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Boom de superiates em Miami eleva custos náuticos e deixa cemitério de barcos abandonados

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Bloomberg — Não muito longe dos superiates ancorados diante das mansões insulares da nova classe bilionária de Miami, barcos menores, abandonados por pessoas que não podiam pagá-los, definham na Baía de Biscayne.

Desde outubro, a polícia de Miami Beach identificou e removeu cerca de 140 embarcações deixadas para apodrecer no calor tropical. Outras permanecem semissubmersas ou ancoradas por toda a baía, perto de alguns dos imóveis mais caros dos Estados Unidos.

“Muita gente compra um barco, mas não percebe o quanto custa em combustível, manutenção e taxas de marina”, disse o sargento Javier Fernandez, comandante da unidade marítima da polícia de Miami Beach, enquanto observava as embarcações abandonadas a cerca de 90 metros de Star Island a bordo do barco-patrulha Contender de 9,7 metros.

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De repente, um cabin cruiser afundado, com mais de 9 metros de comprimento, surgiu nas águas cristalinas e rasas à frente, o topo de sua cabine de comando apodrecida projetando-se num ângulo estranho. O barco de Fernandez virou a bombordo para evitar uma colisão perigosa.

“É aqui que eles vão parar”, disse ele.

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O cemitério náutico é um dos lados negativos de uma disparada sem precedentes na indústria náutica desde a pandemia, estimulada em parte pela chegada de super-ricos à região.

Com o avanço da a riqueza em Miami, os barcos ficaram maiores, elevando os custos de espaço em marina e manutenção para todos. Havia cerca de 1,2 milhão de barcos registrados na Flórida em 2024, mais que em qualquer outro estado americano, e uma alta de cerca de 20% desde 2023, segundo a National Marine Manufacturers Association.

As embarcações abandonadas variavam de veleiros, cabin cruisers e barcos pontão a barcos de pesca com console central, bow riders e até um catamarã de 18 metros com equipamento sob medida, segundo registros policiais analisados pela Bloomberg News.

Embarcações abandonadas são um perigo para outros navegantes e um incômodo para os proprietários de imóveis. Ocasionalmente, embarcações abandonadas se soltam de amarras apodrecidas e chocam-se contra os muros de contenção perto das mansões à beira-mar que pontilham as ilhas abastadas ao redor da Baía de Biscayne. O vazamento de combustível pode representar uma ameaça ao meio ambiente.

Iates

Os barcos abandonados são um sinal de que a gentrificação que ocorre em terra se espalhou para as vias navegáveis do sul da Flórida.

À medida que os bilionários compraram propriedades nos enclaves mais exclusivos de Miami, o custo de vida disparou mais de 36% em seis anos, superando a taxa de inflação nacional nesse período, de cerca de 29%, segundo dados do Bureau of Labor Statistics.

Isso expulsou alguns dos menos abastados: mais pessoas estão deixando Miami do que qualquer outra grande cidade dos Estados Unidos, segundo um estudo do Bank of America Institute.

Essas mesmas forças também pressionaram os navegantes — e alguns simplesmente desistem.

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Aumento no número de acidentes

A nova riqueza exibida nos mares da região convive com uma massa fervilhante de navegantes de classe média. No condado de Miami-Dade há 73 mil barcos, incluindo quase 5 mil com mais de 12 metros de comprimento. Isso não inclui superiates registrados em outros lugares que foram avistados navegando pelos canais e baías.

A demanda disparada por espaço em marina deixou os navegantes de lazer menos abastados em busca de ancoradouros e expulsou os negócios que os atendem. A frota crescente também tornou as águas mais perigosas. Houve 6,4 mortes por 100 mil barcos registrados na Flórida em 2024, cerca de 50% acima da taxa nacional, segundo os dados mais recentes da Guarda Costeira dos EUA.

No início deste ano, um homem morreu quando um barco maior passou por cima de seu bote enquanto ele navegava vagarosamente por Key Biscayne com seu filho de 14 anos. Onze pessoas ficaram gravemente feridas em Miami quando barco delas explodiu durante uma comemoração de aniversário. No início de junho, o corpo de uma mulher foi levado pela correnteza até praia em Hollywood Beach depois de ela ter sido atingida por um barco enquanto praticava snorkeling, disse a polícia.

Cerca de 67% das mortes envolveram barcos comandados por capitães sem treinamento formal, e um terço dos acidentes foram colisões com objetos fixos, como marcadores de canal, segundo a Comissão de Conservação de Peixes e Vida Selvagem da Flórida.

“Há mais congestionamento na água”, disse George Reynaud, porta-voz da agência em Miami, “e mais barcos significam mais navegantes inexperientes”.

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Custos de embarcações cada vez mais elevados

Como muitos cantos da economia dos EUA, a náutica passa por uma crise de acessibilidade.

Segundo estimativas da National Marine Manufacturers Association, as vendas de barcos a motor nos EUA caíram cerca de 10% em 2025 e não devem subir muito neste ano. Na Flórida, as vendas caíram ou ficaram estáveis no ano passado para quase todos os tamanhos de barco, segundo a associação.

Uma exceção: iates e superiates, disse Phil Purcell, presidente-executivo da Marine Industries Association of South Florida.

