Bloomberg Línea — A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de cortar a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, foi recebida por economistas das principais instituições financeiras como sinal de que o espaço para novos cortes se estreitou.
Parte das casas avalia que o ciclo de afrouxamento pode ter chegado ao fim e outra parte projeta a continuidade das reduções à frente.
O tom do comunicado foi lido por alguns economistas como mais duro (hawkish), com o Banco Central reconhecendo que a atividade e a inflação aceleraram e que as projeções se distanciaram adicionalmente da meta de 3,0%.
A projeção de inflação do Copom para o horizonte relevante (quarto trimestre de 2027) subiu de 3,5% para 3,7%, e a de 2026 saltou para 5,2%. O balanço de riscos ganhou dois vetores de alta: o impacto do clima sobre preços agrícolas e de energia e os estímulos à demanda agregada que enfraquecem os canais de transmissão da política monetária.
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Um ponto que chamou a atenção de economistas foi o argumento usado para justificar o corte na decisão de quarta-feira (17).
Pelas simulações do Banco Central, a trajetória de juros compatível com a meta no horizonte relevante atual (4T27) levaria a inflação para baixo da meta no trimestre seguinte (1T28). Ao estender o horizonte relevante em um trimestre, o Copom encontrou espaço para a redução.
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A XP destacou em comentário que o recurso a esse mecanismo sinaliza margem estreita para novas reduções. O BTG, por outro lado, classificou a discussão sobre a inflação abaixo da meta como o elemento mais dovish do comunicado, que, aplicado de forma consistente, poderia manter a porta aberta para novos ajustes. O Goldman Sachs também leu o comunicado como de viés dovish, mas avaliou que ele carece de clareza e objetividade.
No campo dos que veem o ciclo encerrado, o Bank of America foi o mais explícito quanto ao horizonte: avalia que junho trouxe o último corte e projeta a Selic em manutenção até meados de 2027, sustentando que a aceleração da atividade, a inflação mais alta e a piora das expectativas justificam uma pausa prolongada.
O BTG também mantém o seu cenário-base de que a decisão de junho trouxe o último corte do ciclo, com a Selic encerrando em 14,25%. O Goldman Sachs, sem cravar o fim do ciclo, vê espaço reduzido para novas reduções no curto prazo e afirmou que recalibrará sua projeção após a divulgação da ata, na próxima semana.
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Já o Citi avaliou que o Copom manteve a porta aberta para a próxima reunião, mas elevou a régua para um corte adicional. O banco mantém a projeção de Selic em 13,75% no fim de 2026, nível que pressupõe novos cortes de 0,25 ponto a partir dos atuais 14,25%, mas afirma que a decisão adiciona risco a essa estimativa.
No outro extremo, o UBS BB sustentou que o ciclo não terminou e projetou cortes de 0,25 ponto em agosto e setembro, as duas reuniões anteriores à eleição de outubro, e vê espaço para 50 pontos-base adicionais nas duas últimas reuniões do ano, em novembro e dezembro, caso a política fiscal ganhe credibilidade.
O PicPay projetou continuidade gradual, com taxa terminal de 13,25% e risco crescente de pausa no segundo semestre.
Itaú e XP projetam mais um corte, mas com a pausa logo na sequência. O Itaú espera um corte de 0,25 ponto em agosto, levando a Selic a 14,0%, condicionado à leitura da ata. A XP também prevê um ajuste final de 0,25 ponto em agosto, para 14,0%, mas, com leitura mais dura do comunicado, considera bastante provável uma pausa já em 14,25% diante da piora recente da inflação.
O Bradesco não definiu trajetória e afirmou que reavaliará suas projeções de juros em seu próximo relatório de cenário.
Para as próximas decisões, parte dos bancos aponta alguns fatores que devem pesar na decisão do Copom, como a evolução das expectativas de inflação, ainda desancoradas; o cenário fiscal, agora citado de forma mais explícita pelo Copom; e o ambiente externo, marcado pela indefinição sobre o conflito no Oriente Médio e pela postura mais dura do Federal Reserve.
O que disseram os economistas
Tiago Berriel – BTG Pactual
“Mantemos nosso cenário-base de que este foi, muito provavelmente, o corte final do ciclo, embora o comunicado não descarte novos ajustes.”
David Beker – Bank of America
“Mantemos nossa projeção de que a Selic deve permanecer estável até meados de 2027.”
Alberto Ramos – Goldman Sachs
“O comunicado e a orientação futura carecem de clareza e objetividade e parecem dovish.” E acrescentou: “Neste estágio, vemos espaço de política muito limitado no curto prazo para o Copom entregar mais cortes.”
Leonardo Porto – Citi
“Interpretamos que o Copom manteve a porta aberta para a próxima reunião, embora tenha elevado a régua para um corte adicional, adicionando risco altista à nossa projeção de Selic de 13,75% para o fim de 2026.”
Caio Megale – XP
“A autoridade monetária não vê muito espaço para cortes adicionais nos juros.” Sobre a trajetória, ponderou que “uma pausa nos atuais 14,25% também parece bastante provável”.
Mario Mesquita – Itaú
“O comunicado deixa o comitê com espaço para dar continuidade ou interromper o ciclo de calibração na próxima reunião.”
Fernando Honorato Barbosa – Bradesco
“O comunicado diz que o cenário para a inflação ficou mais arriscado e incerto. Ainda assim, o grau de restrição da política monetária comportou uma flexibilização nesta reunião. Os próximos passos permanecem em aberto.”
Alexandre de Azara – UBS BB
“Não acreditamos que o ciclo de calibração tenha terminado.” Para o banco, sob diferentes trajetórias de mercado, a leitura “permanece consistente com pelo menos um ou dois cortes adicionais de juros”.
Ariane Benedito – PicPay
“A Selic terminal permanece condicional a dois fatores que o próprio BCB deixou explícitos: reancoragem das expectativas de inflação e maior clareza sobre o cenário externo.”
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