A recuperação do rebanho de bovinos nos Estados Unidos está demorando mais do que o previsto, o que deve fazer de 2026 um ano mais desafiador do que foi 2025 no mercado de carne bovina americano. A análise é de Wesley Batista Filho, CEO da JBS USA.
“As margens em janeiro e fevereiro foram muito baixas. Esse provavelmente é o período mais desafiador da indústria na história”, afirmou o executivo durante teleconferência com analistas nesta quarta-feira.
No primeiro trimestre deste ano, a margem Ebitda do negócio de carne bovina da JBS na América do Norte ficou negativa em 3,7%, caindo 2 pontos percentuais em relação ao mesmo período do ano passado.
O resultado ruim da divisão respondeu por cerca de metade da queda de 26% no Ebitda consolidado no primeiro trimestre, para US$ 1,1 bilhão. A outra metade é atribuída à piora no balanço da Pilgrim’s Pride, que foi afetada por paradas programadas em fábricas visando melhorias operacionais.
Para o CEO global da JBS, Gilberto Tomazoni, o pior ficou para trás. “Acho que atingimos o piso em termos de resultados. Fizemos alguns ajustes e vemos que o próximo trimestre deve ser mais comum. Não podemos dizer que haverá uma melhora muito grande, mas acredito que será melhor do que foi neste trimestre”, disse.
Segundo ele, a JBS fez alguns ajustes para ajudar a companhia a navegar em um cenário mais adverso, com um menor custo operacional e mais sinergias. “Isso é uma das coisas que nos dá mais confiança de que os resultados serão melhores.”
A margem nos EUA
Segundo Wesley Batista Filho, neste ano as margens da indústria de carne bovina americana devem ficar entre 1 e 1,5 ponto percentual menores do que as registradas em 2025. Se essa sinalização for extrapolada também para a JBS, é possível esperar uma melhora no desempenho nos próximos trimestres.
A demanda de carne nos Estados Unidos continua forte e deve seguir firme mesmo em meio aos preços recordes, estimulada pela chamada barbecue season nos Estados Unidos, sinalizou o executivo.
A possibilidade de o governo Trump reduzir as tarifas de importação da carne para conter a inflação, como foi noticiado pela imprensa americana nesta semana, não é uma preocupação para a JBS. Segundo Wesley Filho, a maioria da carne que entraria no país, aproveitando a tarifa menor, seria complementar à produção local da JBS.
Enquanto alguns concorrentes, como a Tyson Foods, têm reduzido a capacidade de produção frente à forte restrição de gado, a JBS ainda não tem planos para racionalizar a produção, disse Wesley Filho ao ser questionado sobre o tema.
Para aliviar a escassez de gado no curto prazo, já que a recuperação do rebanho agora é esperada apenas para 2028, uma boa notícia seria a reabertura das importações de gado vivo do México, proibidas devido ao registro de um parasita em alguns animais no vizinho.
“A abertura da fronteira com o México é a coisa mais importante que poderia acontecer para normalizar a oferta”, disse Wesley Filho, ressaltando que a questão está sendo analisada com muito critério pelo USDA (Departamento de Agricultura dos EUA).
Para o mercado brasileiro, Tomazoni disse que a tendência é de queda no preço do boi gordo depois que a cota de importação da China for preenchida, já que os frigoríficos precisarão reduzir o ritmo dos abates. Sem a China, lembrou, o Brasil precisa encontrar mercado para 120 mil toneladas de carne por mês.
Como o preço da carne também deve cair, a tendência para as margens é de relativa estabilidade. No caso da JBS, que está mais focada na venda de produtos de maior valor agregado, elas podem até aumentar.
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Nesta quarta-feira, as ações da JBS respondem aos resultados divulgados ontem à noite, que ficaram abaixo do esperado. Os papéis da gigante de proteínas recuavam 4% em Nova York por volta das 12h20 (horário local), depois de terem caído 9% no início do pregão. Desde a listagem, as ações subiram 9%. A empresa está avaliada em US$ 16,3 bilhões.




