22.5 C
Marília
HomeMaríliabeleza também é qualidade de vida

beleza também é qualidade de vida

spot_img


Emaranhado de fios e cabos toma conta da paisagem urbana na região central de Marília (Foto: Marília Notícia)

Há uma ideia equivocada de que beleza é luxo. Como se uma cidade devesse primeiro funcionar e, somente depois de resolver todos os seus problemas, pudesse se preocupar em ser bonita. Não deveria ser assim.

A estética também faz parte da qualidade de vida. O lugar onde vivemos influencia nosso humor, nossa relação com o espaço público e até o sentimento de pertencimento que desenvolvemos por uma cidade. Beleza não é apenas ornamento. É também ordem, harmonia e cuidado.

A poluição visual das cidades brasileiras

Basta olhar para cima nas cidades brasileiras.

Postes carregados de fios, cabos antigos, emaranhados de telecomunicações, equipamentos instalados uns sobre os outros e redes que atravessam ruas e fachadas formam uma paisagem à qual nos acostumamos tanto que quase deixamos de percebê-la. Mas ela está ali.

O excesso de fiação contribui para tornar nossas cidades visualmente poluídas. Árvores, prédios históricos, praças, avenidas e fachadas dividem espaço com uma infraestrutura que, embora necessária, poderia ser muito menos agressiva à paisagem urbana.

Em muitas cidades, parece que o espaço público foi sendo construído apenas pela lógica da necessidade imediata: instala-se um poste, passa-se um cabo, acrescenta-se outro, depois mais outro. Décadas depois, o resultado é uma espécie de improviso permanente suspenso sobre nossas cabeças.

É evidente que eliminar a fiação aérea já existente em cidades inteiras exige planejamento, investimento e tempo. Seria irreal imaginar que toda essa estrutura possa simplesmente desaparecer de uma hora para outra.

Exigência para o futuro

Mas isso não justifica continuar reproduzindo o mesmo modelo nas áreas de expansão.

Novos loteamentos, novos bairros, novas avenidas e grandes projetos urbanos deveriam nascer sem fiação exposta. A infraestrutura subterrânea precisa deixar de ser tratada como luxo ou como algo excepcional e passar a ser uma exigência para aquilo que ainda será construído.

Em Marília, a contradição chega a ser ainda mais evidente: há empreendimentos comercializados sob o conceito de alto padrão que continuam adotando redes aéreas, com postes e fios compondo a paisagem. É difícil conciliar essa realidade com a própria ideia contemporânea de urbanismo de alto padrão. Se há planejamento para oferecer melhor arquitetura, paisagismo, lazer e infraestrutura, por que aceitar justamente um dos elementos que mais contribuem para a poluição visual das cidades?

Talvez não seja possível corrigir de uma vez os erros acumulados durante décadas. Mas é perfeitamente razoável estabelecer um ponto de partida: daqui para frente, não criar mais o problema.

O poder público precisa discutir regras para que as expansões urbanas já sejam concebidas sob uma nova lógica. Se uma nova avenida será aberta, que ela seja planejada sem fios cruzando sua paisagem.

Se um novo loteamento será aprovado, que a infraestrutura subterrânea faça parte das exigências desde o projeto. Se novos bairros inteiros surgirão nas próximas décadas, que não nasçam carregando um problema urbano que já conhecemos tão bem.

As cidades continuarão crescendo. E cada novo bairro construído com postes, redes aéreas e emaranhados de cabos representa mais uma área que, no futuro, poderá precisar ser corrigida a um custo muito maior.

Beleza e qualidade de vida nas cidades

Existe também uma discussão mais profunda por trás dos fios. Que tipo de cidade queremos deixar para as próximas gerações?

Durante muito tempo, o debate urbano brasileiro esteve corretamente concentrado em necessidades básicas: asfalto, iluminação, saneamento, transporte, moradia e segurança. Tudo isso continua fundamental. Mas cidades que pretendem evoluir precisam começar a discutir também arborização, arquitetura, preservação, mobiliário urbano, calçadas, fachadas, paisagismo e beleza.

Porque viver bem não significa apenas morar em um lugar que funciona.

Significa também viver em um lugar agradável aos olhos, acolhedor, organizado e capaz de despertar algum orgulho em quem passa por suas ruas.

A beleza não resolve os problemas de uma cidade. Mas uma cidade que se preocupa com a beleza revela algo importante sobre si mesma: que o espaço coletivo merece cuidado.

Talvez seja hora de olharmos mais para cima e percebermos que aquele emaranhado de fios que aprendemos a considerar normal não precisa ser parte inevitável da paisagem brasileira.

Não conseguiremos transformar todo o passado de uma vez. Mas podemos decidir como queremos construir o futuro.

Cuidar da estética de uma cidade não é futilidade. É cuidar da experiência humana de viver nela.



Fonte Link

spot_img
spot_img
Fique conectado
16,985FansLike
2,458FollowersFollow
61,453SubscribersSubscribe
Deve ler
spot_img
Notícias Relacionadas
spot_img