A Comgás vai começar um projeto com apenas 2.673 metros cúbicos (m³) de biometano por dia que pretende transformar-se em uma das principais avenidas de expansão de sua rede em São Paulo.
A maior distribuidora de gás canalizado do País lança na quinta-feira, 10 de setembro, o Mercado Cativo Verde, programa que permitirá a pequenas e médias empresas comprarem o combustível renovável sem migrar para o mercado livre.
O anúncio ocorre com a publicação, também na quinta-feira, da autorização da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) para a implantação do programa.
Antes, essa opção estava disponível apenas para os grandes consumidores industriais da concessionária, concentrados no mercado livre de gás, que já representa cerca de 80% do volume comercializado pela empresa.
A estratégia da Comgás, obtida com exclusividade pelo NeoFeed, apoia-se na evolução da regulação, em uma longa esteira com novas unidades produtoras e no plano de investimentos de quase R$ 10 bilhões da concessionária até 2029. Os recursos também serão destinados à expansão e à resiliência da rede, mas incluem as conexões necessárias para levar o biometano dos produtores aos consumidores.
A empresa tem ainda no horizonte a abertura do mercado livre de gás em São Paulo para todos os consumidores em 2029 e o aumento da demanda pela descarbonização de frotas comerciais como alavancas para os investimentos no segmento.
O biometano é obtido a partir da purificação do biogás, produzido pela decomposição de materiais orgânicos. No Brasil, as duas principais fontes são os resíduos urbanos capturados em aterros sanitários e os resíduos do agronegócio, incluindo dejetos da pecuária, vinhaça e torta de filtro das usinas sucroalcooleiras.
Depois de purificado, o combustível apresenta características equivalentes às do gás natural fóssil e pode ser usado nas mesmas aplicações — aquecimento, processos industriais e transporte — sem grandes adaptações. Também pode ser injetado diretamente nas redes existentes.
A distância entre a produção atual e o potencial disponível é enorme. O Brasil encerrou 2025 produzindo 1,06 milhão de m³ de biometano por dia, embora a ABiogás estime um potencial técnico de 120 milhões de m³ diários, volume suficiente para substituir 62% do diesel consumido no País.
No ritmo atual, a entidade projeta que a cadeia brasileira de biogás e biometano poderá atrair R$ 246 bilhões em investimentos até 2035 e gerar 110 mil empregos. A conta envolve um ecossistema que começa nos aterros sanitários, nas usinas sucroalcooleiras e nas propriedades rurais e chega às plantas de purificação, gasodutos, bases de abastecimento, equipamentos e transporte do combustível.
Hoje, apenas uma fração dessa oportunidade saiu do papel. Em junho de 2026, o País tinha 21 plantas autorizadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), com capacidade instalada de 1,33 milhão de m³ por dia. Outras 48 estavam em processo de autorização, com potencial para elevar a capacidade nacional a 3,37 milhões de m³ diários até 2028.
O foco inicial do Mercado Cativo Verde está em segmentos com menor demanda de gás, como indústrias de pequeno e médio porte, empresas de refrigeração, projetos de cogeração e operações de mobilidade, incluindo frotas comerciais e postos de GNV.
“A iniciativa visa atender a uma demanda crescente de clientes que, embora desejem integrar o biometano em suas estratégias de sustentabilidade, preferem manter a simplicidade e a segurança do mercado regulado, sem as complexidades operacionais inerentes à migração para o mercado livre”, afirma Henrique Sonja, diretor de Suprimentos da Comgás.
A concessionária estruturou o suprimento inicial do projeto-piloto por meio de uma chamada pública. O volume de 2.673 m³ por dia poderá chegar a 50 mil m³ diários, conforme a evolução da demanda, da oferta e das condições comerciais e regulatórias.
Na prática, o Mercado Cativo Verde funcionará como uma extensão do portfólio da distribuidora. Até agora, o cliente cativo recebia apenas o gás fóssil tradicional por meio da rede.
A empresa que contratar o biometano não receberá fisicamente uma molécula separada na tubulação. O combustível renovável será injetado pelas plantas produtoras na rede da Comgás e se misturará ao gás natural já existente.
Para as companhias que pretendem usar a compra no cumprimento de suas metas de emissão, o que importa é a comprovação independente de que um volume equivalente de biometano foi produzido, injetado e adquirido, e não a entrega física daquela molécula específica.
Cada volume terá seu atributo ambiental registrado individualmente em uma plataforma de controle. A baixa definitiva do registro após a aquisição impedirá que o mesmo benefício ambiental seja comercializado ou reivindicado por outra empresa.
O modelo ganha uma camada adicional com os Certificados de Garantia de Origem do Biometano (CGOBs), criados pela Lei do Combustível do Futuro para comprovar a origem renovável e a rastreabilidade do produto. Com a nova oferta, a Comgás disponibilizará o biometano e seu respectivo atributo ambiental na mesma fatura e dentro da estrutura tarifária do mercado regulado.
A precificação, no entanto, continuará seguindo a lógica da concessão. A Comgás não ficará com uma margem sobre o combustível adquirido e repassará ao consumidor o custo da molécula. “A Comgás, como distribuidora, não ganha nada na molécula que vende no cativo. É totalmente pass-through”, diz Sonja.
No mercado livre, o cliente pode negociar a molécula diretamente com produtores ou comercializadoras, definindo preço, prazo, flexibilidade e outras condições contratuais. No mercado cativo, receberá uma tarifa regulada e a simplicidade de contratar o produto dentro do relacionamento que já mantém com a concessionária. “O cliente receberá a fatura exatamente como ocorre hoje, com o volume de biometano devidamente discriminado”, afirma Sonja.