“Você pode olhar para isso da mesma forma que o mercado imobiliário”, disse Purcell. A associação é dona do Fort Lauderdale International Boat Show, uma meca para compradores de iates. O evento de cinco dias no fim do outono gerou US$ 800 milhões em vendas no ano passado.

“A náutica é uma grande parte da cultura, todo mundo se dá conta de que é uma ótima parte da vida na Flórida”, disse Purcell.

Iates

Comprar uma embarcação e mantê-la em condições de navegar é caro. Barcos com menos de 8 metros de comprimento — a classe mais popular de barcos vendida no sul da Flórida — foram vendidos por uma média de US$ 60 mil no ano passado, enquanto barcos de 8 a 10,7 metros tiveram média de US$ 170 mil, segundo o Boats Group, dono de várias plataformas de vendas online.

Isso é só o começo: reparos anuais, atracação, combustível e seguro podem chegar a cerca de 10% do valor de um barco. As vagas no sul da Flórida costumam custar entre US$ 25 e US$ 55 por pé por mês, mas podem disparar para US$ 100.

Motores novos podem chegar a US$ 30 mil ou mais. Com os mecânicos navais de Miami em alta demanda, algo tão simples quanto uma revisão pode custar centenas de dólares.

Em parte por causa dos custos crescentes, a Flórida tem enfrentado um problema de barcos abandonados. O estado gastou cerca de US$ 13 milhões para remover embarcações abandonadas em 2024, e a Assembleia Legislativa da Flórida no ano passado facilitou a remoção de embarcações pela polícia e endureceu as penalidades para quem abandona um barco.

Mudança nas marinas

As marinas ganham mais dinheiro com barcos grandes, e muitas estão sendo reformadas para receber embarcações maiores.

Cerca de uma hora ao norte de Miami Beach, o bilionário Joe Lewis, que vive e trabalha parte do ano em seu iate de 98 metros Aviva, comprou o Pier Sixty-Six, um posto de abastecimento, marina e hotel de seis décadas na hidrovia Intracoastal.

A firma de Lewis, a Tavistock, gastou US$ 1 bilhão transformando a propriedade num resort com um hotel cinco estrelas, uma torre de condomínios com coberturas de US$ 14,5 milhões e uma marina especializada em barcos de grande porte. A Tavistock está gastando centenas de milhões a mais para expandir o complexo da marina.

A US$ 8 a US$ 10 por pé por dia, a marina do Pier Sixty-Six atende iates, disse Megan Lagasse, a diretora da marina. De frente para a marina estão as sedes americanas de construtores de superiates, incluindo a italiana Sanlorenzo e a alemã Lürssen. Em suntuosos showrooms, os clientes podem encomendar barcos sob medida de mais de 60 metros que custam cerca de US$ 1 milhão por pé.

Em Miami Beach, está planejada uma reforma da marina pública municipal, construída nos anos 1980. Sua operadora, a Suntex Marinas, quer abrir espaço para barcos maiores, que estão mais em demanda, e adicionar longos trechos de atracação para superiates.

“Há uma quantidade desproporcional de pessoas que podem pagar por barcos maiores no sudeste da Flórida”, disse Rich Carter, diretor de operações da Suntex, que administra dezenas de marinas nos EUA.

Alguns dos ricos também estão construindo suas próprias vagas. Num trecho vazio de cais perto de Government Cut, o canal artificial de 16 metros de profundidade que leva ao porto e aos terminais de navios de cruzeiro de Miami, o investidor Ken Griffin está construindo uma marina privada para estacionar seus iates.

A guinada em direção aos superiates abalou os negócios de fretamento que levam turistas para pescar ou para passeios ao pôr do sol.

A marina de Miami Beach despejou mais de 30 operadores de fretamento depois que moradores de condomínios de luxo próximos reclamaram do barulho. Os capitães que sobreviveram ao expurgo enfrentaram restrições em seus horários.

“Isto é uma guerra contra os trabalhadores por gente rica que comprou um apartamento com vista para a marina, mas que agora reclama da marina”, disse Jessica Londono, coproprietária de um operador de fretamento que trabalha a partir da marina há 20 anos. “Eles estão tentando nos tirar do negócio, e nós chegamos primeiro.”

Iates

A marina prosperou como base de fretamentos por décadas, alimentada por hóspedes de hotéis que pagavam ao menos US$ 2.000 por meio dia na água com um capitão e uma tripulação. Mas, durante a pandemia, o número de fretamentos na marina disparou, e o mesmo aconteceu com as reclamações sobre passageiros indisciplinados e embriagados, disse Keith Marks, presidente da associação de moradores da região.

Marks disse que não tem nada contra os negócios de fretamento que operam de forma adequada, mas que alguns clientes ficavam “brigando, bêbados, barulhentos, gritando, depois da meia-noite, acordando as pessoas nos prédios de condomínio, acordando todo mundo”.

O prefeito de Miami Beach, Steven Meiner, disse que sua prioridade máxima é “manter as pessoas seguras e garantir que a qualidade de vida de nossos moradores e turistas seja mantida no mais alto nível”.

Londono, de pé nos cais depois de despachar dois de seus iates fretados com grupos de turistas, disse que a guinada da marina para longe dos fretamentos e das embarcações menores está transformando a náutica — por muito tempo uma atividade igualitária em Miami — no domínio dos ricos.

“Os ricos”, disse ela, “estão realmente nos sufocando.”

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