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JetBio fará diesel renovável a partir de etanol no Brasil

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O Brasil está prestes a quebrar mais um paradigma no mercado global de biocombustíveis: a produção de diesel renovável a partir do etanol em escala comercial.

A conversão do etanol em diesel será feita na planta da JetBio em Paulínia (SP), projeto que foi anunciado em maio como a maior em capacidade de produção de SAF, o combustível sustentável de aviação, do mundo.

A nova tecnologia, que foi desenvolvida pela Honeywell UOP e será licenciada à JetBio, tem potencial para resolver a maior preocupação de toda a indústria de etanol brasileira: o gap entre oferta e demanda nos próximos anos, o que poderia pressionar os preços do biocombustível.

Para a JetBio, a possibilidade de também produzir diesel renovável na planta de SAF reduz as incertezas do projeto, estimado em US$ 2 bilhões.

“Isso é algo muito importante para a JetBio, mas também é muito importante para a indústria brasileira de etanol”, disse William Moore, CEO da JetBio, em entrevista ao The AgriBiz.

“O crescimento contínuo da produção, sem novos mercados, vai criar problemas para a indústria de etanol e para o agronegócio”, afirmou o executivo, ecoando preocupações recorrentes no setor.

Com o diesel renovável, será possível endereçar a produção de etanol enquanto a demanda por SAF e por outros combustíveis mais avançados não chega.

Moore, que tem visitado o Brasil praticamente a cada quinzena, está afunilando as conversas com bancos para financiar a planta. Do total de US$ 2 bilhões, metade será financiado via dívida, incluindo bancos comerciais brasileiros, internacionais e bancos de desenvolvimento, inclusive o BNDES. Segundo ele, o banco de fomento brasileiro sinalizou que pode fornecer US$ 500 milhões em crédito.

“O BNDES tem sido muito favorável ao projeto e quer viabilizá-lo ainda este ano, ou pelo menos assumir um compromisso com o projeto ainda neste ano”, pontuou.

A outra metade do investimento (US$ 1 bilhão) deve ser levantada pelo Summit Agricultural Group, acionista controlador da JetBio e principal acionista da FS, uma das maiores produtoras de etanol do Brasil.

Diesel ou SAF?

A planta que a JetBio deve começar a construir no próximo ano, com início da produção previsto para 2030, poderá produzir tanto diesel renovável como SAF — o que vai definir é a demanda. “Temos a capacidade de produzir 100% SAF ou 100% diesel renovável, dependendo de como estruturarmos os contratos de venda. É exatamente a mesma planta”, explicou.

Uma das claras vantagens do diesel renovável, em comparação ao SAF, é o tamanho da demanda. “O mercado de diesel renovável é muito mais desenvolvido, com sinais claros de preço e demanda. O SAF eventualmente vai chegar lá, mas ainda é muito incipiente”, disse Moore.

Segundo ele, o mercado de diesel é cinco vezes maior do que o de combustível de aviação e está concentrado em setores de difícil descarbonização, como os de transporte marítimo, mineração, indústria pesada, geração de energia, agricultura e transporte rodoviário pesado.

Todas essas indústrias poderão usar o diesel renovável sem a necessidade de adaptação de motores ou de mistura ao combustível fóssil.

“Vai custar um pouco mais [do que o convencional], mas o consumidor terá um produto diferenciado, que permite prolongar a vida útil dos navios, das frotas e dos equipamentos de mineração existentes. Não será preciso aposentá-los para adotar soluções de menor emissão, que são muito caras”, afirmou Moore.

O executivo explicou que a molécula é a mesma do diesel convencional, mas proporciona uma redução de pelo menos 65% nas emissões de gases de efeito estufa, podendo chegar a 95% dependendo do tipo de etanol utilizado como matéria-prima e da fonte de calor usada durante o processo produtivo.

Vale ressaltar que o diesel renovável feito com etanol é totalmente diferente do biodiesel, que usa outras matérias-primas, como óleo de soja ou sebo bovino. A molécula é similar a do HVO (óleo vegetal hidrotratado), que é conhecido no Brasil como diesel renovável ou verde, e também usa óleos vegetais como insumo. “Mas ninguém ainda havia produzido diesel renovável a partir de etanol”, disse Moore.

Custo

Outra vantagem do diesel renovável em relação ao SAF é a maior gama de matérias-primas que podem ser utilizadas na produção de etanol sem penalizar o valor do produto. Segundo o CEO da JetBio, os sistemas de certificação e as regulamentações aplicáveis ao diesel renovável são mais receptivos ao etanol tradicional como insumo.

“O SAF é mais restritivo em relação às matérias-primas; o diesel renovável é muito mais flexível. Isso nos permite comprar mais etanol brasileiro e significa que não precisamos pagar um prêmio elevado pelo etanol de resíduos ou de culturas intermediárias.”

Pela possibilidade de usar mais matérias-primas, o custo de produção do diesel renovável será inferior ao do SAF. “Se estivéssemos produzindo hoje, seríamos muito competitivos com o combustível fóssil. Mas o atual nível de preços de diesel não vai existir para sempre”, ponderou.

A tendência, portanto, é que o diesel renovável seja mais caro do que o convencional, e seu preço poderá variar de acordo com o etanol usado no processo produtivo e da meta de intensidade de carbono do biocombustível. O ideal, segundo Moore, seria atingir um custo equivalente a duas vezes o do diesel fóssil. “Eu diria que podemos ser competitivos”.

FS fará a originação

Para produzir SAF ou diesel renovável — o que será definido pela demanda —, a JetBio vai demandar 1,8 bilhão de litros de etanol por ano, tornando-se a maior compradora individual de etanol no Brasil. Para isso, a empresa contará com a FS na originação.

“A FS vai originar todo etanol que precisaremos, mas apenas parte será produzido por ela”, explicou Moore. Ou seja, a FS, que já possui uma área de trading, vai comprar etanol de terceiros para vender à JetBio e poderá comercializar a sua própria produção.

“Eu estou buscando o melhor preço possível para o etanol, com a melhor pontuação de intensidade de carbono possível. No fim das contas, 85% da minha estrutura de custos é etanol.”

Segundo Moore, JetBio já teve algumas conversas com produtores de etanol no Brasil para garantir o fornecimento, mas a FS deve assumir essas negociações em breve.

A companhia também já negocia com potenciais compradores, mas o CEO diz que contratos só serão fechados depois que a JetBio tiver maior clareza dos custos de produção.

“Muitos desenvolvedores de projetos de SAF começam assinando compromissos de compra (offtake) e depois tentam encontrar o dinheiro para fazer todo esse trabalho. Esse modelo não funciona porque, no fim, você descobre que o preço pelo qual prometeu vender o produto não fecha a conta. Adotamos uma abordagem diferente com a equipe do Summit Group”, afirmou.

A JetBio está investindo primeiro (na escolha do local da planta, engenharia, formação de equipe etc) para chegar a uma decisão final de investimento, esperada para março de 2027.  

“A última peça desse quebra-cabeça é o offtake. Precisamos entender qual é o nosso capital real, qual retorno precisamos obter sobre esse capital, qual é o nosso custo de produção e qual é a nossa matéria-prima. Tudo isso exige tempo e dinheiro, mas agora estamos chegando ao ponto em que entramos em discussões sérias com potenciais compradores”, revelou.

Da produção total (de SAF ou diesel renovável), 80% deverão ser exportados. A JetBio está pleiteando para que a indústria seja considerada Zona de Processamento de Exportação (ZPE), que oferece benefícios fiscais.



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