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Os planos da Advent para investir bilhões de dólares no Brasil

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Com a captação de US$ 30 bilhões anunciada na manhã de terça-feira, 27 de outubro, a Advent International ganha fôlego para disputar negócios maiores no Brasil. A gestora americana de private equity, que já investe na região por meio de um fundo dedicado à América Latina, poderá agora somar a ele os recursos do seu novo fundo global.

Em entrevista ao NeoFeed, Juan Pablo Zucchini, managing partner e head de private equity da Advent na América Latina, afirma que a captação dará mais força para investidas maiores da gestora na região. Presente no País desde 1997, a gestora tem mais de US$ 109 bilhões em ativos sob gestão no mundo.

“O novo fundo global da Advent nos ajuda a puxar recursos de lá para investir em negócios aqui na América Latina, especialmente no Brasil”, afirma Zucchini. “Aumenta muito a capacidade e o poder de investimento na região.”

Globalmente, a Advent já vendeu em 2026 participações em 27 empresas, somando cerca de US$ 13 bilhões, e investiu aproximadamente US$ 10 bilhões em 38 companhias, contando operações concluídas e ainda pendentes.

O reforço, segundo Zucchini, entra nos negócios de maior porte. Em empresas médias, a Advent segue usando o fundo regional. A partir de US$ 400 milhões a US$ 500 milhões, os times da América Latina passam a investir junto com os colegas do fundo global. O fundo regional é o LAPEF VII, de US$ 2 bilhões, captado em 2022, que nos últimos 12 meses tem se concentrado nos setores de consumo e tecnologia.

O movimento mais vistoso foi a entrada na Natura, em que a gestora chegou a 8% do capital em julho e ganhou duas cadeiras no conselho, uma delas ocupada pelo próprio Zucchini. Antes disso, a Advent juntou a Skala, que controla desde 2024, à Lola From Rio, criando o grupo Bora Brasil, com faturamento próximo de R$ 2 bilhões. A gestora também liderou a rodada Série C da Skyone, empresa brasileira de software de nuvem, dados e inteligência artificial, e investiu na mexicana CONTPAQi.

Para Zucchini, o cenário também favorece quem chega com dinheiro novo. “Acredito que é um mercado que tem pouco acesso a capital, com dívida cara. E, com o pool de investidores reduzindo, naturalmente, é um mercado que começa a ser mais realista para fazer negócios”, diz ele.

O diagnóstico aparece nos números. Em meio à incerteza eleitoral e com a Selic em 13,75% ao ano, o volume divulgado de investimentos de fundos de private equity no Brasil caiu 94% no primeiro semestre, para cerca de R$ 900 milhões, ante R$ 13,9 bilhões no mesmo período de 2025, segundo a Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital. Foi o menor patamar para um primeiro semestre na série histórica, iniciada em 2022.

Com a eleição definida, Zucchini afirma que a volatilidade de curto prazo não deve mudar os planos da gestora e que o mercado brasileiro segue com muitas oportunidades. A liquidez para vender posições no País, segundo ele, também deve seguir firme, o que o executivo considera essencial em qualquer negócio.

“O Brasil é o mercado para o qual os estratégicos olham e falam: ‘Eu, como estratégico global, preciso estar no Brasil’”, diz. “Então, o nosso portfólio tem um valor estratégico para esses players, o que facilita as conversas de saída.”

Por outro lado, Zucchini vê o IPO no Brasil apenas como uma opcionalidade de saída, com a qual não dá para contar na hora de entrar num negócio. “Se tem um negócio em que a única saída é o IPO, provavelmente não faríamos”, diz.

Um dos motivos é o encolhimento das janelas de abertura de capital. “Se você olha as janelas dos últimos 5 anos, dos últimos 10 anos, dos últimos 15 anos, essa janela é cada vez menor. Uma coisa é você ter uma janela de IPO de quatro anos, outra coisa é ter uma janela de IPO de um ano.”

Segundo Zucchini, mais de 70% da liquidez da Advent vem da venda para compradores estratégicos, que ele considera o principal objetivo da gestora. Em média, diz, cada investimento dura cinco anos. “Precisamos de tempo para fazer as coisas acontecerem, para crescer, para mudar as coisas, para criar esse valor que enxergamos nas companhias.”

