Bloomberg Línea — A Nova Aliança, cooperativa vinícola mais antiga do Brasil, tenta fazer uma transição rara no setor. Depois de anos operando em grande parte nos bastidores, com foco em suco de uva e produção para terceiros, a empresa quer capturar valor com marcas próprias e reposicionar sua presença em vinhos finos e espumantes.
A estratégia vem acompanhada de um pacote de investimentos e de um turnaround financeiro iniciado a partir da safra de 2023, explicou Heleno Facchin, CEO da Nova Aliança Vinícola Cooperativa e também produtor cooperado, em entrevista à Bloomberg Línea.
“Estamos operando uma reestruturação dentro da cooperativa vinícola mais antiga do país”, disse Facchin.
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Com 96 anos de história e mais de 600 famílias de viticultores associadas, a Nova Aliança processa entre 35 milhões e 49 milhões de quilos de uva por ano, o equivalente a cerca de 5% a 7% da uva produzida no Brasil, segundo o executivo.
A capacidade instalada de processamento é de 60 milhões de quilos, com volume atual em torno de 45 milhões de quilos. A estrutura de armazenagem, afirmou, fica perto de 50 milhões de litros.
O tamanho, que por um lado dá escala, também impõe desafios típicos de operações industriais, como ociosidade e a necessidade de diluir custos fixos. Facchin disse que um dos objetivos centrais da reestruturação é reduzir parte dessa ociosidade por meio de acesso a mercado e aumento de volume, mas com mudança de mix.
O principal ponto de inflexão, segundo ele, foi reconhecer que a lógica da commodity apertava margens e dificultava a geração de resultado consistente para uma cooperativa que precisa remunerar os associados pela produção e, quando possível, distribuir sobras.
“O suco, como uma commodity, acaba penalizando a operação”, disse. “Quando se trabalha com commodity, se tem muito pouca margem de avançar.”
A leitura do executivo é que, num ambiente de consumo mais frágil e com o suco fora da cesta básica, o produto fica exposto à substituição por opções mais baratas. Ao mesmo tempo, a empresa carrega um custo operacional relevante, o que aumenta a pressão por ticket mais alto.
“A gente precisava escalar ticket. Para isso, precisava equilibrar o mix de portfólio”, disse Facchin.
O reposicionamento envolve dar mais peso a vinhos finos e, especialmente, espumantes. Segundo Facchin, a cooperativa aumentou o volume de espumantes e, com isso, a receita. “Dobramos o volume de espumantes, e nossa receita triplicou”, afirmou.
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A mudança ainda não altera o DNA da empresa, cuja base segue em bebidas não alcoólicas, segundo o executivo.
Facchin disse que o objetivo é chegar a um equilíbrio em 2030, com metade do portfólio em alcoólicos e metade em não alcoólicos, sem reduzir a operação de sucos.
“Estrategicamente até 2030, nós vamos estar meio a meio. Detalhe, sem perder 1 ml de suco”, disse.
A transição do portfólio se apoia em uma decisão de sair de uma posição mais invisível na cadeia. Facchin explica que, por anos, parte relevante do vinho e do espumante produzidos pela cooperativa acabava em garrafas de terceiros, com marca de outras empresas.
“A Nova Aliança se dedicou a trabalhar produzindo para terceiros. Agora quer sair do bastidor e assumir o holofote”, disse.
Na visão dele, essa virada exige menos investimento em aço e mais investimento em gente. O executivo disse que a Nova Aliança tinha uma equipe de vendas reduzida, com quatro pessoas no país, e que ampliou para 20, com plano de chegar a 30 até o fim do ano, além de uma rede maior de representantes.
“Nosso maior investimento hoje é em pessoas”, afirmou.
O reposicionamento também é apresentado como uma tentativa de corrigir uma assimetria histórica entre capacidade produtiva e presença comercial.
Facchin citou o exemplo de outras cooperativas tradicionais com maior competência de acesso ao mercado e disse que, por anos, a Nova Aliança priorizou estruturar sua matriz industrial.
“Isso mostra que, na verdade, a Aurora é mais competente hoje em acessar mercado do que nós, porque a Nova Aliança se deteve ao longo dos anos no que diz respeito a estruturar a sua matriz produtiva”, disse, ao citar que a empresa produz itens para terceiros.
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Ele disse que, mesmo quando a empresa não aparecia para o consumidor final, tinha reconhecimento técnico no setor.
“A gente sempre foi muito bom produtor. O que faltava era comunicar e estar próximo do consumidor”, disse.
No plano de negócios, a reestruturação inclui um esforço de reorganização financeira. Facchin disse que 2024, apesar de ter sido um ano de safra fraca, marcou a virada de resultado.
Segundo ele, houve quebra de 40% no setor e, mesmo assim, a Nova Aliança registrou o primeiro Ebitda positivo em oito anos. “Em 2025, multiplicamos por três esse Ebitda positivo”, afirmou.
O CEO também relatou um reperfilamento de endividamento, com alongamento do horizonte para dez anos e redução do custo da dívida em um ambiente de juros mais altos.
“Nós diminuímos o custo da dívida em mais de 30%, mesmo com a taxa básica de juros subindo”, disse, ao afirmar que a taxa foi reduzida em cerca de 35% e que a composição entre curto e longo prazo foi invertida.
No lado dos investimentos, a Nova Aliança anunciou um plano de R$ 10 milhões para 2026, com foco em modernização industrial e turismo.
Facchin mencionou que investimentos recentes em equipamentos e estrutura para vinhos finos e espumantes somaram R$ 15 milhões nos últimos três anos, na área de envase, e citou ainda um investimento em prensas contínuas, com retorno estimado em um a dois anos.
“São investimentos de retorno em um prazo de um a dois anos. É um payback muito rápido”, disse.
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O reposicionamento da empresa também inclui a construção de um espaço voltado à experiência do consumidor, associado à marca Nova.
Facchin disse que a cooperativa trabalha com a ideia de uma “vinícola boutique” para a unidade, sem abrir mão das origens da cooperativa. O projeto, segundo ele, tem investimento estimado entre R$ 3 milhões e R$ 4 milhões.
O executivo afirmou que a ambição até o fim da década é crescer sem transformar faturamento em fetiche.
Ele disse que a receita atual está na ordem de R$ 240 milhões e que o planejamento prevê aumento de 50%, com foco em melhorar a qualidade do negócio.




