Bloomberg — Em setembro do ano passado, o investidor imobiliário britânico Martin Bellamy apresentou uma proposta ambiciosa. Ele pretendia desenvolver um data center de £ 15 bilhões (US$ 20 bilhões) na Escócia que seria uma das maiores instalações de computação da Europa dedicadas à inteligência artificial.
O empreendimento também pertenceria ao Reino Unido, segundo Bellamy, oferecendo a chamada “IA soberana” que governos ao redor do mundo buscam desenvolver.
O local onde o projeto seria construído, no entanto, continua sendo apenas um terreno tomado pelo mato na costa industrial oeste da Escócia, o mais recente sinal de como até uma das economias mais ricas do mundo enfrenta dificuldades para alcançar a independência tecnológica defendida por seus políticos.
A proposta da empresa de Bellamy, a AI Pathfinder, fazia parte de uma onda de projetos apresentados em 2025 para ampliar a capacidade computacional do Reino Unido. A startup descrevia a capacidade de criar, controlar e fornecer tecnologia localmente como algo “não apenas estratégico, mas essencial” para o país.
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O governo britânico elogiou o projeto, enquanto autoridades escocesas destacaram as “centenas de empregos qualificados” que ele poderia gerar, juntando-se ao coro crescente de políticos que tratam os data centers como motores de crescimento econômico.
Em todo o continente, autoridades passaram a enquadrar cada vez mais a inteligência artificial como uma questão de segurança nacional, alertando para os riscos de depender do Vale do Silício e da Ásia para obter tecnologia.
Nos últimos meses, porém, o Reino Unido perdeu um importante projeto de campus de data centers da OpenAI e viu diversas startups locais de computação transferirem recursos para o exterior. Ao mesmo tempo, o possível impacto sobre a infraestrutura energética levou o governo escocês, em Edimburgo, a considerar suspender temporariamente todas as novas solicitações para esse tipo de empreendimento.
O plano de Bellamy agora parece mais um alerta sobre a corrida pela “IA soberana”.
Sua empresa desmoronou, envolvida em disputas judiciais acirradas, e perdeu boa parte de sua equipe. Trata-se de uma história empresarial incomum, mas que reflete o entusiasmo em torno de tantos megaprojetos de IA anunciados recentemente.
“Há muito marketing e pouca substância”, afirmou Mark Boost, diretor-presidente da Civo, empresa britânica de serviços de nuvem e inteligência artificial que atende clientes como a Universidade de Oxford. Segundo ele, construir grandes centros de dados “é difícil em toda a Europa”.
A promessa da AI Pathfinder de construir até 1,5 gigawatt de capacidade para IA — consumindo energia suficiente para abastecer a cidade de Glasgow, localizada a cerca de 50 quilômetros dali — refletia a corrida do ouro em torno dos data centers.
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A empresa irmã da AI Pathfinder, a Pathfinder 1, ainda pretende transformar o projeto em realidade, afirmou Bellamy em resposta a perguntas da Bloomberg. “A Pathfinder 1 tem a clara intenção de desenvolver o terreno de Irvine”, disse em comunicado. “Como se trata de uma Enterprise Zone, a área é adequada ao uso pretendido como centro de dados para IA, e a Pathfinder 1 espera iniciar em breve o processo de licenciamento.”
Atualmente, o terreno de cerca de 79 hectares está cercado por grades metálicas e exibe uma placa de “vende-se”. Moradores da região afirmam não ver qualquer sinal de obras, nem do investimento ou dos empregos prometidos. “Não ouvi falar de nada”, disse Kat Jones, ativista escocesa que acompanha projetos de data centers por seus impactos ambientais. “Está completamente fora do meu radar.”
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Segundo Mark Sugden, porta-voz do Conselho de North Ayrshire, município proprietário do terreno, a AI Pathfinder não pagou o investimento inicial de £ 385 milhões que havia prometido para o projeto. Sugden recusou-se a comentar o estágio atual da iniciativa e também não disponibilizou Tony Gurney, líder do conselho municipal, para entrevista.
