Quando trabalhava para George Soros, Stanley Druckenmiller teve a seu lado um promissor estrategista. Seu nome era Scott Bessent — o atual secretário do Tesouro americano.
Agora, o antigo chefe achou por bem dar conselhos a seu pupilo, que vem enfrentando uma crise de credibilidade enquanto tenta domar a empinada dos juros no mercado de Treasuries.
Em um artigo publicado agora à tarde no Wall Street Journal, Druckenmiller afirma que os juros em alta são um indicativo de “problemas adiante”, e que “suprimir artificialmente” a alta vai só “aumentar as ameaças.”
Para Druckenmiller, não havia nenhuma disfuncionalidade no mercado que justificasse o aumento das operações de recompra dos títulos mais longos anunciado por Bessent.
“A volatilidade manteve-se contida e as negociações ocorreram de forma ordenada – não se tratou de uma falha de funcionamento, mas sim da máquina cumprindo sua função,” escreveu Druckenmiller, que hoje administra seu próprio capital no Duquesne Family Office.
O gestor fez um resumo daquilo que a “máquina” colocou nos preços do Treasuries: “A inflação está entre 3% e 4% e permanece acima da meta do Fed desde 2021. O desemprego está em 4,1%, o que configura pleno emprego sob qualquer definição. O déficit gira em torno de 6% do PIB, um patamar que os EUA jamais haviam registrado em tempos de paz”.
Ainda segundo Druckenmiller, “a dívida nacional ultrapassou a marca de US$ 40 trilhões” e “as despesas líquidas com juros vão superar US$ 1,1 trilhão neste ano fiscal, um montante acima do orçamento de Defesa.”
Nessas condições, ponderou o gestor, até que os juros nem abriram tanto assim. Os yields dos títulos de 10 anos ainda estão em patamar igual ou inferior à taxa de crescimento nominal da economia.
“Isso significa que um tomador de empréstimos (o governo federal) – que registra déficits de 6% em situação de pleno emprego e com inflação acima da meta – ainda consegue se financiar a uma taxa aproximadamente equivalente ao crescimento de sua economia,” escreveu.
Ainda segundo Druckenmiller, o mercado de títulos não vinha cumprindo a sua função de bond vigilante. “Ele se comportava como alguém dócil e submisso que, finalmente, começava a querer dar voz à sua insatisfação – e o Tesouro agiu para silenciar até mesmo essa tímida manifestação.”
“A taxa de juros dos títulos do Tesouro de longo prazo é o preço mais importante do mundo. É também o único mecanismo de disciplina fiscal que resta aos EUA.”
Segundo o gestor, nenhum dos partidos fará campanha com base na reforma dos programas de benefícios sociais. “Ambos passaram a última década ampliando compromissos e ignorando a aritmética,” disse ele.
Para Druckenmiller, as democracias agem apenas quando “as taxas de hipoteca pesam no bolso, os leilões de títulos fracassam e o custo político da alta nos juros de longo prazo finalmente supera o custo político” de não cortar os gastos públicos.
“Cada ponto-base de supressão artificial dos juros é um subsídio à procrastinação,” disse Druckenmiller.

No artigo, o gestor relembrou a crítica que fez em 2023 à gestão da dívida feita pela então Secretária do Tesouro, Janet Yellen.
“Afirmei que Washington estava gastando como um marinheiro bêbado – com as despesas federais saltando de 20% do PIB para 25% do PIB depois da pandemia – e classifiquei a falha da Secretária Yellen em alongar o prazo da dívida, aproveitando taxas historicamente baixas, como o maior erro da história do Tesouro,” disse. “Famílias e empresas garantiram taxas baixas, mas o mutuário que mais precisava fazer isso não o fez.”
Com o aumento das despesas correntes e a alta nas taxas dos Treasuries, as despesas com juros atingirão 4,5% do PIB até 2033 e 144% de todos os gastos discricionários até 2043, disse Druckenmiller.
“Quem lhe disser que os benefícios sociais obrigatórios não serão cortados está mentindo,” afirmou. “Ou reestruturamos essas promessas deliberadamente, sob nossos próprios termos e protegendo quem mais precisa delas, ou o mercado de títulos fará isso por nós – de uma só vez e sob os termos dele.”
De acordo com o gestor, o Tesouro deveria limitar os buybacks de títulos a operações para aumentar a liquidez quando necessário.
“Se o título de 30 anos precisa ser negociado a 5,5% para encontrar compradores, isso não é uma crise; é uma conta a pagar,” escreveu ele. “Resta, então, fazer a única coisa capaz de reduzir de forma duradoura os rendimentos de longo prazo: enfrentar o déficit primário.”
Para Druckenmiller, a recompensa seria “enorme”: “Um pacote fiscal crível faria mais pela ponta longa da curva de juros do que um programa de recompra de títulos mil vezes maior.”




