Blindada contra execuções desde a semana passada, a Ruiz Coffees negocia uma saída para não perder suas fazendas com parte dos credores do mercado de capitais que detêm alienação fiduciária sobre as terras, apurou The AgriBiz.
As conversas estão evoluindo e interessam a ambas as partes, segundo uma fonte a par das negociações.
Do lado de João Ruiz Lourenço Filho, empresário à frente do segundo maior grupo produtor de café do País, um acordo é fundamental porque, em uma eventual recuperação judicial, os credores que possuem alienação fiduciária não estariam sujeitos ao processo e poderiam tomar as fazendas.
Os credores também podem sair com uma vantagem da transação, reduzindo a insegurança jurídica. Na Justiça, a execução da alienação fiduciária costuma se arrastar por anos, o que afeta a eficácia econômica do mecanismo.
As negociações envolvem a transferência das terras dadas em garantia para um fundo detido pelos credores, que teria a titularidade das propriedades. Em contrapartida, os ativos seriam arrendados para a Ruiz Coffees, que seguiria operando as fazendas e ficaria com uma opção de recompra no longo prazo.
Com isso, o grupo cafeeiro ganharia tempo para preservar ao menos parte do patrimônio de terras que construiu, mas o sucesso da estratégia vai depender de medidas duras para controlar o endividamento excessivo, o que inclui a venda de outras fazendas, disse a fonte.
No mercado, há quem prefira ver para crer. “O que incomoda no longo prazo? Tomar dívida cara para comprar fazenda: CDI+5% ao ano. A conta não fecha”, afirmou outra fonte que já fez negócios com o grupo.
Para um gestor, é espantoso que um produtor de café quebre depois de anos de margens extraordinárias, que chegaram a 70%. “Tem que ser muito ruim para quebrar com o café do jeito que está”, criticou.
A alavancagem foi de tal ordem que o grupo até devolveu fazendas que tentou adquirir por não ter condições de pagar, incorrendo em multas.
Apesar do ceticismo, a abertura da Ruiz Coffees ao diálogo com os credores do mercado de capitais é bem-vista, especialmente quando se compara com o comportamento clássico de produtores rurais que entram em recuperação judicial, tentando submeter a alienação fiduciária como se fosse um crédito concursal.
A interlocutores, representantes da Ruiz Coffees argumentam que a blindagem contra a execução judicial foi inevitável diante da enxurrada de processos de fornecedores que tentavam receber dívidas atrasadas na Justiça.
Sem isso, o grupo poderia ficar asfixiado justamente quando a colheita de café está em curso. Um risco de ficar sem a proteção judicial era perder boa parte do café colhido nessas execuções.
Com a cautelar judicial, a Ruiz Coffees preservar o caixa que lhe resta (cerca de R$ 60 milhões, segundo duas fontes) enquanto negocia um plano para honrar os passivos, o que ainda pode envolver uma recuperação judicial. No mercado, estima-se que a Ruiz Coffees deva mais de R$ 1 bilhão. O grupo cafeeiro opera em mais de 9 mil hectares. (Colaborou Karina Souza)




