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Por que a canola está ganhando as lavouras do Rio Grande do Sul

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IJUÍ (RS)* No trajeto de pouco mais de 100 quilômetros que separa o aeroporto de Passo Fundo de Santa Bárbara do Sul, uma vastidão de amarelo colore plantações a perder de vista. São as flores de canola, uma velha conhecida dos gaúchos, mas uma recente protagonista.

Impulsionada pela indústria de biocombustíveis, a área plantada com canola no Rio Grande do Sul saltou 74% em apenas uma safra, chegando a 366 mil hectares neste ano, segundo as estimativas da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). O Estado responde por praticamente toda a área plantada de canola no País.

“A canola era negociada com um desconto de mais ou menos 10% sobre a soja. Isso perdurou por muito tempo no mercado aqui, antes do crescimento do mercado de biocombustíveis”, disse Thiago Milani, diretor de commodities da 3tentos.

Com o maior uso de canola para biodiesel nos últimos anos, esse cenário mudou. Atualmente, a canola é negociada com prêmio de 5 a 10 reais sobre a saca de soja. “Não quer dizer que vai ser sempre assim. Vai depender do preço do óleo para balizar. Ainda é um mercado muito novo”, completou Milani.

Com uma fábrica de biodiesel em Ijuí (RS), a 3tentos é uma das personagens da transformação da canola. Na unidade, onde trabalham mais de 250 pessoas, foram investidos R$ 60 milhões a fim de fazer com que os equipamentos, originalmente projetados para produzir o biocombustível a partir da soja, conseguissem também fazê-lo a partir da canola.

Apesar da flexibilidade para produzir biodiesel a partir de qualquer gordura (incluindo animal), as atenções da 3tentos estão direcionadas para fazer o biodiesel de canola vingar.

A preferência se explica por uma vantagem em relação à soja. A canola tem um percentual de óleo que varia de 39% a 42%, enquanto a soja entrega cerca de 20%. (O que não vira óleo, vira farelo, em ambos os casos).

Como o óleo é negociado hoje a aproximadamente R$ 6 mil a tonelada, Milani vê um balanço atrativo para a produção de biodiesel a partir da canola — com uma receita quase três vezes maior do que a do farelo. “A canola não está muito distante do preço da soja, mas entrega o dobro de óleo, o que tende a nos dar uma margem melhor”, disse Milani.

No ímpeto de aproveitar esse potencial, a 3tentos originou cerca de 70 mil toneladas de canola no ano passado. Para este ano, a ambição é originar 160 mil toneladas de canola, o que deve permitir à fábrica de biodiesel operar por cinco meses com essa matéria-prima.

A expansão do uso de canola pode ser impulsionada pelos movimentos do mercado gaúcho de biocombustíveis. A expectativa é que o projeto da Refinaria Riograndense, em estudo, possa adicionar demanda por óleo e por farelo caso o projeto de produção em larga escala de SAF realmente avançar. Por ser uma cultura de segunda safra, a canola pode ser a matéria-prima usada no SAF a ser exportado para a União Europeia.

As adaptações industriais

Para dar protagonismo à canola, a 3tentos precisou adicionar etapa ao processo de produção de biodiesel. Quando comparada à soja, a canola precisa passar por uma prensagem adicional.

Na prática, a canola é esmagada e, desse primeiro processo, tira-se cerca de 20% de óleo que a cultura entrega. O que sobra vira uma massa, que segue para uma etapa seguinte de um banho de solvente. Em seguida, o óleo é separado do farelo, e o solvente, retirado, chegando aos 40%.

O processo de prensa vem sendo aprimorado. “A gente comprou uma tecnologia que funcionou por um tempo, mas não performou dentro da capacidade que gostaríamos. Daí fizemos um novo investimento para essa safra, que está funcionando”, disse Leandro Carbone, diretor industrial da 3tentos.

A expectativa dele é que, com isso, o custo de operar com canola fique próximo ao da soja. Segundo ele, as prensas adicionais são acionadas, mas em contrapartida outros gatilhos usados na produção de biodiesel a partir da soja não são acionados.

“Ainda vamos entender mais com a escala, mas a expectativa é que fique muito parecido no final, em reais por tonelada esmagada”, afirma.

Os desafios agronômicos

Para o produtor gaúcho, a comparação entre soja e canola é vantajosa, argumentam os executivos da 3tentos. Na média, o agricultor vai gastar de 14 sacos a 15 sacos em insumos para fazer uma boa lavoura, para um rendimento que gira em torno de 25 a 26 sacas por hectare.

“Sobra de 10 a 12 sacas de resultado para o produtor. É melhor do que a soja e melhor do que o trigo”, resume Milani. Na região, a principal forma de a 3tentos originar o grão vem por meio do barter.

Além de trabalhar a originação, a 3tentos mantém na região de Santa Bárbara do Sul (RS) um centro tecnológico de pouco mais de 30 hectares, em que são feitos testes de manejo de diferentes culturas — incluindo a canola — de olho em trazer conhecimento ao produtor local.

Um deles é Tales Pezzini, produtor responsável por gerenciar os 1,1 mil hectares da empresa da família na região. Neste ano, o produtor plantou 130 hectares de canola, que serão enviados à 3tentos — em áreas onde se plantaria trigo.

Segundo o produtor, o trigo possui uma produtividade melhor em relação à canola mas exige mais aplicações de defensivos e possui exigências de qualidade — dependendo do pH, são feitos descontos sobre o valor final a receber.

Na canola, por enquanto, ainda não há um padrão de qualidade, o que garante mais previsibilidade no dinheiro a ser recebido. A 3tentos estuda uma avaliação de qualidade, nos moldes do que produtores no Uruguai já fazem, com um prêmio dependendo de alguns parâmetros, mas ainda de forma bastante embrionária.

Mas nem tudo são vantagens. Semeada na segunda safra de inverno, a canola pode trazer desafios agronômicos para o cultivo de soja da safra seguinte.

“Quando você colhe canola, ela deixa pouca palha no sistema. O solo fica desprotegido para plantar a soja. Num ano de excesso de chuva, isso é um problema, porque você pode ter erosão. Vou ter o lucro de 10 sacas de canola em si, mas isso vai fazer qual impacto em sacas de soja lá na frente?”, disse Pezzini

Esse tipo de incerteza faz com que tanto produtores quanto a própria 3tentos não acreditem que o cultivo da canola de inverno chegará à totalidade das áreas de soja do Rio Grande do Sul. O que parece mais provável, sinalizam, é uma rotação entre as áreas de trigo e de canola ao longo do tempo.

Hoje, a 3tentos tem uma participação de mercado de aproximadamente 30% na canola vendida no Brasil — e quer mantê-la conforme o cultivo do grão cresce no Estado.

“A área de canola está perto dos 400 mil hectares. A área de soja é de 7 milhões de hectares. Não vai chegar no mesmo tamanho da soja, mas a gente acredita que poderia chegar facilmente em um milhão de hectares daqui a dois, três anos”, projetou Milani.

*A jornalista viajou a convite da 3tentos



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