Confira, a seguir, a entrevista completa:

Como a captação de US$ 30 bilhões do fundo global da Advent muda a forma da gestora investir no Brasil e na América Latina?
Temos nosso fundo regional, o LAPEF, que está investindo na América Latina e está muito bem ativo. Agora, o fundo novo global da Advent nos ajuda a puxar recursos de lá para investir em negócios aqui na América Latina, especialmente no Brasil. Nós olhamos os mesmos setores na América Latina e no GPE. Quando estou olhando um negócio de porte médio, utilizo os recursos do fundo regional. Quando olho negócios de porte grande, utilizo os recursos do fundo regional e falo com os meus colegas do fundo global, que podem investir na região conosco. Então, aumenta muito a capacidade e o poder de investimento na região.

Principalmente para essas entradas em investimentos de porte grande, com esse apoio do fundo global?
Exato. É feita uma colaboração entre o fundo regional e o fundo global. Funciona muito bem. Nós fizemos isso no Grupo BIG e fizemos isso na Prisma, quando compramos na Argentina. Teve investimento do fundo regional e do fundo global. Então, é uma coisa que acontece.

Investimento de que tamanho, por exemplo, já valeria a pena falar com o fundo global para trazê-lo junto
Olha, em geral, todo negócio que já começa a fazer no patamar de cima de US$ 400 milhões, US$ 500 milhões já começa a ter participação do fundo global.

“Nesses últimos 12 meses, temos investido bastante em consumo e tecnologia no Brasil e na região”

E em quais setores está o foco?
Nesses últimos 12 meses, temos investido bastante em consumo e tecnologia no Brasil e na região. No geral, são setores em que, quando identificamos um subsetor, funciona muito bem. E estamos bem contentes com nossos investimentos nessa área. Nós investimos na Natura, na Skala, na Lola, e criamos o grupo Bora Brasil. Investimos na Skyone. Investimos em mais uma empresa, que se chama CONTPAQi, no México. Então, são setores bem dinâmicos, onde gostamos bastante de investir.

Algum outro que vocês têm preferência?
Saúde é outro setor em que temos bastante experiência e de que também gostamos. São os mesmos setores que o fundo global olha. Nossos times regionais estão trabalhando permanentemente com os times globais, tentando achar onde está a próxima oportunidade, onde está o próximo setor, onde vale a pena pesquisar e olhar companhias.

Como vocês estão vendo o cenário hoje para investimento no Brasil? Com o resultado das eleições, fica um pouco mais claro?
Nós já investimos na América Latina há 30 anos. Então, estamos comprometidos com o setor, com a região. Para nós, o Brasil é um mercado principal, um mercado muito interessante, com muitas oportunidades. E temos um olhar muito micro do negócio. O primeiro olhar para nós é quais são os setores que nos próximos cinco anos vão ter muito crescimento, vão ter muito potencial. Dentro dos setores, quais são as melhores empresas onde eu posso realmente criar valor? Aí começa o nosso trabalho de contatar as empresas, falar, tentar achar um negócio. É uma jornada de quatro, cinco, seis anos. Então, não é uma coisa de curto prazo.

No curto prazo, é esperado mais volatilidade?
A volatilidade que podemos sofrer no curto prazo está ali. Obviamente, está. Não dá para falar que não está. Mas não tem impacto na nossa estratégia. A nossa estratégia continua sendo de médio e longo prazo. O Brasil é um mercado muito importante para nós. É um mercado que tem muita liquidez na hora de vender empresas. E é uma economia muito dinâmica. Você permanentemente está achando empresas novas, está vendo empresas crescendo. Tem potencial de criar valor nesses negócios. Então, [vamos] continuar com a mesma força e interesse na região.

“Acredito que, nos últimos anos, o mercado foi ficando mais realista em termos de valuation. Hoje se consegue ter conversas razoáveis de valuation”

Tendo essa perspectiva de médio e longo prazo, em termos de valuation no Brasil, o momento é positivo? É um bom momento de entrada para fazer investimentos?
Acredito que, nos últimos anos, o mercado foi ficando mais realista em termos de valuation. É um mercado onde hoje se consegue ter conversas razoáveis de valuation. Independentemente do mercado de capitais. Acho que hoje é um mercado que está mais bem posicionado para os investidores.

O que seria um preço “mais realista”? Está mais vantajoso para o comprador hoje?
Acredito que é um mercado que tem pouco acesso a capital, com dívida cara. E, com o pool de investidores reduzindo, naturalmente, é um mercado que começa a ser mais realista para fazer negócios. Às vezes é valuation, mas às vezes [o ganho] é o tipo de negócio que você consegue fazer.

