Bloomberg — Surpreendidos pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, investidores estão relutantes em voltar ao mercado brasileiro depois que as apostas na valorização dos ativos do país desmoronaram.
Citigroup, Morgan Stanley e outros grandes bancos, que antes da eleição recomendavam ampliar a exposição ao Brasil, mudaram rapidamente de posição diante da forte queda dos mercados na segunda-feira (26) e passaram a recomendar uma redução dessas apostas.
O Brasil havia se tornado um dos emergentes mais atrativos para os investidores neste ano. Mesmo quem vê a queda dos preços como uma oportunidade de compra, como a Gavekal Research, alerta que os riscos continuam, sobretudo em relação à política fiscal.
Wall Street reforçou as apostas no Brasil depois que Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno das eleições, no início de outubro, na liderança. O resultado desencadeou uma forte alta dos ativos brasileiros e atraiu bilhões de dólares de investidores estrangeiros. A expectativa era que uma mudança de governo trouxesse medidas para colocar as contas públicas em ordem e abrisse caminho para a redução dos juros, que seguem em dois dígitos.
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Mas o resultado foi o oposto. Os mercados brasileiros despencaram na segunda-feira. O dólar subiu 8% frente ao real, na maior alta em mais de duas décadas, e o Ibovespa perdeu cerca de 14%, na pior sessão desde o início de 2020. Os juros futuros chegaram a disparar mais de 300 pontos-base, enquanto os títulos brasileiros em dólar tiveram desempenho pior que os de outros mercados emergentes.
Na Aberdeen Group, a decisão por enquanto é manter as posições e aguardar sinais do governo Lula sobre a equipe econômica e os planos para a área fiscal.
Há sinais de alguma estabilização, principalmente no câmbio, com o dólar recuando frente ao real desde o tombo de segunda-feira. Ainda assim, a forte mudança no sentimento dos investidores fica evidente no desempenho da moeda brasileira: o real, que até sexta-feira era a segunda moeda que mais se valorizava entre os mercados emergentes no mês, passou a ter um dos piores desempenhos.
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Apostas frustradas
A rapidez e a intensidade das perdas de segunda-feira, que chegaram a provocar interrupções nas negociações, deixaram claro o quanto os investidores haviam apostado que uma mudança de governo traria medidas para reduzir o déficit público, hoje acima de 9% do PIB. Isso apesar de Bolsonaro ter dado poucos detalhes sobre como pretendia equilibrar as contas públicas.
O Citigroup desfez suas apostas otimistas nos ativos brasileiros após a eleição. O Morgan Stanley, por sua vez, voltou atrás em uma recomendação feita apenas três semanas antes e rebaixou as ações locais para “equal-weight”. O JPMorgan Chase também reduziu para “market-weight” sua recomendação para o real e os juros locais.
O Brasil enfrenta uma situação fiscal difícil, enquanto a inadimplência de famílias e empresas está em níveis recordes. O governo Lula é visto como mais inclinado a preservar benefícios sociais e estimular o consumo via crédito, apostando principalmente no aumento da arrecadação para equilibrar as contas públicas.
O desafio para Lula é que famílias e empresas já estão muito endividadas e há pouco espaço para expansão fiscal, segundo Daniel Utsch, portfolio manager da Nero Capital.
“Lula vai ser colocado contra a parede pelo mercado para decidir o que ele vai fazer,” ele disse.
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O UBS Global Wealth Management espera que as ações brasileiras continuem pressionadas enquanto os investidores recalibram as expectativas para os juros, sobretudo até que Lula dê mais detalhes sobre seus planos para a área fiscal. A curva de juros já eliminou as apostas em novos cortes e passou a indicar a possibilidade de altas à frente.
Para Alejo Czerwonko, diretor de investimentos para mercados emergentes do UBS Global Wealth Management, o chamado carry trade deve ajudar a sustentar o real. A estratégia consiste em tomar recursos em países com juros mais baixos e investir em mercados como o Brasil, onde as taxas são mais altas.
Oportunidades
No Wells Fargo, o estrategista Alvaro Vivanco espera que o novo governo adote medidas fiscais suficientes para conter os riscos, principalmente para a moeda brasileira. Para ele, a reação do mercado após a eleição foi exagerada. Vivanco recomenda comprar a moeda brasileira quando o dólar estiver perto de R$ 5,56, nível próximo da máxima de segunda-feira, e prevê uma queda da cotação para R$ 5,30.
“Houve um movimento excessivo nos mercados de câmbio e juros”, disse Lamine Bougueroua, gestor de mercados emergentes da Carmignac. “O Brasil continua sendo um dos beneficiados pelo atual cenário econômico, marcado por preços elevados das commodities e uma expansão global resiliente”, afirmou, acrescentando que a moeda, em particular, deve se beneficiar.
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Segundo ele, os investidores também não devem perder de vista o avanço dos partidos mais favoráveis ao mercado no Congresso, o que deve limitar o espaço para uma nova expansão fiscal.
Rajiv Jain, cofundador da GQG Partners, disse que se prepara para comprar após o pânico nos mercados, por também considerar que a reação foi exagerada. Segundo ele, as empresas brasileiras continuam com valuations atraentes, lucros sólidos e dividendos elevados.
No fim das contas, tanto os mais pessimistas quanto aqueles que pensam em voltar a investir concordam em um ponto: enfrentar os desafios fiscais do Brasil é fundamental.
“Os juros subiram muito, e isso torna a conta da sustentabilidade fiscal bastante difícil”, disse Curtis, da Aberdeen. “É preciso fazer um ajuste fiscal em resposta.”
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