Daniela da Silva foi head de políticas públicas do WhatsApp no Brasil por um ano. Desapontada com os rumos tomados pela Meta após a posse de Donald Trump, ela pediu demissão e fundou a CTRL-Z, uma organização que se propõe a enfrentar a concentração de poder das big techs. Em conversa com Mobile Time, ela concorda com a comparação de que as redes sociais são hoje o que a indústria do tabaco foi no passado; defende a adoção de redes sociais de código aberto e com interoperabilidade de dados; e propõe que o Sul Global busque um caminho de soberania digital que não dependa nem dos EUA nem da China.
Mobile Time – A Meta fechou um acordo de US$ 17 bilhões de dólares com a justiça americana por causa do design viciante de seus produtos; o TikTok foi multado em R$ 154 milhões pela ANPD por falhas no tratamento de dados de crianças e adolescentes; e o governo federal abriu um processo contra o Discord. Você acredita que atingimos um ponto de inflexão na relação da sociedade com as big techs, deixando de vê-las como inovadoras para encará-las como vilãs? Será que no futuro vamos olhar para as redes sociais como hoje olhamos para a indústria do tabaco?
Daniela da Silva – Sim, o paralelo com a indústria do tabaco é preciso. Há uma mudança clara na percepção social. A tecnologia é apaixonante e íntima, mas as empresas operam como “caixas-pretas” com pouca transparência. Elas foram eficientes em criar um “truque de mágica” que nos fez acreditar que seus modelos eram infalíveis e inevitáveis. A CTRL-Z existe justamente por acreditar nesse momento de virada. Assim como no passado diziam que fumar era uma opção individual, hoje tentam transferir a responsabilidade do uso de telas apenas para os pais, ignorando que vivemos imersos em ambientes viciantes e defeituosos. A Meta foi condenada porque sabia dos danos e optou por não agir, o que é muito similar ao histórico da indústria do tabaco.
Quais mudanças são necessárias em termos de leis e de comportamento?
Precisamos percorrer vários caminhos paralelamente. Primeiro, a competição de mercado: essas empresas cresceram adotando práticas anticompetitivas, como o “Buy and Kill”. Elas compram a concorrência e impedem que soluções melhores surjam. Precisamos regular os mercados digitais para quebrar esses monopólios, como foi feito com o setor de petróleo no passado. Antigamente, a mesma empresa podia explorar, refinar e vender petróleo. Depois, se entendeu que isso era um acúmulo de poder gigantesco na mão de quem controlasse essa cadeia inteira. Então, isso foi quebrado em atividades complementares. Em plataformas digitais, será que a mesma empresa que explora o dado pode vender o dado, criar conteúdo, vender conteúdo etc? Além disso, precisamos de novos modelos de negócio que não sejam predatórios e de regulação efetiva sobre moderação de conteúdo e recomendação algorítmica. Não podemos aceitar a autorregulação, pois, como ex-funcionária da Meta, percebi que essas empresas não se movimentarão sem forte pressão externa.

Daniela da Silva, fundadora da CTRL-Z (crédito: divulgação)
Você foi head de políticas públicas do WhatsApp no Brasil. O que a fez pedir demissão?
O motivo foi o “rollback” das políticas de integridade decidido pela liderança no início de 2025, às vésperas da posse de Donald Trump, acompanhado de um discurso de intervenção política em outros países, incluindo a América Latina, em parceria com o governo americano para evitar regulação. Considerei isso uma ameaça à soberania de países como o Brasil. Sair foi a forma que encontrei de manifestar meu dissenso.
Sua saída causou espanto?
Não, pois minha trajetória na sociedade civil era conhecida. Minha ida para a empresa surpreendeu mais do que a minha saída.
Como você define a CTRL-Z?
A CTRL-Z é uma organização que enfrenta o modelo operacional das plataformas a partir do Brasil, com foco no Sul Global. Entendemos que o Brasil ocupa um lugar de vanguarda em regulação e governança da internet, e buscamos resgatar esse protagonismo para reimaginar a soberania digital.
Por que você coloca o Brasil nessa vanguarda?
Pelo histórico de construções basais, como o Marco Civil da Internet, elaborado de forma participativa, e o modelo multissetorial do Comitê Gestor da Internet. Além disso, temos uma cultura digital nativa, com forte histórico em software livre e soluções públicas. O Brasil é um ponto de atenção geopolítico relevante, capaz de criar um efeito cascata regulatório para outros países em desenvolvimento.
Em sua palestra no Super Bots Experience, você alertou sobre os perigos da concentração de poder nas mãos de poucas empresas de tecnologia. Por que isso deveria preocupar as empresas que são parceiras das big techs?