Você avalia as oportunidades na região. Quando olha para o Brasil, qual é a principal vantagem dos investimentos aqui? Em que setor o Brasil está se destacando mais?
É uma economia bem dinâmica. Empresas surgem e crescem e, em relativamente pouco tempo, você tem empresas de bom porte para investir. Isso é o número um. Tem também um mercado doméstico grande, que ajuda muito as empresas de consumo, de tecnologia e de saúde. Continua a tendência de crescimento das classes baixa e média, com uma parcela da população na faixa do que chamamos de working age [idade ativa], o que dá um suporte grande ao consumo.

Qual é o segundo ponto?
Outro ponto é a liquidez. Grande parte do nosso negócio é vender as empresas para players estratégicos. E o Brasil é o mercado para o qual os estratégicos olham e falam: “Eu, como estratégico global, preciso estar no Brasil”. Então, o nosso portfólio tem um valor estratégico para esses players, o que facilita as conversas de saída. E isso vai continuar: o Brasil segue sendo um mercado onde os estratégicos precisam estar, crescer e ganhar market share.

Nessas conversas de venda, de modo geral, você tem visto mais o player estratégico internacional que quer expandir a operação no Brasil, que quer entrar, ou um player local mesmo, nascido com sede aqui? Quem tem assumido essa ponta compradora?
Depende muito do setor. Tem as duas coisas. Tem estratégicos globais querendo entrar ou aumentar a participação. Um claro exemplo é a Nestlé, que comprou a Kopenhagen no seu negócio de chocolate. Ela já estava no Brasil, mas queria aumentar a participação no mercado. E tem também locais querendo ampliar mercado. Eu não tenho o número de cabeça, mas eu falaria que mais de 70% da nossa liquidez vem de vendas estratégicas. Obviamente, tem o mercado de capitais, que é uma opcionalidade que temos. Mas o nosso principal objetivo continua sendo a venda para estratégicos.

Quando vocês fazem uma compra no Brasil, colocam a escassez de IPOs no papel também? Como isso está sendo colocado na perspectiva?
A análise da saída é feita junto com a análise central. Junto com o negócio atrativo, o negócio de potencial, de que gostamos, em que vamos fazer A, B, C, também analisamos como vamos sair desse negócio. Quem vai comprar, quando e por quê. Obviamente, pode ter a opcionalidade de uma saída no mercado, mas o principal objetivo é ter uma resposta na saída estratégica.

“A janela de oportunidade do IPO, se você olha os últimos 15 anos, tem sido cada vez menor”

No Brasil não dá para contar com o IPO?
Acredito que o IPO é uma opcionalidade. Quando funciona, funciona bem, pode ser uma alternativa. Mas, certamente, se você só conta com o IPO, pode ser complicado. A janela de oportunidade do IPO, se você olha os últimos 15 anos, tem sido cada vez menor. Teve janelas? Teve. Mas se você olha as janelas dos últimos 5 anos, dos últimos 10 anos, dos últimos 15 anos, essa janela é cada vez menor. Isso faz com que seja muito difícil acertar o timing. Uma coisa é você ter uma janela de IPO de quatro anos, outra coisa é ter uma janela de IPO de um ano. Você estar pronto para aproveitar uma janela de IPO de seis meses, um ano, é mais difícil.

E isso entra no preço, obviamente, na hora de comprar?
Eu acho que não é uma análise tão linear. Eu não acho que seja tão linear que entre no preço. De novo, depende muito do ativo, do tipo de negócio, do setor. É mais difícil falar assim.

Quando vocês analisam a compra de uma empresa brasileira em crescimento, com capacidade de abrir capital em alguns anos, a análise é diferente da que um colega seu faz de uma empresa num mercado mais pujante, como Ásia ou Estados Unidos? Como entra a variável de um mercado com mais entradas de empresas na bolsa em relação a um mercado mais fechado?
São mercados com mais investidores e mais crescimento, especialmente. As empresas têm um crescimento forte, robusto, maior que na América Latina. Então, é uma combinação de fatores. Não é só o acesso a capital. Se tem um negócio em que a única saída é o IPO, provavelmente não faríamos. Porque não é nosso principal objetivo sair fazendo um IPO. Nosso principal objetivo é sair do negócio. E o IPO é um caminho, mas não é o único caminho.

Quando vocês fazem esse investimento, qual é o horizonte de saída? É muito variável? Tem um prazo médio?
Nós temos uma jornada de, na média, cinco anos. Pode ser quatro, pode ser seis. Mas sempre estamos com cabeça de médio e longo prazo. Não temos uma cabeça de seis meses, não vai por aí. Precisamos de tempo para fazer as coisas acontecerem, para crescer, para mudar as coisas, para criar esse valor que enxergamos nas companhias.



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