A demanda incessante por capacidade computacional criou uma indústria em rápida expansão, transformando antigos mineradores de criptomoedas e empreendedores com pouca experiência em tecnologia em bilionários da IA. Ao redor do mundo, governos disputam esses projetos como motores de crescimento econômico, oferecendo incentivos e benefícios para atrair investimentos.
Mas muitos desses empreendimentos esbarraram em dificuldades relacionadas ao financiamento ou ao licenciamento. A QTS, da Blackstone, desistiu recentemente de um campus de data centers de 2.100 acres na Virgínia. Já uma importante iniciativa de infraestrutura para IA da União Europeia enfrenta atrasos.
A consultoria DC Byte monitorava cerca de 8.400 projetos de data centers no mundo até o segundo trimestre deste ano. Aproximadamente 40% deles ainda não estavam em operação e mais de um sexto sequer havia iniciado obras ou garantido sua execução.
O Reino Unido enfrenta dificuldades particulares devido ao alto custo da eletricidade, um dos maiores da Europa. A OpenAI anunciou neste ano que interromperia o projeto Stargate UK, um campus de data centers previsto para uma zona econômica especial, citando questões regulatórias e os elevados custos de energia.
Nesse contexto, a Escócia passou a promover sua abundante geração de energia eólica e suas áreas pouco povoadas como atrativos naturais para receber centros de dados. Em março, o governo escocês publicou um plano de cinco anos para “explorar o potencial da IA” e convidou empresas a desenvolver projetos em áreas financiadas com recursos públicos.
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Entre elas estavam empresas ligadas a Bellamy, investidor mais conhecido por atuar no setor de marinas para iates do que por projetos de inteligência artificial. Ainda assim, sua trajetória demonstra habilidade para identificar oportunidades ligadas ao investimento público.
Iates e vacinas
Há mais de duas décadas, Bellamy administra o Salamanca Group, empresa de investimentos que financiou projetos de habitação, shopping centers e portos. A companhia passou quatro anos modernizando a marina OneOcean, em Barcelona, transformando-a no que define como “um dos maiores destinos para superiates do Mediterrâneo”. Durante a pandemia de Covid-19, Bellamy constituiu a empresa National Vaccine Production Facility Ltd., que foi dissolvida em janeiro de 2022.
Desde 2017, o Salamanca Group administra uma área industrial desativada em Somerset, no sul da Inglaterra, localizada em uma Enterprise Zone do governo. O local, chamado Gravity Smart Campus, abriga uma grande fábrica de baterias da Jaguar pertencente ao Tata Group. Em abril, o governo britânico destinou £ 380 milhões para apoiar a construção da unidade. (Bellamy afirmou em comunicado que o Salamanca Group e o Gravity Smart Campus não têm relação com a AI Pathfinder.)
Bellamy também figura como diretor da Wildfox Resorts, empresa que desenvolve um complexo turístico no País de Gales dentro de um programa governamental de investimentos.
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Inicialmente apresentado como um projeto de £ 300 milhões com inauguração prevista para 2027, o resort enfrentou “atrasos significativos” devido às condições de mercado e atualmente possui um orçamento de £ 200 milhões, segundo Tom Edington, diretor-presidente da empresa.
Quando o governo voltou sua atenção para os data centers, Bellamy entrou nesse mercado. Em 2024, o Salamanca Group afirmou ter desempenhado “papel fundamental” na obtenção de um projeto de centro de dados de £ 10 bilhões previsto para o norte da Inglaterra.
Bellamy fundou a AI Pathfinder em maio de 2025, contratando uma pequena equipe que incluía ex-executivos da Google e da Dell Technologies. Quatro meses depois, a empresa se apresentou ao mercado com planos ambiciosos: uma instalação de £ 3,4 bilhões em Northamptonshire, ao norte de Londres, e o projeto ainda maior na Escócia.
