O poder de compra do produtor brasileiro está no pior nível dos últimos 20 anos, segundo Carlos Cogo, um dos analistas mais respeitados do setor. A guerra no Oriente Médio, iniciada em fevereiro, somou-se aos baixos preços das commodities, piorando a relação de troca entre grãos e fertilizantes em meio aos preparativos para o plantio da próxima safra.
Na avaliação de Cogo, a relação de troca está no pior momento em duas décadas tanto para a compra de fosfatados, para o plantio da soja, como para a aquisição da ureia, demandada pelas lavouras de milho.
“Na guerra entre Rússia e Ucrânia, a questão do petróleo era a mesma. Os fertilizantes, principalmente o potássio, tinham subido bastante. Mas as commodities estavam com preços altos, a relação de troca estava mantida. A perda de poder de compra agora é totalmente diferente”, afirmou o especialista ao The AgriBiz.
Mesmo que a guerra acabasse amanhã, o petróleo desce de elevador e os fertilizantes descem “de escada” em termos de preço. “Estruturas foram destruídas, fluxos foram interrompidos, a indústria desativou linhas de produção. Tem uma série de coisas que não vão se resolver do dia para a noite”, disse Cogo.
O cenário traçado por Cogo é semelhante ao descrito por Eduardo Monteiro, country manager da Mosaic no Brasil. Em entrevista ao The AgriBiz na semana passada, o executivo disse que o setor vive o momento mais complexo dos últimos 25 anos, com as altas taxas de juros e a restrição de crédito agravando o cenário para a compra de insumos.
Para complicar ainda mais a situação, o produtor ainda tem muito a comprar. Nas contas de Cogo, o mercado de fertilizantes ainda está de 65% a 70% aberto para compras. “A grande maioria [dos produtores] ainda não sabe o que vai fazer. Fala-se em redução de uso.”
“A indústria já tem isso como certo, não é algo que está fora do radar deles. Agora, é delimitar o quanto vai ser essa redução e como, combinada com a situação climática, pode afetar o desempenho da safra”, disse o especialista, lembrando que a perspectiva de um possível El Niño este ano.
Apesar das incertezas em relação à intensidade do fenômeno, o El Niño aumenta as incertezas sobre o regime de chuvas no sul do país e o risco de seca na metade norte do Mato Grosso e no Matopiba. “Nosso país tem muito mais histórico de quebra de safra em ano de El Niño do que La Niña”, lembrou.
Margem perto de zero
Até o produtor dono da terra, que é mais resiliente do que o arrendatário, está enfrentando os piores níveis de margem em décadas, segundo Cogo. “Proprietários de terras vão ter a menor margem dos últimos vinte anos, comparando com ele mesmo. É um nível de margem líquida, incluindo depreciação e amortização, muito próximo de zero.”
Nesse patamar, mesmo com dificuldades, o proprietário de terras sobrevive, diz. Mas, para os arrendatários, o cenário é ainda mais delicado, levando à devolução de alguns arrendamentos — o que já começou a acontecer.
Mesmo assim, o especialista não vê potencial para uma grande queda na área plantada de soja. “O Brasil nunca fez grandes movimentos de área para baixo, o último foi em 2006, pequeno também. Eu não espero grande movimento, mas sim alguns pontos percentuais, um dígito baixo”, afirmou.




