PIRACICABA (SP) — Naquela quinta-feira de 2016, o pequeno grupo reunido na sede da Associação Comercial e Industrial de Piracicaba apresentou uma ideia que, aos olhos de hoje, talvez pareça óbvia demais.
Um professor de genética da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), o gerente de uma incubadora de empresas e um pesquisador recém-saído do CTC (Centro de Tecnologia Canavieira) propunham batizar algo que, na prática, já existia havia décadas no entorno de Piracicaba: um polo de conhecimento agrícola sem paralelo no País.
Faltava, no entanto, um nome, uma marca e um pouco de organização. Nascia ali o Vale do Piracicaba, ou “AgTech Valley”, fazendo uma alusão ao Vale do Silício americano, com a Esalq, uma instituição de referência global em ciências agrícolas, no papel da prestigiosa Stanford.
Dez anos depois, a marca que começou a trajetória como uma campanha de identidade visual — mas sem verba, sede própria ou personalidade jurídica — reúne 136 organizações dentro do perímetro de 2,5 milhões de metros quadrados do Parque Tecnológico de Piracicaba.
A transformação foi brutal, ajudando a moldar o ambiente de inovação no agronegócio brasileiro a tal ponto que a cidade do interior paulista protagonizou a chegada da PwC, que adquiriu o principal hub de inovação e se consolidou como referência para a fundação de diversas agtechs.
A década termina, porém, em meio à pergunta mais desconfortável que o ecossistema já teve que enfrentar sobre si mesmo. Depois do boom de startups que marcou os anos entre 2016 e 2021, o “AgTech Valley” perdeu força ou está apenas passando por uma fase de ajuste natural à maturidade?
Um século de ciência agrícola
Piracicaba não precisou inventar sua vocação tecnológica em 2016 — ela já vinha se construindo havia mais de um século. Em 1892, o fazendeiro Luiz Vicente de Souza Queiroz doou a Fazenda São João da Montanha ao governo do estado de São Paulo com uma condição: que ali se erguesse uma escola de agricultura. A Esalq nasceu em 1901 e se integrou à USP em 1934.
Em torno da Esalq, despontaria um cinturão de instituições que transformou Piracicaba em referência nacional para a cadeia da cana-de-açúcar e, mais tarde, para o agronegócio como um todo.
A Cooperativa dos Plantadores de Cana do Estado de São Paulo (Coplacana) nasceu em 1948, da união de 57 produtores para comprar fertilizantes em conjunto. Em 1966, um decreto estadual criou o Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), anexo à Esalq, para pesquisar aplicações da energia nuclear na produção agrícola.
Em 1969, a Copersucar fundou o que viria a ser o CTC, o mesmo centro onde José Augusto Tomé, um dos três fundadores do Vale do Piracicaba, trabalharia décadas depois. Em 1976, surgiu a Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq), braço de apoio à pesquisa e à extensão da própria Esalq.
Foi essa base de ciência pública, tradição industrial açucareira e um cinturão de empresas nascidas para resolver problemas concretos do campo, que atraiu, décadas depois, um dos maiores símbolos corporativos da época. Em 2011, a recém-criada Raízen (uma sociedade entre Cosan e Shell) instalou seu centro administrativo em Piracicaba.
Os caminhos do Vale do Piracicaba
A ideia de transformar essa base científica e industrial em marca reconhecida nasceu, na verdade, de dois pontos de partida diferentes, que só se encontrariam anos depois.
O primeiro começou em 2005, quando Sérgio Barbosa, hoje gerente-executivo da incubadora EsalqTec, pesquisava na internet sobre ecossistemas tecnológicos e encontrou uma reportagem listando cinco polos reconhecidos no Brasil: três de tecnologia da informação — em Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre — e dois setoriais, ligados à Universidade Federal do Rio de Janeiro (petróleo e gás) e a São José dos Campos (aeroespacial, em torno do ITA e da Embraer).
A agricultura não aparecia em nenhum lugar da lista, apesar de o País reunir uma tradição de produção científica que remonta à criação da Embrapa.