Usei a metáfora de que construir infraestrutura de comunicação sobre a das big techs é como “construir uma casa no terreno da sogra”. Não temos controle. A CTRL-Z mapeou mais de 270 mil reclamações no consumidor.gov contra Meta e Google, muitas sobre remoções arbitrárias de contas. É preciso criar resiliência institucional, diversificar canais e adotar conceitos como interoperabilidade e portabilidade. Como que a gente constrói diversidade nas nossas redes de comunicação? Se 100% da minha estrutura depende da Meta ou do Google, ou de outra big tech, em qualquer momento eu posso perdê-la. Criadores de conteúdo às vezes acham que têm milhões de seguidores mas se a conta deles for banida descobrem que não têm nenhum. Ou melhor, que os milhões de seguidores na verdade são do Instagram. Não existe portabilidade daquilo que você constrói nas redes. Interoperabilidade e portabilidade precisam entrar no nosso vocabulário, se quisermos de fato ter independência e resiliência no meio digital. Precisamos adotar a lógica do Fediverso, de redes sociais distribuídas.
O que é o Fediverso?
É uma tecnologia de redes sociais distribuídas e de código aberto. Em vez de tudo ficar no servidor de uma empresa, a rede é descentralizada. Você pode rodar sua própria instância ou migrar entre elas, levando seus dados e seguidores. Defendo a estratégia “Plus One”: as organizações não precisam abandonar as redes proprietárias, mas devem incluir um canal aberto e livre em sua estratégia para garantir segurança e resiliência.
Na arena digital, existe uma disputa global entre players americanos e chineses quando se analisa quase qualquer segmento de negócios. Em IA, temos OpenAI e Anthropic de um lado, e Alibaba e DeepSeek de outro. Em redes sociais, é Facebook e Instagram de um lado e TikTok de outro. Em mobilidade urbana é Uber Vs DiDi etc. Você enxerga distinções na gestão ou no cumprimento de princípios éticos dependendo da nacionalidade da big tech? Ou devemos nos preocupar com elas por igual, independentemente da origem?
Há diferenças, mas devemos nos preocupar com ambos. A polarização China-Estados Unidos é frequentemente usada como narrativa pelos EUA para justificar avanços arriscados, como a corrida pela AGI. O Sul Global precisa criar um caminho de independência que atravesse essa dicotomia.
O que você espera do Projeto de Lei 4675, que trata de mercados digitais, inspirado no DMA europeu, e que confere mais poderes ao CADE para fiscalizá-los?
Não analisei o PL tecnicamente. A CRTL-Z optou por focar em jornalismo investigativo e litigância voltada ao consumidor, em vez de direito concorrencial.
Sobre a regulação de IA (PL 2.338), a professora Tatiana Wassermann, da USP, durante palestra também no Super Bots Experience 2026, sugeriu que vivemos um paradoxo: é cedo demais para regular IA, mas também é tarde demais para fazê-lo. A solução, na opinião dela, é estabelecermos uma regulamentação temporária, com prazo para revisão. O que acha disso?
Concordo. O custo de oportunidade de não regular é alto. O PL sofreu muita intervenção de lobistas, mas é essencial estabelecer uma autoridade nacional para monitorar o tema e definir princípios gerais, mesmo que as regras precisem ser revistas periodicamente devido à velocidade da tecnologia.
O que você acha da tendência de obrigar redes sociais a remunerar o jornalismo, como está sendo feito na Austrália, quase como uma reparação?
É totalmente necessário. Não é apenas reparação, é o reconhecimento de que o jornalismo é essencial para a relevância das próprias plataformas. Com a IA resumindo informações e reduzindo o tráfego de cliques, o sistema econômico está quebrado. As big techs precisam pagar seu quinhão, e acordos pontuais ou filantropia são insuficientes.
Qual a sua opinião sobre a proibição ou a restrição de acesso a redes sociais para menores de 16 anos?
Sou favorável à abordagem que não proíbe, mas impõe obrigações de proteção e mudanças significativas no design das plataformas. A ANPD está implementando diretrizes escalonadas. Precisamos de um pacto coletivo de cuidado, envolvendo pais, empresas e Estado, em vez de apenas cortar o acesso.
Você tem uma filha pequena. Como lida com o uso de telas na sua casa?
É muito interessante você me perguntar isso, porque não tem um dia na minha casa que a gente não tenha uma discussão por conta de uso de tela. Eu acho o maior desafio da minha geração de pais e mães. É um desafio diário. Minha filha tem um tablet, não um celular. Ela gosta muito de tecnologia. Me sinto como um exemplo de que os pais precisam de apoio, pois é muito difícil retirar crianças desse ambiente (digital), que é quase onipresente.




