Todos os dias, toneladas de materiais com potencial de reciclagem são descartadas de forma inadequada no Brasil. Enquanto boa parte da população sequer pensa para onde vai o lixo depois que ele sai de casa, milhares de catadores percorrem ruas, avenidas e bairros inteiros para recuperar materiais que voltam à cadeia produtiva, geram negócios, renda e evitam impactos ambientais.
É para aproximar gestores dessa realidade que o Sebrae promove nesta semana, em São Paulo, a 1ª Jornada Desafio Pimp. A iniciativa reúne consultores, gestores e parceiros de 24 estados em uma experiência de imersão que coloca os participantes em contato direto com o cotidiano dos catadores de materiais recicláveis e com os desafios da reciclagem no país.
Para o presidente do Sebrae, Rodrigo Soares, discutir reciclagem é também discutir desenvolvimento econômico, geração de renda, modelos de negócios e responsabilidade coletiva. Segundo Rodrigo, a reciclagem ainda ocupa um espaço muito menor do que poderia no país, apesar do potencial de geração de emprego, renda e impacto ambiental positivo.
“Grande parte do que chamamos de lixo tem valor econômico. O desafio é criar condições para que esse valor seja aproveitado de forma mais eficiente, beneficiando quem está na ponta dessa cadeia. É possível promover inclusão produtiva e desenvolvimento sustentável quando as cooperativas são fortalecidas e há apoio na gestão dos negócios”, comenta Rodrigo Soares.
“O projeto Pró-Catadores faz parte de uma estratégia nacional do governo federal, com olhar que conciliar negócio, renda, sustentabilidade e educação ambiente”
Rodrigo Soares, presidente do Sebrae
A atividade integra o Encontro Técnico Nacional do Projeto Pró-Catadores e foi desenvolvida em parceria com o Movimento Pimp My Carroça, organização de impacto social reconhecida pelo trabalho de valorização dos catadores e pelo fortalecimento da reciclagem inclusiva.
A proposta é provocar reflexão. Quem são as pessoas responsáveis por retirar das ruas toneladas de resíduos todos os dias? Por que uma atividade tão importante para as cidades ainda enfrenta tantos desafios de reconhecimento, infraestrutura e renda? E o que pode ser feito para transformar esse cenário?
A programação inclui conhecer experiências bem-sucedidas, visitar iniciativas ligadas à reciclagem e observar como a articulação entre cooperativas, poder público e iniciativa privada pode gerar soluções mais eficientes para a gestão de resíduos sólidos e para a inclusão produtiva.
Uma responsabilidade de todos
A discussão ganha ainda mais relevância diante dos desafios previstos na Política Nacional de Resíduos Sólidos, que estabelece a responsabilidade compartilhada entre governos, empresas e cidadãos pela destinação adequada dos resíduos.
“Não existe solução para a questão dos resíduos sem a participação da sociedade. Separar corretamente os materiais, reduzir desperdícios e apoiar iniciativas de reciclagem são atitudes que fazem diferença. Os catadores já fazem a parte deles todos os dias. A pergunta é: estamos fazendo a nossa?”, provoca o presidente do Sebrae.

