Puxada pelo mandato de biodiesel, a capacidade de processamento de soja no Brasil cresceu aproximadamente 13% neste ano, para 86,4 milhões de toneladas, segundo dados divulgados nesta terça-feira pela Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais).
O número de empresas de processamento subiu de 75, no ano passado, para 89, enquanto as unidades industriais passaram de 149 para 157. O total de plantas ativas cresceu de 131 para 148, e o número de unidades paradas caiu pela metade, de 12 para 6. Três plantas estiveram em construção neste ano, ante seis no ano anterior.
Segundo Daniel Furlan Amaral, diretor de Economia e Assuntos Regulatórios da Abiove, os aumentos refletem a resposta do setor à demanda crescente por farelo e óleo, este puxado pelo biodiesel. “O resultado reafirma o preparo do parque industrial para agregar valor à safra e fortalecer a inserção nos mercados globais de derivados.”
Para os próximos anos, a entidade estima investimentos de R$ 7,65 bilhões em novas unidades e expansões de plantas pré-existentes, o que pode elevar a capacidade de esmagamento em mais 7,4 milhões de toneladas/ano, um aumento de cerca de 8,5%.
E a margem?
Essa expansão de capacidade, no entanto, não necessariamente resulta em margens maiores no setor — que seguem vinculadas a fatores fora do controle da indústria, como prêmios locais, timing de venda, “travas” de preço (hedges), logística e o mandato do biodiesel, conforme pontua relatório recente sobre o setor do BTG Pactual.
“A tela não reflete o resultado financeiro”, dizem os analistas Thiago Duarte e Guilherme Gutilla, referindo-se aos preços das commodities nas bolsas globais. “O ‘basis’, o timing, os contratos de hedge e a execução determinam o que efetivamente compõe a margem reportada”, explicam.
Outros elementos que influenciam a ponta do custo, afirmam, são o rendimento real e a qualidade na produção de farelo (responsável por 75% a 78% do processamento) e de óleo (entre 19% e 20%), além do frete. “Commodities de baixo valor deixam pouca margem para custos logísticos”, afirmam.
“Os spreads teóricos servem como uma boa bússola, mas não oferecem um mapa completo da rentabilidade. Duas empresas de processamento que observam os mesmos preços de mercado ainda podem apresentar margens diferentes”, acrescentam.
Já do lado da receita, entra na composição da margem a demanda adicional ligada ao mandato de mistura obrigatória do biodiesel no diesel, hoje em 15% (B15).
Duarte e Gutilla estimam que o B16, que foi previsto na Lei do Combustível do Futuro para março deste ano, mas ainda não foi determinado pelo governo e pode ficar para 2027, aumentaria a demanda por esmagamento em 2,4 milhões de toneladas.
O atraso gerou um descompasso. “A capacidade de processamento cresceu mais rapidamente que o esmagamento de soja, e a expansão do biodiesel mais lenta do que o previsto provavelmente ampliou essa diferença. A taxa de utilização operacional caiu de 88% em 2022 para uma estimativa de 80% em 2026”, estimam os analistas.
Por isso, explicam, o lucro bruto por tonelada, fruto da combinação de receitas provenientes dos produtos do processamento, menos o custo de aquisição da soja, segue no pior patamar desde dezembro de 2022.




