O agro brasileiro é um caso de extremo sucesso. Na competição internacional o setor tem ganhado, e de longe. Prova disso são os números que destacam, ano após ano, a posição inconteste de liderança, sendo o primeiro ou segundo maior exportador de várias commodities como café e algodão, mas também soja, suco de laranja, cortes de frangos, suínos, bovinos, papel e celulose e outros.
Isso não é pouco e deve ser celebrado e defendido sempre. O uso inteligente de recursos naturais, combinado com investimentos em pesquisa e tecnologia na área agrícola e ao empreendedorismo e resiliência do produtor brasileiro, tem conquistado essa posição — a despeito dos desafios de logística cara, mão de obra insuficiente, insegurança no campo e um ambiente econômico-político para lá de instável. Mesmo assim, o agro brasileiro vence e puxa a economia e o desenvolvimento do País.
E não é só o Brasil. O café italiano ou a camiseta de algodão de Bangladesh também ganham com isso. Dois casos que vou usar de exemplo aqui.
Essas indústrias internacionais encontram no Brasil uma fonte de matéria-prima de excelente custo, qualidade, volume, previsibilidade e sustentabilidade, elementos críticos na gestão de suprimentos, tanto para as sacas de café compradas pelas torrefações na Itália, como para os fardos de algodão comprados pelas fiações e transformados em fios para as tecelagens e malharias em Bangladesh.
Os números dão dimensão a essa relação: em 2024, o Brasil forneceu 238 mil toneladas de café verde à Itália, cerca de 37% de todo o volume importado pelo país e mais de US$ 1 bilhão em valor. No algodão, a relação é igualmente relevante: em 2024/25, o Brasil tornou-se o maior fornecedor individual de algodão de Bangladesh, respondendo por cerca de 24% de suas importações.
Nada de errado com isso, afinal a especialização de players destes países — Brasil, Itália e Bangladesh — estrutura cadeias de valor internacionais competitivas. Vantagens comparativas existem e devem ser exploradas. Mas elas não precisam definir para sempre quais elos de uma cadeia um país será capaz de ocupar. Vantagens competitivas também podem ser construídas. E é justamente aí que está o problema — ou a oportunidade.
Bem, logicamente os empregos, os impostos, a renda e o desenvolvimento provenientes da atividade industrial dessas cadeias ficam muito menos no Brasil do que na Itália e Bangladesh nos exemplos que trago.
Defendo aqui que vale a pena aumentar a participação industrial brasileira nessas cadeias internacionais, com tantas necessidades econômicas e sociais no Brasil, dado que o País tem suprimento estratégico que essas cadeias precisam.
O Brasil também tem torrefadores de café e uma indústria têxtil diversificada e volumosa. Empresários inovadores e competentes. Porém, esses setores sofrem em competitividade em níveis internacionais.
Os desafios que o custo Brasil impõe a quem quer produzir têm desafiado todos (inclusive o agro), mas têm sido impiedosos com a área industrial. Custos dos insumos, disponibilidade de mão de obra de qualidade, impostos, juros altos, burocracia e regulação têm dificultado a competição em uma batalha dura por tecnologia de maquinário, inovação e marketing e empurrado indústrias ou para a falência ou para fora do Brasil.
Na concorrência pelo mercado brasileiro, “feito no Brasil” vai abrindo espaço para “made in” Bangladesh, China, Itália e tantos outros.
O caso do algodão
Vou aprofundar no caso do algodão, setor em que tenho atuado nos últimos 12 anos, pela oportunidade do trabalho junto à ABRAPA (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão).
O Brasil se firmou como maior exportador mundial de algodão, deslocando os EUA desta posição, e desenvolve mercados internacionais, através da criação do Cotton Brazil, pela ABRAPA e ANEA (Associação Nacional dos Exportadores de Algodão), com auxílio da ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).
Além do mercado internacional, a ABRAPA iniciou o movimento “Sou de Algodão”. Esse movimento estimula o uso do algodão no mercado interno, que, não diferente de outros lugares do mundo, disputa espaço com tecidos sintéticos.
Todavia, no Brasil, para que este investimento seja melhor aproveitado pelo País, além de o algodão reconquistar espaço dos sintéticos, a indústria têxtil nacional precisa crescer e ser competitiva para que parte desse crescimento seja atendido por produtos fabricados aqui, e não por roupas prontas importadas.

A trajetória das últimas duas décadas ajuda a entender essa dinâmica. Enquanto as exportações brasileiras de algodão em pluma cresceram cerca de cinco vezes, de 533 mil toneladas em 2007/08 para 2,77 milhões de toneladas em 2024, o consumo de algodão em pluma pela indústria têxtil brasileira caiu de pouco mais de 1 milhão para cerca de 700 mil toneladas no mesmo horizonte.
Em outras palavras, o Brasil ampliou extraordinariamente sua competitividade e presença internacional na produção da matéria-prima, enquanto sua indústria doméstica passou a consumir menos algodão.
A pressão aparece principalmente mais adiante na cadeia. Há cerca de oito anos, o Brasil importava aproximadamente US$ 450 milhões anuais em vestuário e outros produtos têxteis de algodão. Em 2025, esse valor chegou a US$ 827 milhões — crescimento nominal de aproximadamente 84%. A trajetória não foi linear, mas a tendência recente é clara: somente entre 2022 e 2023, por exemplo, as importações passaram de US$ 520 milhões para US$ 615 milhões.
Exportar commodities é sim uma vocação do Brasil e, por suas capacidades, continuará a ser. É uma consequência natural de uma produção altamente competitiva inserida em um mercado global no qual outros países construíram fortes vantagens competitivas em diferentes etapas da transformação industrial. Sejam propostas premium como a do café italiano ou a camiseta competitiva de Bangladesh, produto agrícola brasileiro irá aonde a demanda está e assim deve ser.
Aliás, o Brasil consegue, como poucos no globo, aumentar sua produção agrícola para responder à demanda internacional e ainda dar suporte ao crescimento nacional se tivermos indústrias por aqui.
O problema, portanto, não é exportar commodities. Devemos continuar fazendo isso, e cada vez melhor. A questão é porque não conseguimos construir, a partir dessa extraordinária vantagem do agro, vantagens competitivas também em outros elos destas cadeias globais.
Estratégia industrial com visão de longo prazo é vital para o Brasil e pode começar por entender que tem nas matérias-primas do agro um diferencial competitivo de classe mundial. O Brasil tem esta vantagem dentro de casa nos grãos, nas carnes, nos produtos de florestas e tantos outros. Vantagens comparativas são um ponto de partida; transformá-las em novas vantagens competitivas é uma escolha estratégica. É preciso que empresas, federações, associações e governos sejam estratégicos a este respeito.




