Um dos maiores mistérios da medicina, o funcionamento do cérebro sempre foi motivo de fascinação, porém o grande breakthrough para compreender o órgão mais importante do corpo se deu nos últimos 20 anos – e acaba de render um Nobel para os três pesquisadores que desenvolveram a técnica.
Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel foram nomeados os vencedores do Nobel de Medicina de 2026 por conta de seus estudos sobre optogenética, o campo da medicina que se utiliza da luz, genética e bioengenharia para estudar como funciona a comunicação entre células do cérebro.
Ao anunciar o prêmio, o Comitê do Nobel afirmou que a ferramenta desenvolvida por eles está sendo utilizada em laboratórios em todo o mundo para revelar como as células do órgão se comunicam.
Deisseroth, de 54 anos, é pesquisador do Howard Hughes Medical Institute e professor da Universidade Stanford, na Califórnia. Hegemann, de 71 anos, está na Universidade Humboldt, em Berlim, e Nagel, de 73 anos, trabalha na Universidade de Würzburg.
O estudo começou nos início dos anos 2000, quando Hegemann descobriu um tipo de alga verde unicelular que consegue nadar em direção à luz. A partir disso, ele e Nagel identificaram uma proteína específica que, ao ser iluminada por luz azul, abre um canal e gera um impulso elétrico. Ao inserir essa proteína em outras células, elas se tornam sensíveis à luz e acabam gerando um “mapa da mina” sobre como funciona a comunicação entre células do cérebro.
A dupla conseguiu então isolar a proteína responsável por esse fenômeno. Em 2003, publicaram o resultado, batizando a proteína de canalrodopsina-2.
Já em 2005, um outro pesquisador, Deisseroth, manipulou as células nervosas no cérebro de camundongos, injetando-lhes a canalrodopsina-2 e com isso tornando essas células fotossensíveis, o que permite analisar como elas se comunicam.
Atuando como psiquiatra, Deisseroth desenvolveu a pesquisa após se frustrar com a falta de explicações precisas para os problemas de seus pacientes.
A expectativa é que o avanço das pesquisas na área tragam respostas sobre como surgem doenças como depressão, autismo e esquizofrenia.
A técnica está sendo usada em caráter de teste para o tratamento de retinitis pigmentosa, uma doença genética que provoca cegueira. Até o momento, o tratamento conseguiu restaurar a visão de alguns pacientes para objetos, mas não para o reconhecimento de rostos ou a leitura. Os pacientes precisam usar óculos especializados.
A optogenética ofereceu, pela primeira vez, uma forma dos cientistas controlarem a comunicação entre as células – e se tornou um pilar da neurociência.
Com o avanço, os pesquisadores da área deixaram de usar mapas fixos da atividade cerebral para construir diagramas funcionais de conexões. A técnica também impulsionou o desenvolvimento de outros métodos para explorar a complexidade neural.
“Antes, tínhamos um mapa anatômico do cérebro”, disse Anna Wedell, uma professora de genética clínica do Instituto Karolinska e membro adjunta do comitê do Nobel, ao anunciar o Prêmio hoje. “Agora podemos gerar mapas funcionais, e também entender como diferentes células se comunicam entre si pelo cérebro.”
Ela descreveu a descoberta como o início de “uma dimensão completamente nova de compreensão sobre o funcionamento do cérebro”.
Cientistas da área compararam o avanço provocado pela descoberta da canalrodopsina-2 com a transição da navegação por mapas físicos para a navegação via GPS.




