Bloomberg — A Fifa seguirá adiante com os planos de privatizar suas atividades comerciais, apesar das ameaças crescentes por parte de organizações regionais de futebol da Europa, Ásia e América do Norte de que poderiam boicotar a Copa do Mundo.
Na madrugada desta sexta-feira, a entidade esportiva divulgou um comunicado afirmando que não estava “vendendo o futebol”.
Em vez disso, enfatizou que as federações membros detêm a autoridade final para votar a proposta, que envolve a venda de uma participação em uma nova entidade comercial a investidores externos para levantar até US$ 4,2 bilhões, com base em uma avaliação de US$ 20 bilhões.
A resposta da federação mundial de futebol surge depois que a UEFA, a organização europeia de futebol, declarou que seus membros boicotariam os torneios da Fifa caso os planos de cisão fossem adiante.
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O impasse entre os dois órgãos mais poderosos do futebol corre o risco de levar o esporte ao caos e deve colocar à prova o domínio de uma década do presidente da Fifa, Gianni Infantino, sobre o esporte.
A CONCACAF, que lidera as federações da América do Norte, América Central e Caribe, também afirmou que seus membros rejeitariam a proposta de Infantino e expressou preocupações com a falta de devido processo legal em torno dela.
A Confederação Asiática de Futebol emitiu uma declaração contundente acusando a Fifa de prejudicar o futebol e afirmou que “se solidariza com a UEFA e a CONCACAF”.
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As três organizações somam 112 federações-membro. O plano deve ser submetido à votação das 211 federações-membro da FIFA em data a ser definida antes de 19 de setembro, sendo que a Fifa busca a maioria dos votos para seguir adiante. Aquelas que não concordarem com o acordo correm o risco de perder milhões em financiamento.
“Fico constantemente surpreso com o que ele tem conseguido fazer impunemente”, disse Mark Pieth, advogado que presidiu o Comitê Independente de Governança da Fifa de 2011 a 2013, referindo-se a Infantino.
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Os planos surpreendentes da Fifa levaram tensões que vinham fervilhando há muito tempo a um ponto de ebulição e intensificaram as críticas à liderança de Infantino, que começaram desde que ele assumiu o comando da Fifa há uma década. As condenações se intensificaram durante a recente Copa do Mundo devido a múltiplas controvérsias.
O envolvimento do investidor de capital de risco Joshua Kushner — que tem laços familiares com o presidente dos EUA, Donald Trump — em negociações secretas no ano passado com a Fifa sobre o plano chegou a chamar a atenção de legisladores norte-americanos.
“Existe um valor comercial real em nosso esporte que ainda não estamos aproveitando”, afirmou Infantino em uma mensagem em vídeo às federações membros. “Para explorá-lo, é necessária uma estrutura empresarial focada e dedicada.”
A proposta de Infantino inclui a criação de uma nova divisão chamada Fifa Forward Enterprise (FFE), que administraria seus direitos de mídia e comerciais e venderia participações acionárias nessa empresa — uma mudança radical para a organização sem fins lucrativos de 122 anos. A FFE administraria praticamente todas as suas atividades lucrativas, embora não tivesse voz ativa no formato ou na frequência da Copa do Mundo, nem em qualquer outra “questão esportiva ou regulatória”.
“É de se esperar que agora eles queiram lucrar com isso”, afirmou Joseph Weiler, professor de Direito da Universidade de Nova York, que atuou no comitê de governança da Fifa antes de renunciar em protesto em 2017. “Não há controle externo sobre a Fifa. É uma corporação que estabelece suas próprias regras.”
A Fifa afirmou que manteria a participação acionária restante na FFE e o controle exclusivo sobre seu conselho.
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A nova empresa contaria com uma equipe de gestão ainda a ser nomeada, com a missão de aumentar a receita proveniente da Copa do Mundo e de outros eventos da Fifa. Os lucros seriam então distribuídos entre as federações-membro. Investidores externos não participariam desses pagamentos e só obteriam retorno ao venderem suas participações.
Infantino promete que cada federação receberá um financiamento adicional de US$ 12 milhões para o ciclo de quatro anos que termina este ano, elevando o pagamento total para US$ 20 milhões. Os membros também poderão solicitar um financiamento adicional de US$ 20 milhões para projetos de longo prazo, como estádios e centros de treinamento.
Nos últimos anos, o modelo por trás da proposta da Fifa — separar as operações comerciais e vender participações na nova empresa — tornou-se uma forma popular de levantar recursos. A principal liga de futebol da Espanha utilizou esse modelo para obter uma injeção de 3,2 bilhões de dólares da CVC Capital Partners; a seleção de rúgbi All Blacks, da Nova Zelândia, levantou 133 milhões de dólares da Silver Lake; e, nos Estados Unidos, o departamento de esportes da Universidade de Utah e o PGA Tour firmaram acordos semelhantes com grupos de private equity.
Esses acordos, no entanto, foram frequentemente motivados por situações de crise ou perturbações — como a pandemia. A Fifa, por outro lado, vem de uma Copa do Mundo extremamente bem-sucedida — a receita do ciclo de quatro anos que termina este ano deve ultrapassar US$ 15 bilhões, mais do que o dobro do ciclo anterior, que terminou após a Copa do Mundo de 2022 no Catar.
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Em seu comunicado anunciando que se opunha à proposta, a CONCACAF afirmou que seus membros questionavam a necessidade de investimento privado “após a Copa do Mundo da Fifa mais lucrativa da história”.
Infantino também concorrerá sem oposição à reeleição em março, e mais de 200 federações-membro já prometeram seu apoio a essa candidatura, segundo ele afirmou.
De acordo com a Fifa, a proposta da FFE apresentada por Infantino “não estabelece uma função futura nem um pacote de remuneração para nenhum indivíduo específico, mas deixou a porta aberta para que ele assuma um novo cargo ou receba remuneração adicional. Atualmente, ele ganha cerca de US$ 6 milhões por ano em salário e bônus.
O jornal The Times de Londres informou que Infantino busca um pacote salarial comparável ao do comissário da NFL, Roger Goodell, que ganhava cerca de US$ 64 milhões por ano em 2021.
Mesmo que os contingentes europeu e norte-americano consigam bloquear o plano, os incentivos falhos da FIFA permanecerão inalterados, afirmou Miguel Maduro, ex-presidente do comitê de governança do órgão que foi destituído de seu cargo por Infantino.
“Pode até ser possível substituir o Sr. Infantino, mas, se não houver uma reforma genuína, continuaremos a ter escândalos como este”, disse ele.
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