O historiador Niall Ferguson vê Estados Unidos e China já mergulhados em uma segunda Guerra Fria — uma disputa que tem Taiwan como principal ponto de tensão e que obriga países como o Brasil a buscar um equilíbrio cada vez mais difícil entre as duas potências.
Em entrevista ao NeoFeed, realizada na Expert XP, Ferguson afirmou que o País está “condenado a ficar no meio” desse conflito, embora sua distância geográfica das principais zonas de instabilidade reduza os riscos.
Ferguson também analisou a eleição presidencial brasileira, a dependência econômica da China e o lugar do País na revolução da inteligência artificial.
Para ele, o Brasil desperdiça vantagens como a energia barata e as reservas de minerais críticos, enquanto mantém barreiras que dificultam a instalação de data centers.
Na disputa tecnológica global, o historiador considera inviável a construção de uma estrutura totalmente nacional e defende uma aproximação com o ecossistema americano de IA. Confira :
O senhor afirma que Estados Unidos e China já estão envolvidos em uma segunda Guerra Fria. O que poderia transformar essa disputa em um conflito aberto? E quão próximos estamos desse ponto?
George Orwell cunhou a expressão “Guerra Fria” em 1945 e a definiu como uma paz que não é paz. A observação dele era que potências nucleares não podem travar guerras da maneira tradicional porque os riscos são altos demais. O resultado é essa paz que não é paz. Acho que é mais ou menos nesse ponto que China e Estados Unidos estão.
Eles poderiam acabar em uma guerra aberta? Talvez o lugar mais óbvio para o início desse conflito seja Taiwan. A China diz que Taiwan pertence à China. Os Estados Unidos afirmam que reservam o direito de impedir que a China assuma o controle da ilha. Portanto, esse é o ponto de tensão mais evidente.
Na primeira Guerra Fria, o ponto crítico foi Cuba, uma ilha próxima dos Estados Unidos. Os soviéticos tentaram instalar mísseis ali, provocando a pior crise daquele período. Na segunda Guerra Fria, a pior crise pode acontecer em Taiwan. Esse é, na minha opinião, o maior risco para os próximos anos.
“Na primeira Guerra Fria, o ponto crítico foi Cuba, uma ilha próxima dos Estados Unidos. Na segunda Guerra Fria, a pior crise pode acontecer em Taiwan”
Países como o Brasil procuram manter relações próximas tanto com os Estados Unidos quanto com a China. Em uma segunda Guerra Fria, essa posição continuará possível ou o País será pressionado a escolher um lado?
É muito difícil permanecer não alinhado durante uma Guerra Fria. Muitos países tentaram fazer isso na primeira, como a Índia. E a Índia continua não alinhada nesta segunda Guerra Fria. Não é possível dizer que seja uma aliada dos Estados Unidos, porque isso simplesmente não é verdade. Acho que o Brasil está hoje em uma posição relativamente semelhante.
O Brasil tem laços econômicos tão estreitos com a China que faz sentido manter boas relações. Por outro lado, está no Hemisfério Ocidental, que o governo Trump considera o quintal dos Estados Unidos. A tensão entre os presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva nasce, na minha avaliação, dessa diferença: o Brasil está economicamente orientado para a China, mas politicamente está no Hemisfério Ocidental.
É impossível manter essa posição? Não acho que seja impossível, mas é caro. O Brasil está sujeito a tarifas americanas significativas. Seria bom se os Estados Unidos adotassem o livre comércio nas Américas, mas isso parece muito improvável. Ao mesmo tempo, não vejo como o Brasil poderia simplesmente abandonar sua relação com a China. Ela é importante demais. Portanto, o Brasil está condenado a ficar no meio e a permanecer não alinhado.
A boa notícia é que o Brasil está longe das zonas de conflito. Está distante do Leste Europeu, do Golfo Pérsico e muito longe de Taiwan. Embora seja uma situação politicamente difícil, os riscos para o Brasil são muito menores do que para países como os Emirados Árabes Unidos. Neste momento, eu preferiria estar em São Paulo a estar em Dubai.
O Brasil terá uma eleição presidencial neste ano. A permanência de Lula no poder ou a eleição de outro presidente poderia mudar essa relação?
Não sou especialista em política brasileira, então preciso ser muito cuidadoso com o que digo. Minha impressão, baseada principalmente em conversas com amigos brasileiros, é que Lula tem uma boa chance de ser reeleito porque a direita brasileira está dividida e Flávio Bolsonaro não é um candidato muito popular. Se a direita apresentasse outro nome, o resultado poderia ser diferente.
Mas, se as coisas continuarem como estão e Flávio Bolsonaro for o candidato da direita, acredito que Lula será reeleito. Seria melhor ter um conservador como presidente do Brasil? Na minha opinião, sim. Em outros países da América Latina, a tendência é de uma passagem da esquerda para a direita. Isso é mais evidente na Argentina, mas também vemos esse movimento na Colômbia e em outros lugares.