A rede canalizada da Comgás tem aproximadamente 22 mil quilômetros de extensão e abrange a área de concessão Leste de São Paulo, que inclui a Grande São Paulo, Campinas, Vale do Paraíba e Baixada Santista. São regiões com forte presença industrial, em uma base de 2,9 milhões de clientes. No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou receita líquida de R$ 2,47 bilhões.
Atualmente, mais de 300 mil m³ de biometano passam diariamente pela rede da concessionária, originados de um aterro sanitário em Paulínia e de uma usina do setor sucroalcooleiro em Piracicaba. Outras duas plantas, localizadas em aterros de Itapevi e Caieiras, estão em construção e serão conectadas à malha.
Com esses e outros projetos, a Comgás pretende atingir 1 milhão de m³ diários de biometano em sua rede nos próximos dois a três anos. O volume é quase equivalente a toda a produção brasileira registrada em 2025.
A companhia calcula que o estado de São Paulo tem potencial para produzir pelo menos 6,1 milhões de m³ por dia, segundo estudo coordenado em 2025 pela Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) e realizado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Para efeito de comparação, a demanda industrial paulista por gás natural é de aproximadamente 10 milhões de m³ diários. Em tese, portanto, o biometano produzido no estado poderia corresponder a mais de 60% desse consumo.
Concorrência de olho
O potencial também colocou outras distribuidoras na corrida por fornecedores e novas conexões. Nas demais áreas de concessão de São Paulo, Naturgy e Necta estão desenvolvendo suas próprias rotas para o gás renovável.
Às vésperas do anúncio da Comgás, a Naturgy lançou sua segunda chamada pública de 2026 para comprar até 100 mil m³ por dia de gás natural e biometano, em contratos na modalidade firme. A concessionária também abriu um processo para selecionar projetos interessados em conectar plantas de biometano ao seu sistema de distribuição no sul do estado.
A Necta tomou outro caminho. Desde 2023, a distribuidora opera um sistema isolado de aproximadamente 65 quilômetros que leva o biometano produzido pela Cocal, em Narandiba, aos consumidores de Presidente Prudente e Pirapozinho, no interior de SP.
Com investimento total de R$ 180 milhões e capacidade para transportar 25 mil m³ por dia, o projeto foi o primeiro sistema de distribuição dedicado ao biometano no País. A Necta está adicionando outros 40 quilômetros à rede urbana para alcançar mais 5 mil clientes em Presidente Prudente.
As concessionárias não concorrem diretamente na distribuição física, pois cada uma atua em uma área definida. A disputa ocorre pela atração de plantas produtoras, pela velocidade das conexões e pela capacidade de criar demanda em suas respectivas redes. Com a abertura do mercado livre, o consumidor poderá escolher o fornecedor da molécula – embora a distribuição continue sob responsabilidade da concessionária local.
A concorrência mais direta pelo escoamento do biometano vem de fora dos gasodutos. Empresas como Ultragaz, Gás Verde e Edge transportam o combustível comprimido ou liquefeito por caminhões até clientes industriais, postos e frotas localizados dentro ou fora das áreas atendidas pelas redes.
Em agosto, a Ultragaz inaugurou em Paulínia sua primeira estação própria de biometano, com capacidade para fornecer até 20 mil m³ por dia e abastecer cerca de 200 caminhões. A empresa planeja instalar novas bases em outros estados.
Para a Comgás, conectar diretamente grandes consumidores e garagens à rede é uma forma de competir com esses “gasodutos virtuais”, oferecendo fornecimento contínuo e reduzindo a circulação de carretas com gás comprimido.
A partir de 2029, qualquer consumidor, do grande CNPJ ao residencial, poderá escolher seu fornecedor de gás, embora continue usando a infraestrutura da distribuidora responsável por sua área.
“O Cativo Verde atua, portanto, como uma ponte, educando o mercado e preparando a infraestrutura para essa liberalização plena”, afirma Sonja.
O plano de negócios aprovado pela Arsesp prevê investimentos de quase R$ 10 bilhões pela Comgás até 2029. Os recursos não serão destinados apenas à expansão da rede para atender novos empreendimentos imobiliários. Também serão usados para reforçar a resiliência da malha e conectar novas plantas produtoras de biometano.
“O gargalo está realmente na velocidade com que os projetos de biometano começam a se concretizar”, diz Sonja, citando como frentes prioritárias as unidades abastecidas por resíduos sólidos e a descarbonização do transporte pesado.
A Comgás já mapeou garagens de ônibus e frotas de coleta de lixo para oferecer o abastecimento por rede canalizada, alternativa que o executivo considera mais eficiente e segura do que o transporte de gás comprimido por caminhões.
“Quando a gente olha a realidade do município de São Paulo, com mais de 50 garagens de ônibus e 13 mil veículos rodando, a capacidade que a gente tem de conectar essas garagens e deixar disponível a rede física é totalmente factível”, afirma. “Já temos um trabalho de mapear todas elas e um plano para conectá-las.”
Para Marcos Lopomo, diretor econômico-regulatório da Abegás, associação que representa as distribuidoras de gás canalizado, a iniciativa da Comgás poderá ser replicada nas demais áreas de concessão de São Paulo e em outros estados.
São Paulo é o único estado com três concessionárias de distribuição — Comgás, Naturgy e Necta — reguladas pela mesma agência. “Embora outras concessionárias pelo País já possuam conexão de fontes de biometano com a rede, essa modalidade de venda direta e exclusiva ao cliente cativo é uma iniciativa pioneira”, afirma Lopomo.
A expansão, segundo ele, dependerá da demanda e, principalmente, da localização dos produtores. “Tudo dependerá da viabilidade de ter produtores de biometano próximos às redes das concessionárias de distribuição para viabilizar a conexão.”