“Por que a agricultura não é mencionada, se a gente já produz o nosso próprio conhecimento?”, questionou-se Barbosa. Olhando para dentro da própria cidade, viu que Piracicaba já reunia quase todos os ingredientes: escola centenária, grandes empresas, parque tecnológico em formação, incubadora, o CTC, a Apta.
“O que a gente não tinha era uma cultura de investimento privado e de inovação aberta corporativa”, resume. A partir dali, passou a desenvolver, sozinho e ao longo de quase uma década, o estudo e a identidade visual que mais tarde dariam corpo a uma campanha.
O segundo caminho começou em 2013, dentro do próprio CTC. José Augusto Tomé, engenheiro químico formado pela Unicamp, trabalhava lá como pesquisador quando passou a estudar formas de acelerar a pesquisa interna trazendo startups para o processo. “Ninguém queria falar sobre inovação aberta no agro naquele momento. Era quase um palavrão. A cultura era muito fechada”.
Foi essa frustração que o levou a deixar o CTC e montar, ainda em 2013, o CanaTech Coworking, o primeiro espaço de coworking dedicado ao agronegócio no País, inicialmente voltado a empresas da cadeia sucroenergética e que rapidamente se tornaria casa das primeiras agtechs de Piracicaba.
Mateus Mondin, professor do departamento de genética da Esalq e então presidente do conselho da incubadora EsalqTec, fechou o triângulo. Fundos e aceleradoras de São Paulo e Campinas já haviam começado a visitar a cidade, e ficou claro para os três que “o pessoal já estava vendo Piracicaba de uma forma diferente”. Faltava organizar o processo.
O trio formado por Mondin, Barbosa e Tomé levou a proposta ao Conselho Municipal de Ciência e Tecnologia de Piracicaba em 4 de abril de 2016 e a apresentaram publicamente um mês depois, na Associação Comercial e Industrial de Piracicaba.
Àquela altura, não havia CNPJ e tampouco orçamento. Era um movimento orgânico, minimamente organizado, como o próprio Tomé o define, “mais pra dar luz pra esse potencial, atrair mais talentos”.

Mondin ficou responsável por conectar o movimento à reitoria da Esalq, cujo diretor à época, Prof. Dr. Luiz Gustavo Nussio, apoiou a ideia de imediato, Barbosa por engajar o empresariado local e Tomé por mapear os atores num portal.
O batismo pegou rápido. Uma das primeiras reportagens a usar a nova identidade descreveu um aporte recebido pela Inceres, startup nascida na Esalq, como uma conquista do “Vale do Piracicaba”.
No fim daquele mesmo ano, o CanaTech Coworking de Tomé, já rebatizado de AgTech Coworking, publicou o primeiro levantamento formal da categoria no País, o 1º Censo Agtech Startups Brasil, identificando entre 75 e 76 empresas — 15 delas, quase 20% do total, em Piracicaba.
A euforia das agtechs
O que veio a seguir foi, na avaliação de quem viveu o período, um alinhamento raro de fatores. Marcelo Pereira de Carvalho, que na época comandava a AgriPoint, hoje MilkPoint Ventures, focada na cadeia do leite, descreve o momento com a precisão de quem observou os dois lados da mesa: a democratização de tecnologias como sensores baratos e computação em nuvem fez surgir uma onda de novas startups prometendo revolucionar áreas específicas, e, ao mesmo tempo, as corporações passaram a ter um interesse crescente em acompanhar esse movimento de perto.
Carvalho conheceu Tomé pelo próprio movimento do Vale do Piracicaba — os dois tinham escritórios na mesma rua — e, a convite dele, tornou-se sócio na tarefa de transformar o coworking em AgTech Garage, auxiliando na estratégia, relacionamento e contratações-chave enquanto Tomé seguia à frente da operação.
O timing juntou pelo menos quatro fatores, segundo Carvalho: juros baixos, que tornavam capital de risco mais atrativo; o agronegócio em plena expansão; a chegada de tecnologias mais baratas; e corporações “sedentas por novidade”, incapazes de monitorar sozinhas um universo que rapidamente saltou de 100 para 1.300 startups mapeadas.
