Um estudo divulgado pela Embrapa Pesca e Aquicultura aponta que doenças em peixes podem se espalhar entre viveiros localizados em uma mesma bacia hidrográfica devido à conectividade da água. A pesquisa aplicou, de forma inédita no Brasil, um protocolo baseado em Sistemas de Informações Geográficas (SIG) para mapear riscos sanitários na aquicultura.
O trabalho resultou na criação de um modelo capaz de identificar o grau de risco de contaminação entre propriedades aquícolas, classificando-as em níveis alto, médio e baixo. A metodologia foi desenvolvida a partir de uma cooperação técnico-científica entre a Embrapa e o instituto italiano Istituto Zooprofilattico Sperimentale delle Venezie (IZSVe).
Segundo a pesquisadora da Embrapa, Patricia Oliveira Maciel, a escolha do foco do estudo levou em conta a relevância sanitária do problema. “Escolhemos trabalhar com o acantocéfalo porque tínhamos muitos dados sobre essa doença no tambaqui e também por ser a principal enfermidade que acomete a espécie. Além disso, em 2015, houve um surto em Rondônia e precisávamos obter mais informações sobre sua propagação”, explicou.
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A ferramenta utiliza análise espacial para entender como a água atua como vetor de transmissão de patógenos. A partir da localização das propriedades e da direção do fluxo hídrico — entre áreas a montante e a jusante — o sistema identifica quais viveiros estão mais vulneráveis à disseminação de doenças.
De acordo com o geógrafo Rodrigo Macario, do IZSVe, o diferencial do estudo está na abordagem territorial. “Não se trata simplesmente de produzir mapas ou usar ferramentas digitais, mas de organizar de forma mais estruturada a leitura do território e as relações espaciais que podem influenciar a saúde dos animais aquáticos”, afirmou. “A saúde na aquicultura não depende apenas do que acontece dentro de uma única fazenda, mas também da rede hidrográfica, da proximidade entre produtores e da forma como o espaço é utilizado”, completou.
O estudo também destacou o impacto econômico das enfermidades. Segundo a pesquisadora Marta Ummus, peixes infectados podem apresentar perdas significativas de desempenho. “Estima-se que peixes parasitados deixem de ganhar até 20% do peso esperado em comparação com animais saudáveis, o que representa perda considerável de produtividade e aumento dos custos de produção”, ressaltou. “Para um produtor da Amazônia, que já enfrenta desafios logísticos, cada ponto percentual de perda faz diferença”, acrescentou.
Na prática, o protocolo permite a criação de um sistema de alerta precoce. Uma vez identificado um foco de doença, é possível mapear rapidamente quais propriedades estão em risco, orientando ações de monitoramento e contenção. “Com essa informação, os serviços de defesa sanitária podem direcionar recursos para as áreas mais críticas, otimizando equipes e insumos”, explicou Ummus.
A pesquisa evidenciou ainda desafios estruturais para a implementação desse tipo de ferramenta no Brasil. Entre eles, a dificuldade de acesso a dados sanitários oficiais e a informalidade de parte das pisciculturas, especialmente na região amazônica. “Precisamos de uma política de dados mais transparente”, defendeu Ummus. “Na Itália, há maior controle e organização das informações sanitárias, enquanto no Brasil ainda enfrentamos limitações nesse aspecto”, comparou.
Outro fator de risco identificado é o modelo produtivo adotado em algumas regiões, com tanques escavados diretamente em cursos d’água, o que aumenta a conectividade hídrica entre propriedades. “Isso eleva significativamente o risco de propagação de patógenos”, destacou Maciel.
Apesar dos desafios, os pesquisadores avaliam que o protocolo possui grande potencial de aplicação. Por ser uma metodologia flexível, pode ser adaptado para diferentes espécies e doenças, desde que a transmissão ocorra pela água.
“A aquicultura brasileira tem potencial para crescer de forma sustentável, mas isso depende do fortalecimento dos sistemas de vigilância sanitária. A inteligência geográfica pode ser uma aliada poderosa, desde que haja dados, políticas públicas e coordenação institucional”, concluiu Ummus.
Fonte: Embrapa, com edição Agrimídia




