O Instituto Estadual de Florestas (IEF) tem fortalecido suas ações de proteção à fauna silvestre por meio do incentivo à pesquisa científica e do trabalho desenvolvido nos Centros de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (Cetras). Um exemplo desse esforço é a pesquisa realizada no Cetras de Juiz de Fora, em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que trouxe resultados promissores para a conservação de papagaios do gênero Amazona, um dos grupos de aves mais afetados pelo tráfico de animais silvestres na América do Sul.
Dados da Lista Nacional de Espécies Ameaçadas, coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo ICMBio, apontam que o papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) lidera as estatísticas de apreensões no Brasil. Outras espécies, como o papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis) e o papagaio-charão (Amazona pretrei), também enfrentam sérias ameaças devido à captura ilegal e à perda de habitat.
Buscando aprimorar estratégias de reabilitação e aumentar as chances de sobrevivência dessas aves após a soltura, o IEF apoiou o estudo conduzido pela doutoranda Gabriela de Araújo Porto Ramos, sob orientação da professora Aline Cristina Sant’Anna, da UFJF. A pesquisa avaliou 38 papagaios mantidos sob a tutela do Cetras de Juiz de Fora, incluindo animais resgatados do tráfico ilegal.
Os indivíduos passaram por treinamentos de voo e de aversão à presença humana, além de avaliações comportamentais e exames parasitológicos. Os resultados demonstraram que as técnicas aplicadas foram altamente eficazes. Cerca de 90% das aves apresentaram melhora significativa na capacidade de voo e passaram a rejeitar alimentos oferecidos por pessoas, comportamento considerado essencial para reduzir os riscos de recaptura após o retorno à natureza.
Segundo a diretora de Proteção à Fauna do IEF, Ariane Goulart, o estudo reforça a importância do trabalho desenvolvido pelos Cetras na recuperação dos animais vítimas do tráfico. “Quando são retirados da natureza e submetidos ao tráfico, os animais enfrentam situações de estresse, manipulação constante e exposição a doenças, fatores que comprometem sua saúde e seu comportamento. Trabalhos como este contribuem diretamente para aumentar as chances de sucesso da reintrodução”, destaca.
Saúde animal e saúde pública
Além dos aspectos comportamentais, a pesquisa também revelou a importância do acompanhamento veterinário durante todo o processo de reabilitação. Na avaliação inicial, 47,37% dos papagaios apresentavam parasitas intestinais. Após tratamento realizado pela equipe do Cetras, o índice caiu para 18,42%.
De acordo com Ariane Goulart, a descoberta evidencia também os riscos que o tráfico de animais silvestres representa para a saúde pública. “Por isso é crucial que, ao adquirir um animal de estimação, a população procure apenas criadouros legalizados. A questão do tráfico de animais silvestres também envolve a saúde pública, uma vez que algumas zoonoses podem ser transmitidas aos seres humanos”, alerta.
Alimentar animais silvestres pode colocá-los em risco
Outro resultado importante do estudo foi a constatação de que papagaios mais curiosos e menos arredios tendem a aceitar alimentos oferecidos por humanos com maior facilidade, tornando-se mais vulneráveis à captura. Já os indivíduos mais cautelosos apresentaram melhor desempenho de voo e características associadas a maiores chances de sobrevivência em vida livre.
A pesquisa reforça um alerta frequentemente feito pelo IEF: alimentar animais silvestres em seu habitat natural pode causar impactos negativos à conservação das espécies. “É fundamental que a população compreenda que não deve oferecer alimentos aos animais silvestres, mesmo que sejam itens presentes em sua dieta natural. Esse comportamento pode fazer com que eles se acostumem à presença humana e se tornem mais suscetíveis ao tráfico. Somos corresponsáveis por nossas ações e omissões”, enfatiza a diretora.
Papel estratégico dos Cetras
Para o IEF, iniciativas que unem pesquisa científica, manejo especializado e conservação da fauna são fundamentais para fortalecer as políticas públicas de proteção à biodiversidade e enfrentar uma das principais ameaças à fauna brasileira: o tráfico de animais silvestres.
Nesse contexto, os Centros de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres desempenham papel estratégico em Minas Gerais. As unidades recebem animais resgatados de situações de tráfico, cativeiro irregular, atropelamentos e outros impactos ambientais, promovendo atendimento veterinário, reabilitação e destinação adequada, com foco na reintegração à natureza sempre que possível.




