Bloomberg — A presidente Christine Lagarde anunciou que deixará o Banco Central Europeu no início de 2027, intensificando a disputa para substituir uma das autoridades monetárias mais poderosas do mundo.
Lagarde deixará o cargo em 7 de fevereiro, de acordo com um comunicado do BCE divulgado nesta quinta-feira (29). Ela se tornou a quarta líder da instituição — e a segunda de origem francesa — ao substituir Mario Draghi em 2019. Seu mandato estava previsto para terminar em outubro de 2027.
“Deixo esta instituição com a sensação de um bom trabalho realizado e com um BCE preparado para o futuro”, afirmou Lagarde em uma mensagem em vídeo.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Os títulos alemães e seus equivalentes da zona do euro mantiveram pequenos ganhos. O rendimento da dívida alemã de 10 anos permaneceu um ponto-base abaixo, em 3,36%, enquanto o prêmio dos títulos franceses se manteve estável em 154 pontos-base.
A saída de Lagarde dá início a uma das disputas pela liderança mais importantes da Europa, cujo vencedor supervisionará as taxas de juros dos 21 Estados-membros da zona do euro e de seus mais de 350 milhões de habitantes.
“Para garantir uma transição tranquila para a próxima liderança do BCE, o processo de nomeação de seu sucessor será iniciado hoje e prosseguirá sem demora, com vistas a uma decisão oportuna do Conselho Europeu”, afirmou o presidente do Conselho Europeu, António Costa, em comunicado.
A decisão ocorre em um momento delicado para o BCE, com sede em Frankfurt, que enfrenta uma inflação elevada causada pela guerra no Irã, em um cenário de instabilidade geopolítica, mercados de títulos nervosos e gastos europeus maciços com defesa e infraestrutura.
Leia também: Europa não pode repetir atraso da primeira revolução digital com IA, diz Lagarde
O espanhol Pablo Hernández de Cos e o holandês Klaas Knot disputam o cargo de Lagarde. Economistas consultados pela Bloomberg em outubro consideram que De Cos, ex-presidente do Banco da Espanha que atualmente dirige o Banco de Compensações Internacionais, é o favorito.
Os rumores sobre a saída de Lagarde vinham se intensificando. Ela se recusou repetidamente a se comprometer a cumprir seu mandato de oito anos. Enquanto isso, tem sido comum especular que ela deseja assumir a direção do Fórum Econômico Mundial, organizador do encontro anual de Davos.
Lagarde também indicou que gostaria de desempenhar algum papel na campanha para as eleições presidenciais francesas na próxima primavera, mas descartou a possibilidade de concorrer ao cargo de presidente. As declarações enigmáticas frustraram colegas do BCE, com alguns temendo que isso prejudique a imagem de uma das instituições econômicas mais importantes da região.
“Ao longo de sua história, o BCE tem administrado com sucesso as transições de liderança, ao mesmo tempo em que continua a cumprir seu mandato”, afirmou Lagarde em um memorando aos funcionários. “Esta situação não é diferente. Sei que o BCE continuará a servir à Europa com a mesma dedicação durante o período que se segue.”
Leia também: Lagarde vê alta da energia atingir outros setores e reforça alerta sobre inflação
O anúncio ocorre em um momento em que os EUA e o Irã ainda não conseguiram chegar a um acordo de paz duradouro. O BCE elevou as taxas de juros em junho e setembro, e os mercados esperam que a política monetária seja ainda mais restritiva.
Enquanto isso, os rendimentos dos títulos subiram em todo o mundo, com os investidores ficando particularmente nervosos em relação às finanças públicas da França, país natal de Lagarde. O prêmio que eles exigem para deter os títulos de 10 anos do país, em comparação com os da Alemanha, atingiu recentemente seu nível mais alto desde 2011, levando a especulações sobre uma possível intervenção do BCE.
Embora Lagarde tenha argumentado que as projeções apontam para um retorno da inflação à meta por volta do final de 2027, os críticos a acusarão de quebrar a promessa de não abandonar o cargo quando “houver nuvens no horizonte”.
Antes de Lagarde, o holandês Wim Duisenberg foi o único presidente a não completar um mandato inteiro. Mas seu mandato abreviado foi acordado antecipadamente para resolver um impasse entre a França e a Alemanha antes da criação do BCE, em 1998.
Os líderes europeus têm cúpulas em novembro e dezembro, nas quais tentarão selecionar um sucessor. Além dos principais candidatos, não se pode excluir a possibilidade de um candidato de fora, já que a própria Lagarde só entrou na disputa no último minuto.
Os governos também devem selecionar um sucessor para Isabel Schnabel, que está encurtando seu mandato em um ano e deixará o cargo no início de 2027 para ingressar no Fundo Monetário Internacional. Como o mandato do economista-chefe Philip Lane também termina em maio, eles provavelmente buscarão chegar a um acordo sobre os três cargos.
A saída prematura de Lagarde corre o risco de gerar acusações de ingerência política na independência do BCE, já que o cronograma agora permite que o presidente Emmanuel Macron ajude a substituí-la antes do término de seu último mandato. As pesquisas sugerem que a candidata de extrema direita Marine Le Pen poderia vencer o primeiro turno das eleições para o Eliseu.
O presidente do banco central da França também renunciou antecipadamente, tendo Macron nomeado Emmanuel Moulin, seu chefe de gabinete, para o cargo.
Veja mais em bloomberg.com
©2026 Bloomberg L.P.




