As cotas de importação e outras restrições às exportações brasileiras de carne não são episódios pontuais, mas recursos que devem se tornar cada vez mais comuns em um mundo em disrupção e traços de uma realidade com a qual o País deve aprender a conviver, segundo o CEO global da JBS, Gilberto Tomazoni.
O executivo participou, nesta terça-feira, do AGRO 360º, evento promovido por uma parceria entre The AgriBiz e Brazil Journal. Para debater como a nova ordem global está impactando os negócios no agro, também participaram do painel Eduardo Monteiro, country manager da Mosaic no Brasil e Paraguai, e Altamir Perottoni Júnior, vice-presidente comercial da Rumo.
Na visão de Tomazoni, os choques comerciais e geopolíticos nos últimos anos, desde as tarifas impostas pelos Estados Unidos até os rompimentos de cadeias de fornecimento causados pela epidemia de Covid-19 e pelas guerras da Ucrânia e do Irã, colocaram a segurança alimentar sob ameaça em diversos países.
Nesse cenário, é natural que grandes compradores de alimentos criem barreiras à carne brasileira, como no caso da União Europeia. Ou ainda que passem a estabelecer cotas para proteger sua indústria e a priorizar a ampliação da produção local — como a China fez impondo salvaguardas às importações de carne bovina.
“Essa é uma questão que está permeando todo o mundo. Com a instabilidade geopolítica, você nunca sabe quando uma cadeia vai se romper. Encontrar países buscando se proteger é algo com que temos que conviver”, disse Tomazoni.
Segundo o executivo, o “novo normal” guarda também oportunidades: em muitos casos, esses países vão precisar de operadores para os investimentos que estão planejando ou fazendo em segurança alimentar. Um novo modelo, de fornecedor-parceiro, em vez de uma estratégia antiga de substituir o mercado local.
Foi assim, ele exemplificou, no recente investimento da JBS de US$ 150 milhões em uma sociedade com o fundo soberano do Omã para instalar duas plantas produtoras de aves, bovinos e cordeiros.
“Temos que procurar outros mercados para o Brasil colocar a produção. E somos o potencial parceiro de todos os países que querem se proteger, porque temos volume, escala e custo de produção competitivo, e podemos ajudar na transição energética e climática porque fazemos três safras.”

“Precisamos começar a traduzir segurança alimentar em Brasil”, resumiu Monteiro, da Mosaic. “O Brasil hoje é relevante para o mundo. Essa é uma pauta que a gente tem que carregar, levar a nossa bandeira para fora” seja por meio do governo ou da iniciativa privada, disse.
Para a principal operadora de ferrovias do País, a geopolítica também vem influenciando os investimentos em infraestrutura no Brasil, onde as empresas estrangeiras querem estar para assegurar o fornecimento de alimentos.
“Especialmente neste momento de volatilidade, ter uma capacidade logística eficiente e competitiva é fundamental para se posicionar”, disse Perottoni, citando o movimento da trading chinesa Cofco, que no ano passado inaugurou seu terminal no Porto de Santos e fez um contrato com a Rumo para operar os seus vagões e locomotivas, garantindo capacidade de transporte.
“Também tenho visto outras tradings que não atuavam no Brasil procurando formas de originar grãos aqui para tentar garantir o seu abastecimento”, observou.
Diversificar é preciso
Segundo o CEO global da JBS, a estratégia de diversificação geográfica adotada pela empresa, hoje produzindo em mais de 20 países e vendendo para mais de 130, ajuda a minimizar os impactos.
“Diante das dificuldades logísticas, se você está produzindo em vários países, consegue contornar e continuar operando. A diversificação não é só para agora, temos que seguir reforçando para construir resiliência.”
Monteiro também defendeu a diversificação como forma de proteção aos choques internacionais — embora em seu negócio ela apresente demandas particulares.
“Mais recentemente, temos nos preocupado em encontrar insumos para aquilo que precisamos. Diversificação é importante para nós pensando no longo prazo”, afirmou.
Segundo ele, a indústria de fertilizantes sofre com dois vetores em paralelo: os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio afetando as exportações de matérias-primas, como enxofre e ureia, e a mudança na matriz energética — o enxofre tem sido altamente demandado para a produção de baterias de carros elétricos.
“A eletrificação crescendo de forma exponencial e a construção de datacenters causam mais tensão no mercado. Tem que saber navegar, porque o prazo de duração, principalmente da guerra, não está sob nosso controle.”
Segundo ele, o déficit de aquisição de fertilizantes pelos produtores brasileiros está hoje em cerca de 7 milhões de toneladas, na comparação com o quanto já havia sido comprado à mesma altura no ano passado. Em 2025, as entregas de fertilizantes totalizaram 49 milhões de toneladas, um recorde.
“Faltará fertilizantes em função da guerra, ou a potencial redução de demanda poderá ser um ponto de equilíbrio? Não sabemos, tem um atraso importante de quem postergou e ainda tem opção de comprar até setembro para a safra de verão.”
Nesse contexto, pode faltar produto. “Com a postergação da decisão pelo agricultor, a gente começa a colocar em dúvida nossa capacidade de atender. Importante informar os riscos para os clientes e calibrar bem o parque fabril para atender essa demanda, que vai ser muito concentrada.”
A situação também tem pressionado a logística. Segundo Perottoni, a Rumo se prepara para endereçar um fluxo possivelmente maior que o usual de negociações de fertilizantes no segundo semestre. “Deve vir um volume que vai pressionar alguns corredores, precisamos estar bem-preparados.”