Atualmente, o Projeto Pró-Catadores está presente em 24 unidades da federação. Em 2025, a iniciativa alcançou 421 organizações de catadores, beneficiou 5.931 trabalhadores e chegou a 244 municípios brasileiros. No mesmo período, as organizações participantes registraram crescimento médio de 21,7% no faturamento e evolução de 30,1% nos indicadores de maturidade de gestão. O volume de investimentos mobilizados pelo projeto já soma R$ 29 milhões.
Além do fortalecimento das cooperativas, o encontro também debate empreendedorismo e formalização como caminhos para ampliar oportunidades de mercado e aumentar a renda dos trabalhadores da reciclagem.
Para o gerente de Políticas Públicas do Sebrae Nacional, Augusto Togni, o desafio dos próximos anos é ampliar o reconhecimento dos catadores como agentes econômicos e ambientais estratégicos para o país.
“Quando uma cidade funciona melhor porque menos resíduos vão para os aterros, quando uma indústria recebe matéria-prima reciclada e quando uma família consegue gerar renda por meio da reciclagem, existe uma conexão direta com o trabalho dos catadores. Eles não fazem parte do problema. Eles são uma parte muito importante da solução”, enfatiza.
A 1ª Jornada Desafio Pimp reforça o compromisso do Sebrae com a valorização dos catadores e das catadoras, reconhecendo o papel fundamental desses profissionais na economia circular, na preservação ambiental e na construção de cidades mais sustentáveis.
Reciclagem transformou a vida de Gustavo e da família
Há quase dez anos, Gustavo Pereira Rodrigues, de 35 anos, percorre as ruas de São Paulo puxando uma carroça e recolhendo materiais recicláveis. Enquanto muita gente vê apenas lixo, ele vê trabalho e renda.
Pai de Bernardo, de 12 anos, e Ana Beatriz, de 10, Gustavo encontrou na reciclagem uma alternativa para superar a falta de oportunidades no mercado formal e construir uma fonte de renda capaz de sustentar a família. A mudança começou após a indicação de um amigo.
“Eu estava procurando serviço e não conseguia encontrar uma oportunidade que compensasse. Um amigo me falou sobre a reciclagem e resolvi tentar. Quando comecei, gostei do trabalho e me dediquei de verdade”
Gustavo Pereira Rodrigues, catador
Ao longo dos anos, ele construiu uma carteira própria de clientes. Hoje, além da coleta de materiais recicláveis, realiza serviços de retirada de entulho, móveis, madeira, eletrônicos e outros resíduos.
“Meu telefone toca bastante. As pessoas me chamam para retirar materiais e fazer limpezas. Fui criando uma clientela e isso fez muita diferença na minha vida.”
Durante a 1ª Jornada Desafio Pimp, Gustavo foi um dos catadores responsáveis por conduzir os participantes na atividade prática pelas ruas da cidade. Ele liderou um dos cinco grupos formados para a imersão e compartilhou conhecimentos adquiridos em quase uma década de trabalho.

Entre as orientações, explicou que a atividade exige estratégia, atenção constante e conhecimento do território. Segundo ele, escolher os trajetos certos faz diferença tanto para aumentar a quantidade de material coletado quanto para reduzir riscos.
“Tem lugar que gera mais material e tem horário certo para passar. Comércio, prédios residenciais e algumas empresas costumam separar bastante coisa. Com o tempo, a gente aprende onde vale a pena ir e cria uma rota mais eficiente”, explica.
A segurança também faz parte da rotina. Gustavo orientou os participantes sobre cuidados para evitar acidentes no trânsito, a importância de observar o fluxo de veículos e de escolher caminhos mais seguros para circular com a carroça. “A gente precisa prestar atenção o tempo todo. Tem que saber atravessar, evitar ruas muito perigosas e sempre ficar atento aos carros e motos. Trabalhar na rua exige cuidado”, afirma.
Outro aprendizado compartilhado durante a atividade foi a relação com a população. Para Gustavo, conversar com moradores, comerciantes e funcionários de empresas é fundamental para conquistar confiança e ampliar as oportunidades de coleta.
“Tem que tratar todo mundo com respeito. Muitas vezes a pessoa passa a separar material porque conhece você e entende para onde aquilo vai. Foi assim que consegui muitos clientes ao longo dos anos.”

A rotina é intensa. Em alguns dias, Gustavo percorre entre 40 e 80 km pelas ruas da capital paulista. O esforço diário, porém, é recompensado pela autonomia conquistada. “Foi um trabalho que mudou a minha vida. Todo dia você consegue produzir alguma coisa. Se você tem disposição para trabalhar, consegue gerar renda. Foi isso que me ajudou a cuidar dos meus filhos e construir a minha história.”
Para ele, uma das maiores dificuldades ainda é a falta de reconhecimento da importância da atividade. “Muita gente ainda não enxerga o valor do nosso trabalho. A gente ajuda a manter a cidade limpa, encaminha materiais para reciclagem e evita que resíduos sejam descartados de forma errada.”
Por isso, Gustavo acredita que iniciativas como a Jornada Desafio Pimp ajudam a mudar a forma como a sociedade enxerga os catadores. “O que eu mais gosto no Pimp My Carroça é o respeito. Aqui a gente se sente valorizado. E quando as pessoas entendem o que a gente faz, elas também passam a olhar para o lixo de outro jeito.”