O modelo de negócio que sustentou essa fase era relativamente simples: empresas-âncora — uma por segmento, com marca na entrada do hub e direito a eventos exclusivos — pagavam uma anualidade mais alta; um segundo nível de parceiros pagava menos por acesso à base de startups.
No auge, o Garage chegou a reunir 100 corporações associadas. O primeiro parceiro corporativo, ainda na fase pré-hub, foi a Genesys Group, por meio de Nelson Bechara; vieram depois Bayer, Sicredi, OCP e Ourofino como âncoras fundadoras, e, com o tempo, nomes como Suzano, John Deere e Bunge.
Em paralelo, a Raízen estruturava sua própria aposta. Em 2017, a companhia lançou o Pulse, hub de inovação aberta instalado em Piracicaba. Ao longo de sua existência, o projeto chegou a mapear uma base de mais de 400 agtechs e uma rede de mais de 1.500 pessoas ligadas ao setor.
O capital de risco amadureceu no mesmo ritmo. Francisco Jardim, cofundador da SP Ventures, data sua relação com o ecossistema de bem antes do marco de 2016: gestor de um fundo do BNDES/Finep, ele investiu na Bug Agentes Biológicos, uma startup nascida na Esalq, em 2009. A Bug se tornaria uma das primeiras deep techs brasileiras a ganhar reconhecimento internacional, com prêmios do Fórum Econômico Mundial e da Fast Company, antes de ser adquirida pela holandesa Koppert.
Mas a SP Ventures não foi a única gestora a florescer dentro do próprio ecossistema. Entre 2018 e 2019, o Instituto Pecege criou a WBGI, uma venture builder pensada para resolver um problema específico da Esalq: pesquisadores de pós-doutorado e doutorandos com descobertas relevantes, mas sem preparo para transformá-las em negócio.
“A gente viu ali um grande potencial em pesquisadores, cientistas, que estavam trabalhando em pesquisas que iam ficar arquivadas dentro da universidade, sem se tornar tecnologia para o mercado”, explica Alan Galisteu, Head de Marketing da WBGI. “Decidimos investir no risco e trazer esse tipo de perfil”. Cerca de 90% do portfólio da gestora está concentrado no Vale do Piracicaba.
Para Galisteu, o boom de 2016 a 2018 foi decisivo para o mercado começar a absorver esse modelo de negócio, sobretudo entre deep techs de pesquisa de longo prazo, mas a própria velocidade do movimento trouxe uma saturação. “Muitas empresas acabaram não se protegendo ou não contabilizando muito os riscos de mercado, o que fez isso virar uma onda — teve uma alta muito grande, mas também uma queda muito forte”, disse.
Os números da época confirmam o ritmo. O 2º Censo Agtech Startups Brasil, publicado em 2018 pelo próprio AgTech Garage em parceria com a Esalq, mostrou que, das 184 startups que responderam ao levantamento, 36% haviam sido fundadas em 2017 — mais de um terço de toda a amostra nascida em um único ano.
Segundo Tomé, o hub chegou a dobrar de tamanho durante a pandemia, na contramão do que se poderia esperar de um negócio dependente de espaço físico em 2020.
A garagem da PwC
O crescimento do Garage levou Tomé e seus sócios a se perguntar se não fazia sentido captar recursos para acelerar ainda mais o negócio — até então sempre bootstrap e lucrativo desde o segundo ano. “Quando a gente começou a conversar com algumas empresas sobre esse plano, surgiu a oportunidade de conversar com a PwC. Eles tiveram interesse, e isso culminou num M&A que fazia mais sentido”, resume Tomé.
Em novembro de 2022, a PwC anunciou a aquisição do AgTech Garage, que já era cliente do hub havia cerca de dois anos. Dirceu Ferreira Junior, sócio e líder do PwC Agtech Innovation, nome que o Garage adotou após a compra, explica que a aquisição buscava justamente o conhecimento e a expertise sobre o mercado agrícola brasileiro que a companhia, até então, não tinha internamente, reforçando a capacidade consultiva de sua vertical de agribusiness.