Num primeiro momento, a empresa parecia avançar rapidamente. Em novembro, iniciou uma rodada de captação de £ 100 milhões que avaliaria a companhia em £ 500 milhões.
Bellamy também nomeou quatro diretores, entre eles Dominic Johnson, gestor de hedge funds que foi vice-presidente do Partido Conservador e atualmente integra a Câmara dos Lordes. O governo britânico voltou a promover o empresário, afirmando que sua startup estava “acelerando a IA soberana do Reino Unido”, com planos de investir £ 18 bilhões nos cinco anos seguintes.
Disputa judicial
Depois disso, a situação começou a se complicar. Bellamy administrava a holding da AI Pathfinder ao lado de Patrick Hughes, parceiro frequente em seus negócios.
Segundo documentos judiciais apresentados em Londres, os dois divergiram sobre quem arcaria com os £ 25 milhões iniciais de financiamento, e Hughes afirmou ter sido surpreendido pelas nomeações para o conselho e pelas iniciativas de captação conduzidas por Bellamy. No início do ano, o prometido centro de dados na Inglaterra ainda não havia iniciado as obras.
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Em janeiro, diversos executivos da AI Pathfinder, incluindo os ex-funcionários da Google e da Dell, fundaram uma nova empresa chamada Sovereign AI, com um plano de negócios semelhante. Vários integrantes da equipe de Bellamy também migraram para a nova companhia.
Em uma ação judicial, os advogados de Hughes acusaram Bellamy de organizar secretamente a venda dos ativos da startup para a Sovereign AI. Já os advogados de Bellamy acusaram Hughes de inviabilizar os planos de financiamento da AI Pathfinder, reduzindo o valor da empresa “praticamente a zero”. Os representantes legais de Bellamy e Hughes se recusaram a comentar, assim como o próprio Bellamy.
Parham Kouchikali, sócio da Winston Taylor e advogado de Johnson e de outros três réus no processo movido por Hughes, afirmou que seus clientes “estão confiantes em sua defesa”. Ele não quis comentar além disso.
Um porta-voz da Sovereign AI afirmou que a empresa “não possui qualquer vínculo com a AI Pathfinder”. Pessoas familiarizadas com suas operações disseram que a companhia trabalha no projeto de Northamptonshire, mas não no empreendimento da Escócia. O porta-voz também se recusou a comentar os planos da empresa.
Enquanto isso, novas propostas continuam chegando à Escócia, à medida que as autoridades tentam entender quais projetos estão sendo planejados e onde serão instalados. Um porta-voz do Partido Nacional Escocês (SNP), que lidera o governo semiautônomo do país, afirmou que o impacto ambiental passou a receber maior atenção diante da rápida expansão do setor.
“O governo escocês analisa atualmente quais medidas podem ser adotadas para equilibrar a rápida expansão desses centros com nossas metas nacionais de energia e clima — incluindo uma possível suspensão temporária de novas solicitações”, afirmou o porta-voz do SNP em comunicado. Tanto o partido quanto o governo se recusaram a comentar projetos específicos.
A empresa de energia limpa ILI Group apresentou no início de junho um projeto para um centro de dados de 600 megawatts ao norte de Edimburgo, como parte de um empreendimento de computação de £ 15 bilhões.
O diretor-presidente, Mark Wilson, afirmou que a empresa negocia com “diversos” potenciais clientes e espera iniciar as obras no próximo ano.
Outra companhia do setor, a Eneus Energy, propôs construir um centro de dados cerca de 32 quilômetros ao norte da cidade de Irvine, onde Bellamy pretende instalar seu projeto.
Jones, ativista que dirige a organização sem fins lucrativos Action to Protect Rural Scotland, defendeu uma moratória para novos data centers até que políticas ambientais específicas sejam implementadas.
“Há gente demais entrando nessa corrida”, disse. “E parece haver muito pouca fiscalização.”
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