pela proposta da Genial, que considerou “a mais adequada aos interesses do Fundo”.
O Guarujá aplicou R$ 3 milhões em abril de 2018 e, em setembro de 2026, tinha R$ 697,7 mil, uma queda de 76,7%. Em Angra dos Reis, o comitê de investimentos do Angraprev registrou em ata, em abril, o “histórico de desempenho insatisfatório” do fundo e informou ter cobrado do gestor melhora de resultados e a “avaliação de alternativas estratégicas para o investimento”.
O fundo não distribui rendimentos desde janeiro de 2025 e acumulava, em agosto, R$ 26,9 milhões em despesas atrasadas, incluindo cerca de R$ 15,6 milhões de taxa devida ao BTG Pactual, antigo administrador. As demonstrações financeiras auditadas de 2025 sequer foram emitidas, “devido à insuficiência de caixa”, segundo fato relevante publicado em julho, o que levou a B3 a cobrar providências. Em 2025, a Blue Malls entregou à Allos toda a sua participação no Boulevard Shopping Brasília, avaliada em R$ 131,1 milhões, como pagamento de dívidas, segundo as demonstrações financeiras do fundo.
De um liquidado para outro
O segundo maior fundo imobiliário ainda administrado pelo Master é o CMX Realty III, destinado a investidores profissionais. Segundo o informe de setembro, ele tem R$ 118,2 milhões em patrimônio e um único cotista. O dinheiro está aplicado em duas empresas fechadas: a Pedra Histórica Holding, com R$ 45,9 milhões, e a CMX Realty SPE, com R$ 72,8 milhões, que tem o próprio fundo como única sócia. Em caixa, o CMX tinha R$ 1.990,53, contra R$ 267,9 mil em taxa de administração a pagar. O fundo não distribui rendimentos.
A gestão foi trocada em outubro de 2025, um mês e meio antes da liquidação do Master: saiu a Smart Agro e entrou a Acura Gestora, que tem como sócia a Sefer DTVM. Na mesma assembleia, os cotistas, com 100% das cotas, aprovaram as contas de 2024 e ratificaram os atos da gestora anterior.
Em junho de 2026, a Sefer também teve a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central, por “grave comprometimento da sua situação econômico-financeira” e “graves violações às normas legais”. A corretora foi alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga fraudes ligadas ao Master.
Já o terceiro fundo não estava no Master quando a corretora quebrou. O Reag Recebíveis Imobiliários, destinado a investidores qualificados e com cerca de R$ 25 milhões em ativos, era administrado pela Reag Trust DTVM, rebatizada de CBSF DTVM. Em 15 de janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição por “graves violações às normas” do sistema financeiro, um dia depois de a segunda fase da Operação Compliance Zero fazer buscas na sede da Reag.
Em 3 de junho, em assembleia com a totalidade dos cotistas, o fundo trocou uma administradora em liquidação por outra: a administração passou para a Master Corretora, que aceitou a função por meio de seu liquidante. A gestão foi para a Smart Agro, a mesma que havia deixado o CMX.
Três meses depois, em 16 de setembro, a Smart Agro saiu e a Versal Finance assumiu a gestão, com remuneração máxima de R$ 1.000 por mês. A ata é assinada pela EFB e por Bianchini. Assim, enquanto o Macam seguia sem nova administradora, a liquidante do Master assumiu mais um fundo.
Procurados, a Master Corretora e sua liquidante, a EFB Regimes Especiais, a Axor e Felipe Mota Separovic Rodrigues, o BRB, a Trustee, a Legatus, a Acura, a REAG, Artur Martins de Figueiredo, e os institutos de previdência de Betim, Pouso Alegre, Angra dos Reis, Mesquita, Guarujá, Ilhabela e Santo Antônio de Posse não se manifestaram até a publicação desta reportagem.




