Em um momento em que o aquecimento global atinge níveis inéditos e as mudanças climáticas se impõem em desastres ambientais de escala cada vez maior, Groundswell (Renascer da Terra, 2026) é um bem-vindo compilado sobre agricultura regenerativa. E, ainda que drible certos dilemas, cumpre com mérito o papel de alertar e emocionar.
Terceiro episódio em uma trilogia que inclui Kiss the Ground (2020) e Common Ground (2023) e eleito melhor documentário no festival de Cannes de 2026, o filme, disponível no Prime Vídeo, é uma espécie de evangelho das novas formas de produzir.
A produção é esmerada, mérito do casal de diretores Josh e Rebecca Tickell. E se ampara em um tom entre o heroico e o dramático — no que ajudam as inspiradas narrações de Woody Harrelson e Demi Moore.
Os atores conduzem o espectador ao redor do mundo. Ouve-se fazendeiros, povos originários, cientistas e políticos, entre outros. Eles mostram como seus ecossistemas foram impactados por secas, enchentes e outros distúrbios climáticos que creditam à “agricultura industrial”, e destrincham as inovações que adotaram para regenerá-los.
Na Austrália, Groundswell retrata Gabe Brown, um fazendeiro que passou a combater o uso de químicos após adquirir esclerose lateral amiotrófica graças a décadas de contato com os produtos. Sua história introduz casos de restauração da hidratação do solo.

No Quênia e em Uganda, são destacados processos de regeneração baseados na biocircularidade — com um papel relevante das manadas locais de elefantes.
Na Índia, integrações entre lavouras fazem contrapontos à monocultura e mostram que é possível restituir a saúde da terra. E, na Colômbia, outra união combate o desmatamento associado ao café e faz crescer a colheita entre produtores da Nespresso: um deles relata, orgulhoso, que sua plantação, mesclando cafezais e bananeiras, tem diversidade de pássaros similar à encontrada em florestas.
O dilema da segurança alimentar
No Brasil, a última localidade retratada, o foco é o Cerrado. Mais especificamente, o desmatamento do bioma para instalação de grandes culturas, em particular soja e milho.
No geral, a tese é que o agro “industrial” vem desde sua concepção deteriorando e desertificando os solos globais. O regenerativo, por outro lado, recupera terrenos, preserva biodiversidades e, segundo o filme, já gera retorno financeiro aos produtores.
Esta parte é o início do problema no argumento. Segundo a obra, houve um aumento expressivo da área sob práticas regenerativas no mundo. De 2 milhões de hectares em 2020 para 12 milhões em 2023, chegando a 101 milhões hoje. A ambição é nos próximos anos atingir 404 milhões, quase 10% da área agriculturável no planeta.
Mas apesar da alta significativa, nem todas as cadeias e nem todas as regiões já têm mecanismos equilibrados e perenes de remuneração em troca das boas práticas. Seja sob a ótica do consumidor, disposto a pagar mais por algo feito de acordo com esse manual, ou sob o ponto de vista do produtor, que precisa de um adicional para aderir a esse corolário.
O café parece ter avançado com mais rapidez. De certa forma, a própria existência da Nespresso é um atestado disso: muitos consumidores — aparentemente, o suficiente para a força do negócio — topam pagar mais por suas cápsulas em comparação com marcas mais acessíveis, possivelmente tocados pelo aspecto socioambiental.
Hoje, 95% do café da empresa no Brasil vem de fazendas com práticas regenerativas. No mundo, são 85%.
Mas em outras cadeias citadas no documentário, a dinâmica do prêmio ainda não está madura. Em especial em culturas mais ligadas à segurança alimentar e ainda regidas pelas regras da produção em escala, como soja, milho, cana e pecuária.
Nesse ponto, Groundswell falta com respostas baseadas em dados às perguntas: como engajar o lado da demanda para financiar o prêmio na oferta, e em escala suficiente? Como abordar a crise climática sem afetar a segurança alimentar?
O forte crescimento populacional em curso em países pobres da África e da Ásia, como Nigéria e Índia, deve elevar a demanda por alimentos, do açúcar à carne. Assim como fatias da demografia chinesa só passaram a comer proteína animal com regularidade há alguns anos — com um papel decisivo do agro em larga escala.
No Brasil, o filme cita a pujança na soja e no milho como algo nocivo, alegando que ela reduz a biodiversidade e que a maior parte da produção vira ração.
É um ponto a ser debatido. Mas como nutrir a população crescente sem alimentar frangos, porcos e bois? Em 1990, vale lembrar, éramos 5 bilhões na Terra. Hoje, somos 8 bilhões. Até 2086, serão 10 bilhões — o pico populacional no planeta. Todos precisam comer.
Que o agro tradicional deve ser revisto, e o regenerativo, estimulado, são fatos à prova de dúvida. Mas o impacto da produção alimentar não é estimável por generalizações.
As ressalvas, vale citar, não deslegitimam a obra, nem retiram dela o senso de missão. Nunca será demais situar e questionar a influência do modelo produtivo sobre o clima. E o filme serve para educar as crianças acima de 10 anos, a classificação indicativa recomendada.
Com menos erros que acertos, Groundswell é excelente contribuição para veteranos ou iniciantes nas práticas regenerativas — pelas quais todos torcemos.
* O repórter acompanhou exibição do filme para jornalistas promovida pela Nespresso.




