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Sucden vê risco de cana bisada no nível recorde de 2009/10

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As fortes chuvas que atingem o Centro-Sul podem deixar no campo tanta cana bisada, aquela que não consegue ser colhida e fica para a safra seguinte, quanto na histórica safra 2009/10, quando o El Niño também atrapalhou a moagem.

Jeremy Austin, diretor-geral da Sucden Brasil, uma das principais tradings globais de açúcar, fez a comparação nesta terça-feira. Ele lembrou que, em 2009/10, a porcentagem de cana bisada estava perto de 9% a 10%.

“Em teoria, é um percentual que pode acontecer neste ano. O impacto, nós vamos descobrir, não é simples”, afirmou.

Austin debateu o tema nesta terça-feira, em painel da 26ª Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Etanol, em São Paulo, ao lado de Mario de Rezende Barbosa, diretor de estratégia da Louis Dreyfus Company (LDC), e de Paulo Garcia, CEO da Vital Commodities.

A estimativa de Austin é uma das mais agressivas do mercado. O executivo projeta moagem de 615 milhões a 625 milhões de toneladas no Centro-Sul até o fim de dezembro, para um potencial produtivo de 675 milhões.

Confirmada a moagem no limite inferior até dezembro, a região terminaria o ano com cerca de 60 milhões de toneladas de cana em pé — 8,9% do potencial.

“Depois, vai depender do quanto as usinas vão estar prontas dentro do mês de março realmente para iniciar a moagem. Isso vai ser uma coisa para ficar de olho nos próximos meses”, completou Austin.

Nem todos esperam um volume desse porte. Barbosa e Garcia trabalham com cerca de 30 milhões de toneladas de cana bisada. Há duas semanas, os analistas da XP projetaram 27 milhões de toneladas.

Curiosamente, Sucden e Vital concordam sobre quanto será moído até dezembro: 615 milhões de toneladas. A divergência está no tamanho do canavial — 675 milhões para a Sucden, 660 milhões para a Vital — e no que dá para recuperar na entressafra.

Pela conta de Garcia, das 45 milhões de toneladas que ficariam em pé no fim do ano, ao menos 15 milhões seriam moídas de janeiro a março, com as usinas esticando a safra ao máximo. Sobrariam 30 milhões.

A Datagro, consultoria liderada por Plinio Nastari, também está nessa faixa: estima 34 milhões de toneladas de cana bisada, com grandes diferenças regionais. Em Bauru, por exemplo, a cana bisada deve chegar a 21,5% da cana disponível.

Se a estimativa da Sucden se confirmar, o volume vai igualar o recorde de 2009/10. Naquele ciclo, as chuvas trazidas pelo El Niño interromperam a colheita a partir de julho.

Na época, a Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) estimou que cerca de 60 milhões de toneladas deixaram de ser colhidas. É o maior volume de que se tem registro. A cana bisada inflou a safra seguinte, mas envelheceu o canavial e reduziu a renovação, o que ajudou a explicar a quebra de 2011/12.

O impacto nas usinas

Maior ou menor, a cana bisada é um desafio para as usinas. Segundo Barbosa, da LDC, ela tende a ser mais difícil de cristalizar. Por isso, ele projeta produção de açúcar de 37,5 milhões de toneladas no Centro-Sul nesta safra, abaixo dos 40 milhões que esperava no início do ano.

“Com o ATR médio do jeito que está, caindo bastante ao longo dos últimos dias, a gente ficaria abaixo dos 37 milhões de toneladas”, afirmou Garcia, da Vital, sinalizando uma produção ainda menor.

A quebra pode coincidir com o período em que o superávit no comércio global de açúcar está, sazonalmente, no nível mais baixo, por causa da entressafra brasileira. Caso o Centro-Sul entregue menos de 37 milhões de toneladas na safra 2026/27, a oferta global tende a ficar mais apertada, na visão dos executivos, o que reforçaria a demanda por açúcar logo no início da próxima safra.

A premissa deles é que as usinas comecem a safra 2027/28 mais cedo, em março, com mix máximo para açúcar, aproveitando também a cana bisada. Para isso, no entanto, será preciso tempo firme na entressafra — o suficiente para colher essa cana.

Para onde vai o preço do açúcar?

Prever o comportamento dos preços ainda é tarefa complicada. “É muito difícil colocar um preço nisso hoje. A última estimativa que eu fiz, errei em duas semanas, imagina daqui a doze meses”, disse Austin.

Atualmente, os contratos futuros de açúcar negociam próximos de 19,20 centavos de dólar por libra-peso.

Na leitura dos executivos, há distorções no mercado futuro. Na leitura deles, os preços estão inflados pela posição comprada dos fundos na bolsa de Nova York. Segundo Barbosa, há 640 mil contratos em aberto, o equivalente a cerca de 32,5 milhões de toneladas — quase toda a produção de açúcar do Centro-Sul em uma safra. “Esse açúcar não existe”, disse.

Como ninguém vai entregar ou receber esse volume fisicamente, a posição financeira muito acima do normal dá até a impressão de uma bolha, segundo o executivo.

Do lado da produção, não há oferta nova entrando para justificar o movimento. As usinas aproveitaram o rali para travar preços e, segundo Barbosa, já fixaram metade da produção da safra 2027/28.

O El Niño deve ser decisivo para o movimento na bolsa. Enquanto as temperaturas no Pacífico continuarem elevadas, a tese de safras menores segue de pé, sustentando a posição dos fundos. Se isso mudar e os fundos resolverem realizar lucro, o preço cai.

Mas esse não é o único fator. Refinarias que dependem de açúcar bruto podem ainda não ter garantido o abastecimento. Se entrarem comprando, o preço tende a subir ainda mais.



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