Bloomberg Línea — A Kaszek, um dos maiores fundos de venture capital da América Latina, deve voltar ao mercado nos próximos seis a doze meses para captar seu sétimo fundo de early stage. O movimento ocorre porque o seu Fundo VI está chegando à etapa final de formação de portfólio.
A informação foi confirmada pelo cofundador Hérnan Kazah em entrevista à Bloomberg Línea. A gestora prevê um valor semelhante ao do veículo anterior, que levantou US$ 540 milhões em 2023.
A tese, segundo o investidor argentino, continuará essencialmente a mesma, focada em bons fundadores, setores com grande mercado endereçável, principalmente na América Latina, que usam a tecnologia para criar produtos novos ou melhores do que os atuais.
“Obviamente, IA está cada vez mais presente em praticamente tudo o que fazemos e vemos algumas oportunidades adicionais em áreas como energia e data centers, mas isso é mais uma evolução natural da tecnologia e do mercado do que uma mudança de estratégia”, afirma Kazah.
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A gestora nunca investiu em data centers e tem apenas duas startups na área de energia. O movimento mostra uma ambição da Kaszek em capturar valor na onda da IA em mais linhas de negócios do que apenas as camada de aplicações, que tende a ser onde as startups regionais criarão mais negócios.
“Data center é um negócio que acho que super interessante, mas com demanda de capital muito alto”, afirma. “Hoje, tem muita mais demanda do que no ano passado. Sempre teve demanda, mas hoje está crescendo não linear, e sim exponencialmente.”
Segundo Kazah, que criou a Kaszek em 2011 ao lado de Nicolas Szekasy, ambos co-fundadores do Mercado Livre, a gestora tem quase US$ 1 bilhão para investir.
O montante inclui reservas dos fundos IV, V e VI, além do Opportunity Fund 3 — a estratégia de growth da gestora —, do qual cerca de 70% a 75% do capital ainda está disponível. Por isso, a Kaszek não pretende captar para esse segmento neste momento, apenas para o early stage.
A tese de ‘defensibilidade’
Para Kazah, a inteligência artificial representa a terceira grande disrupção tecnológica que ele acompanha de perto como investidor — após a internet e os smartphones. Mas ela tem uma característica que a diferencia das anteriores: age simultaneamente na ponta do consumidor e dentro das empresas.
“É uma combinação incrível”, afirmou. “As barreiras para empreender são cada vez menores.”
O reflexo disso aparece na velocidade de crescimento das startups do portfólio. Kazah disse que métricas que antes levavam anos para serem atingidas — como US$ 10 milhões ou US$ 25 milhões em receita anual — agora são alcançadas em meses. “Nunca vi uma velocidade assim”, disse.
Mas é exatamente essa velocidade que cria o principal dilema do momento, na percepção do executivo. Se antes a dificuldade era encontrar o product-market fit, hoje a pergunta central mudou: qual dessas empresas vai continuar existindo daqui a cinco anos?
“O desafio hoje é a sustentabilidade. O que é defensável”, resume Kazah, citando o conceito popularizado por Warren Buffett de moat — a vantagem competitiva durável de um negócio.
Para Kazah, há dois caminhos que tornam uma startup de IA mais difícil de ser engolida pelos próprios modelos fundacionais que a sustentam.
O primeiro é o acesso a dados exclusivos combinado com integração de hardware. Nesse modelo, a empresa usa os grandes modelos de linguagem (LLMs) como base, mas os opera em ambiente fechado, com dados proprietários que ninguém mais possui. “Onde essa inteligência está mais conectada com o hardware e com dados que você só tem”, diz.
O segundo caminho é resolver um problema tão específico e local que nenhum LLM global teria incentivo — ou conhecimento — para atacar.
Kazah citou como exemplo a Enter, startup de legaltech focada em direito do consumidor, uma startup do Brasil que recebeu investimentos recentemente e se tornou o primeiro unicórnio latino-americano nascido em inteligência artificial.
Outro exemplo é o da Eden, a startup mexicana de saúde oncológica que chegou ao Brasil nos últimos meses. “Você utiliza os modelos grandes, mas num ambiente fechado, com dados que são só seus”, diz, ao explicar a lógica de modelos verticalizados.
Os valores subiram
Se a tese da Kaszek não tem mudado neste momento de expansão de IA, há outros elementos que passaram por ajustes. O primeiro é o tamanho dos aportes, agora mais robustos. Em estágios iniciais, o fundo investe entre US$ 3 milhões e US$ 10 milhões — ante US$ 1 milhão a US$ 5 milhões no passado. Em rodadas séries B e C, o aporte pode chegar a US$ 20 milhões ou US$ 30 milhões.
O processo de avaliação das startups também passou por um refinamento. Equipe, tamanho de mercado e modelo de negócio seguem centrais na seleção da gestora, mas o peso de cada elemento mudou.
“Uma coisa que estão mudando agora, quando o coding está deixando de ser tão relevante, é ter fundadores que têm cabeça mais de sales, de captação de recursos, recrutamento e de muita futurologia, capaz de imaginar três movimentos à frente para ajudar a construir soluções sustentáveis”, afirma o gestor.
Ao listar as verticais mais atrativas no momento, Kazah citou três frentes: fintech de infraestrutura (mais B2B), energia e data centers — área nova para o fundo —, e implementação de IA para empresas.
Nessa última categoria, a Kaszek investiu recentemente na Wonderful, startup israelense que ajuda companhias a colocar IA em produção. “Todo mundo está maluco com IA, mas a implementação é difícil. A Wonderful está fazendo isso muito bem”, diz.
Kazah também confirmou que o fundo acompanha o movimento de empreendedores latino-americanos que se instalam no Vale do Silício para construir empresas globais — como o argentino Guillermo Rauch, fundador da Vercel, avaliada em US$ 9 bilhões e com IPO previsto para os próximos 12 meses.
Mas deixou claro que a Kaszek não pretende abrir escritório nos Estados Unidos. “Acho que é um caso típico de adverse selection. Se você conseguir negócio lá, tem que se perguntar por que está conseguindo”, brinca.
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