Poucos diálogos conseguiram resumir de uma forma tão simples o espírito do crédito no agro como uma brincadeira feita durante um dos painéis do The New Agro, evento promovido pela Grão Direto nesta terça-feira, em São Paulo. A troca aconteceu entre Guilherme Cadelca, CFO da Grão Direto, e Cristiano Cortez, CEO da trading Portal Agrícola.
“Ué, Cristiano, não te avisaram que era para vir de colete também?”, brincou Cadelca, em referência ao fato de que todos os palestrantes estavam com a típica peça de roupa faria limer. “É que eu não sou da Faria Lima, sou lá do Nortão. Lá é colete à prova de balas”, devolveu Cortez, arrancando aplausos da plateia.
Coletes à parte, a conversa entre os executivos pode ser encarada como uma metáfora à relação entre o campo e o setor financeiro: as distâncias ainda existem, mas já diminuíram muito ao longo dos últimos anos, mesmo com o crédito mais seletivo.
A Portal Agrícola é um exemplo dessa mistura de Faria Lima com o Cerrado. Sediada em Sinop (MT), a trading local usa FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), por exemplo, para antecipar pagamentos aos produtores, que buscam prazos cada vez mais curtos de recebimento.
“A gente entrega os grãos para a multinacional e ela fala ‘obrigado, vou te pagar em 45 dias’. Aí que entram os fundos: a gente mostra os documentos e mostra que é um risco baixíssimo, porque já está performado, está no navio”, contou o Cortez. “A gente consegue dar um outro ciclo no mercado”, completou.
A análise desses recebíveis e a organização dentro de casa têm se aperfeiçoado, principalmente com tecnologia, para garantir que o financiamento chegue ao agricultor em tempos de maior seletividade.
“O crédito está aí no mercado, só está mais seletivo. Hoje, eu considero operações nossas lá e vejo que a melhor operação, muitas vezes, é a que a gente não fez, porque desviou de um risco enorme. Poderia ter tido um lucro X, mas por ser um risco alto, poderia ter perdido 100%”, contou Cortez.
O que os financiadores pensam
Do lado de quem estrutura (e muitas vezes fornece) esse capital, a percepção é de que o ciclo ainda é delicado, e que alguns pontos como a transparência, governança e tecnologia têm se tornado cada vez mais essenciais.
Na apresentação, Cadelca, da Grão Direto, relembrou que a inadimplência no agronegócio chegou recentemente a R$ 48 bilhões — e que, há apenas cinco anos, estava em R$ 2 bilhões, segundo dados do Banco Central. Ainda citando dados do BC, ele afirmou que os débitos vencidos e não pagos de produtores rurais pessoa física já chegaram ao percentual de 15%, um recorde da série.
Em meio a esse ambiente mais desafiador, a análise de cada tomador ficou mais rigorosa. “Se um cara vai construir uma fábrica que tem retorno em quatro anos, e ele captou dinheiro rural de um ano, está errado. Tem um custo de refinanciamento enorme para o negócio dele”, exemplificou Pedro Freitas, sócio da XP.
Essa demanda resulta no uso de mais tecnologia por parte dos alocadores, que tem acelerado a análise de estruturas pulverizadas. É o que acontece, por exemplo na Tivio, gestora que pertence ao Bradesco.
A casa tem avançado tanto na formulação de ratings internos para cada operação como na parte de originação e monitoramento em estruturas pulverizadas, segundo Sami Karlik, CIO (Chief Information Officer) da Tivio.
A casa tem preferido fazer cheques maiores para menos alocadores, admitiu Karlik, mas com os avanços da inteligência artificial, consegue, também, avançar na análise de emissores pulverizados, formando uma espécie de “rating próprio”.
“Quando a gente olha para um FIDC, numa estrutura em que você tem 500, 1.000 produtores rurais e não vai ter informação organizada, a tecnologia tem ajudado muito”, frisou.




