A cota imposta pela China para as importações de carne bovina do Brasil livres da tarifa de 55% pode se esgotar em poucos meses no próximo ano — bem mais cedo do que em 2026, primeiro ano das salvaguardas chinesas. A avaliação é de Roberto Perosa, presidente da Abiec, que vê um ano difícil para o setor caso haja uma corrida dos frigoríficos para atender a China.
As salvaguardas foram anunciadas pelo gigante asiático no dia 30 de dezembro de 2025, com vigência a partir de 1º de janeiro de 2026. Não houve, portanto, a possibilidade de os exportadores se anteciparem. “Este ano, já estamos sabendo das cotas. Todos estão se programando para vender em meados de outubro e novembro”, disse Perosa a jornalistas nesta quinta-feira.
Apesar de o tamanho do apetite chinês para a carne brasileira ainda ser uma incógnita — principalmente porque os estoques de carne no país asiático estão cheios — pode haver uma antecipação das vendas à China, segundo Perosa.
“Se for o que estamos esperando, pode haver final da cota em março, mais tardar em abril, o que é muito ruim para todo o setor. Sairemos de três meses de sufoco para seis”, disse. Os três meses de sufoco ao qual Perosa se refere são julho, agosto e setembro deste ano — que marcam o intervalo entre o final da cota de 2026 e o início dos trabalhos para preencher a cota de 2027.
Segundo ele, esses últimos meses têm sido “duríssimos” para os frigoríficos. Com a saída da China do mercado, as margens caíram, e algumas empresas passam por dificuldades de fluxo de caixa, pois muitas utilizam os adiantamentos dos pagamentos da China como capital de giro. Caso a cota se esgote mais cedo no ano que vem, o período de sufoco será maior, disse.
Para que os navios carregados com carne brasileira cheguem à China em janeiro, os embarques devem ocorrer em novembro. As negociações para 2027, portanto, estão prestes a começar. E, se o governo não arbitrar o preenchimento das cotas, pode haver uma corrida ainda mais desenfreada — neste ano, as cotas foram esgotadas em junho.
A concorrência também pode ficar ainda maior porque existe a expectativa de que a China habilite mais plantas para a exportação em uma missão que deve começar neste final de semana. Os chineses também devem visitar unidades que já tinham a habilitação e foram suspensas.
A proposta da Abiec é que o governo distribua a cota destinada ao Brasil entre os exportadores, com critérios baseados na participação de mercado de cada um e na performance das exportações. É a mesma ideia defendida pela associação durante todo o ano de 2026, mas ainda sem resposta de Brasília. Segundo Perosa, a divisão das cotas pelo governo tem adesão unânime entre os associados.
“Estamos conversando com o governo sobre essa questão das cotas para minimizar os impactos no mercado, mas o momento é conturbado”, disse ele numa referência às eleições. Questionado se ainda haveria tempo hábil para aplicar essa divisão às cotas de 2027, o dirigente afirmou que a decisão poderia ter caráter retroativo.
No próximo ano, a cota brasileira de exportação à China deve contar com 22 mil toneladas a mais do que as 1,1 milhão de toneladas de 2026.
UE em 2027?
A retomada dos embarques de carne bovina à União Europeia, suspensos desde 3 de setembro, também deve ficar para 2027, segundo a Abiec. “A retomada do fluxo comercial é um assunto para resolver no primeiro semestre do ano que vem”, disse Perosa.
A primeira meta da Abiec é inserir o Brasil de volta na lista de países autorizados a exportar proteínas para a UE. Para isso, o bloco precisa validar o protocolo homologado pelo Ministério da Agricultura com explicações sobre como será feito o controle de animais que não utilizarão antimicrobianos desde o nascimento — que é a exigência da UE.
A partir daí, a proposta da Abiec é que seja definido um período de transição para que o Brasil se adeque aos requisitos europeus sobre o uso de antimicrobianos.
Segundo Perosa, o Brasil já tem uma proposta a apresentar à UE para essa transição, mas ele não quis abrir os detalhes. E admitiu que, pelas exigências atuais dos europeus, o Brasil voltaria a ficar apto a exportar carne bovina à UE em dois anos — período que corresponde ao ciclo de vida médio de um animal até o abate.
Outro entrave nessa novela dos antimicrobianos é a adesão dos pecuaristas ao protocolo, que foi desenvolvido pelo setor privado (representado pela Abiec), pela CNA (Confederação Nacional da Agricultura) com o aval das certificadoras. “Ainda temos poucos pecuaristas que fizeram a adesão a esse protocolo, mas estamos num trabalho intenso com a CNA para que mais pecuaristas o façam”, afirmou Perosa.
O impacto da interrupção das vendas à UE até o final deste ano deve ser da ordem de US$ 500 milhões, segundo Perosa. “Do total de US$ 1 bilhão que vendemos à Europa no ano passado, US$ 500 milhões foram nos últimos quatro meses do ano. Geralmente, esses últimos meses do ano são os mais fortes para a exportação à UE”, disse.
Reforço dos EUA
A autorização dos Estados Unidos para a importação de um volume adicional de carne sem imposto, em vigor desde o início deste mês, atenua apenas parcialmente a perda do mercado europeu devido aos diferentes perfis de consumo, segundo Perosa.
Enquanto os norte-americanos importam recortes de carne da parte dianteira do boi para a produção de carne moída, os europeus importam cortes mais nobres de dianteiro. “Não vai o filé mignon e a picanha para os Estados Unidos. Isso precisa sempre estar em equilíbrio. Sem ele, ficamos sem a possibilidade de maximizar os ganhos no processamento.”
A nova cota livre de imposto criada pelo governo norte-americano é de 300 mil toneladas, divididas em cotas mensais de 100 mil toneladas com validade até novembro de 2026.
Segundo informações do serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, compiladas pela adidância do Mapa nos EUA e citadas pela Abrafrigo, 22% da cota alocada para setembro havia sido preenchida até o dia 14.
De janeiro a agosto, antes da entrada da nova cota, as exportações brasileiras para os EUA cresceram 25%, para US$ 2 bilhões. Em volume, a expansão foi de 37%, atingindo 241 mil toneladas.
No mesmo período, o Brasil exportou o total de 2,2 milhões de toneladas de carne bovina, um crescimento de 5%, enquanto a receita saltou 22%, para US$ 12,8 bilhões.