O Brasil parece uma exceção à regra. Mas, quando observamos o Congresso, percebemos que ele se deslocou para a direita. Lula é uma espécie de exceção que coloca essa regra à prova, em parte porque é um político muito bem-sucedido e eficaz. Mas acho que o principal motivo é que a direita brasileira não consegue se organizar.
Seria como se, nos Estados Unidos, o presidente Trump dissesse que seu filho, Donald Trump Jr., será o candidato republicano em 2028. Ele poderia fazer isso, mas seria um desastre para os republicanos, que quase certamente perderiam.
A China é o maior parceiro comercial do Brasil, enquanto o Estado continua ocupando um papel central nos investimentos e na tecnologia. Qual é o principal risco estratégico dessa dependência?
Vou dar um exemplo do que o Brasil poderia fazer de maneira diferente agora. O País tem energia elétrica excepcionalmente barata. Mas onde os data centers estão sendo construídos? Não no Brasil. Isso acontece, em parte, porque quem tenta importar semicondutores paga uma tarifa de 100%.
O Brasil precisa ser mais criativo na maneira como participa da revolução da inteligência artificial. Essa revolução não vai parar e está transformando a economia global. O Brasil não tem uma estratégia para a IA, mas poderia ser um protagonista da expansão dos data centers. Está cada vez mais difícil encontrar lugares para construí-los nos Estados Unidos. O Brasil tem energia barata e, ao que me parece, diversas outras vantagens. Por que não está aproveitando isso?
Se o Brasil se tornasse uma grande fonte de capacidade computacional, sua relação com os Estados Unidos mudaria. Os americanos passariam a dar mais importância ao País caso ele colocasse algo assim sobre a mesa.
Outra área evidente são os minerais críticos e as terras raras, hoje monopolizados pelos chineses. O Brasil possui reservas abundantes e poderia se tornar mais valioso para os Estados Unidos ao desenvolver esses recursos. Isso também mudaria a relação entre os dois países.
“O Brasil não tem uma estratégia para a IA, mas poderia ser um protagonista da expansão dos data centers”
Durante muitos anos, o Brasil foi um mundo à parte: protecionista, voltado para dentro e fechado em si mesmo. Não acredito que essa política ainda seja viável. O Brasil precisa se abrir, participar mais do mundo e explorar suas vantagens.
A liderança em inteligência artificial determinará qual será a próxima potência global dominante?
A inteligência artificial está transformando as economias americana e chinesa. Todos os outros países estão apenas tentando escolher entre os modelos dos Estados Unidos e os modelos da China, porque praticamente não existem outros participantes nessa corrida, com a possível exceção de uma ou duas empresas europeias.
O Brasil precisa se perguntar qual papel pretende desempenhar nesse mundo. Vai apenas ficar parado, assistindo? Acho que isso seria arriscado. Setor após setor será transformado por essa nova tecnologia. O mercado financeiro será transformado. Estamos em uma conferência do setor financeiro e, daqui a dez anos, uma parcela enorme do que fazemos hoje com seres humanos será realizada pela inteligência artificial.
As pessoas precisam entender que essa é uma revolução global, mas produzida nos Estados Unidos e na China. Isso criará outro dilema para o Brasil: adotar a estrutura tecnológica americana ou a chinesa?
Minha recomendação é seguir a estrutura americana, porque o caminho chinês vem acompanhado de condições. Os modelos chineses são leais a Xi Jinping e ao Partido Comunista Chinês. O Brasil é uma democracia, comprometida fundamentalmente com a liberdade individual e o Estado de Direito, assim como os Estados Unidos. Portanto, o movimento natural seria se aproximar dos americanos, e não da China, especialmente quando se trata de uma tecnologia tão importante quanto a inteligência artificial.
O Brasil poderia construir um caminho próprio, sem depender dos Estados Unidos ou da China?
A expressão que as pessoas gostam de usar é “soberania digital”. Ouço muito isso na Europa. O problema é que não considero plausível que o Brasil — ou mesmo a Alemanha — consiga desenvolver sozinho sua inteligência artificial, sua computação em nuvem, seus semicondutores e suas fábricas de chips.
Trata-se de uma estrutura tecnológica completa, formada por uma série de componentes necessários para operar grandes modelos de linguagem. É preciso uma quantidade gigantesca de capacidade computacional para treiná-los e uma quantidade ainda maior para executar as inferências.
Acho que é tarde demais para o Brasil dizer que terá sua própria empresa de IA ou seu próprio modelo de linguagem, uma Anthropic ou uma OpenAI brasileira. Esse navio já partiu, assim como partiu para o Reino Unido, a Alemanha e os demais países europeus.
A questão agora é qual relação o Brasil deseja estabelecer em um mundo dominado por modelos de linguagem americanos e chineses. Os modelos americanos provavelmente são superiores, mas também mais caros. Os chineses são muito acessíveis, mas, ao adotá-los, o País passa a fazer parte do império de inteligência artificial da China. E essa é uma escolha perigosa.