O acordo mudou a natureza do hub. Deixou de ser uma operação independente para se inserir na estrutura da PwC no Brasil — “menos uma startup, mais uma corporação”, na descrição de Ferreira Junior —, e o cardápio de produtos se ampliou para além da conexão entre startups e corporações, incorporando serviços de consultoria e inteligência de mercado. Atualmente, são cerca de 50 corporações associadas e mais de 700 startups na plataforma, das quais 130 pagam pelo acesso.
Esses números ajudam a explicar um dado do Mapeamento PTP 2026, levantamento produzido pelo Parque Tecnológico de Piracicaba: 64% de todas as organizações instaladas em seu perímetro estão hoje vinculadas ao ambiente PwC Agtech Innovation.
Ferreira Junior pondera que a empresa não acompanha esse percentual de forma isolada, mas atribui a concentração a quase dez anos de mercado e à confiança acumulada junto a empreendedores e corporações. Pedro Chamochumbi, diretor-presidente do Parque Tecnológico de Piracicaba, reconhece o outro lado dessa equação: mostrar que o ecossistema não está circunscrito à PwC é importante.
A crise chega ao ecossistema
O mesmo período que consolidou o AgTech Valley como referência nacional também expôs sua dependência do ciclo financeiro do agronegócio. Juros altos, o ciclo de baixa das commodities e o endividamento do produtor rural nos três anos esfriaram o apetite de risco em todo o setor — e o episódio mais discutido dessa reviravolta envolve justamente uma das empresas-âncora do ecossistema.
A Raízen enfrenta, à parte do que acontece no ecossistema de inovação, a pior crise financeira de sua história. Nesse contexto, o Pulse, hub de inovação que a companhia mantinha em Piracicaba desde 2017, teria sido extinto, segundo rumores dos atores do ecossistema, em novembro de 2025.
A Raízen não confirma oficialmente o fim das atividades, mas também não as reivindica: hoje, pelo menos, o hub não aparece mais operando nos moldes em que operava antes. Procurada por The AgriBiz, a empresa não quis se pronunciar.
A crise, no entanto, vai bem além da Raízen. Barbosa, da EsalqTec, descreve o momento como uma tempestade perfeita: tarifas comerciais, custo de insumos e combustível pressionado pelas guerras na Ucrânia e Irã, câmbio desfavorável reduzindo receitas em dólar e previsões climáticas desiguais entre regiões produtoras, além dos juros altos.
“Tudo isso reflete numa startup”. Ele é também quem admite uma parcela de responsabilidade do próprio setor no ajuste atual. Segundo Barbosa, houve “uma certa bolha de empresas fazendo coisas muito parecidas” e um momento em que “todo mundo queria ser um Google” — incluindo corporações que tentaram importar, sem sucesso, uma cultura de inovação “do Vale do Silício, totalmente diferente da do agro”.
Silvio Passos, da AgroVen, lê o momento como uma depuração necessária, não como sentença. “A primeira grande onda dos agtechs tinha muita gente que não era necessariamente conhecedora profunda dos ciclos do agro”, disse ele, citando que a segunda onda de empreendedores combina conhecimentos de tecnologia e do produtor.
Jardim, da SP Ventures, usa uma metáfora para descrever a transição. Segundo ele, o mercado passou de “um deserto” para “uma floresta tropical extremamente densa” no pico de liquidez de 2021 a 2023, e agora se aproxima de um “cerrado” — um ecossistema mais escasso, porém, na sua leitura, muito mais perene e sustentável do que os dois extremos anteriores.
A visão é compartilhada por Fernando Rodrigues, fundador da Rural Ventures. “Com juros altos e crise, fica mais aparente quem são as empresas de tecnologia que se destacam em meio às outras. Fica até mais fácil de avaliar.”




