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A incerteza global, impulsionada por choques nos preços do petróleo e a volatilidade política nos EUA, tem levado os investidores a focar na possibilidade de aumentos de juros pelo Federal Reserve, enquanto a instabilidade macroeconômica brasileira fica em segundo plano. David Beker, do Bank of America, observa que a reeleição de Lula não assusta os investidores, que já conhecem sua gestão.
O BofA prevê que o Fed aumentará os juros, mas a recente queda nos preços do petróleo e a desaceleração do mercado de trabalho podem mudar essa expectativa. No Brasil, o Banco Central deve manter a Selic em 14,25% até dezembro, com possíveis cortes em 2027 e 2028.
Beker acredita que ajustes fiscais serão inevitáveis após as eleições, mas a percepção de investidores sobre a política fiscal brasileira é relativamente positiva. A bolsa brasileira carece de gatilhos para alta sustentada, e os fundos domésticos estão enfrentando resgates significativos.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
A incerteza global causada pelo choque de preços do petróleo e a volatilidade provocada pelas políticas tarifárias e a indefinição do acordo de paz com o Irã por parte do presidente americano Donald Trump estão levando o mercado a se concentrar no curto prazo na possibilidade de aumentos de juros nos EUA.
Nesse cenário, a instabilidade macroeconômica brasileira — seja pelo risco de aumento da inflação com os gastos fiscais ou pela tensão com a eleição presidencial — está, por enquanto, em segundo plano no radar dos investidores. Nem mesmo uma possível reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva assusta, pois os investidores sabem o que esperar de sua gestão.
O diagnóstico é de David Beker, chefe de Economia no Brasil e de Estratégia para a América Latina no Bank of America.
“O mercado vem errando na leitura dos impactos macroeconômicos globais causados pela volatilidade do choque do petróleo, o que dificulta traçar uma estratégia para ativos”, afirmou Beker na sexta-feira, 3 de julho, em encontro com jornalistas na sede do banco, em São Paulo.
Segundo ele, a expectativa de boa parte do mercado internacional era de aumento da taxa de juros pelo Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, por causa do choque de petróleo. A pressão de preços sobre a inflação americana, aliada à atividade robusta da economia dos EUA e o discurso mais duro (“hawkish”) de Kevin Warsh, o novo presidente do Fed, reforçaram essa certeza.
Só que o preço do petróleo caiu mais rapidamente do que o esperado nos últimos dias e a redução de contratação do mercado de trabalho dos EUA anunciada recentemente – 50% menor do que a estimativa do Fed – podem reverter essa expectativa.
O BofA, inclusive, previa três aumentos de juros do Fed de 0,25 ponto percentual a partir de setembro, acima da estimativa do mercado. Baker diz que o banco mantém a previsão, embora reconheça que os dados, por ora, caminhem na direção contrária: “O risco estrutural do preço do petróleo é baixista, mas há risco de a guerra seguir provocando oscilações bruscas”, disse
Beker adverte que esse quadro de volatilidade internacional tem impacto duplo no Brasil. De um lado, a incerteza tira o foco da instabilidade macroeconômica brasileira, o que é interessante no curto prazo.
De outro, porém, o País pode ficar ainda mais vulnerável. Caso o Fed entregue as três altas de juros, por exemplo, o impacto seria particularmente negativo para emergentes, via dólar mais forte. Além disso, a eventual queda do preço de petróleo – se confirmada – pode ajudar a conter a inflação americana.
Neste cenário, o Fed pode desistir de aumentar juros e o mercado de ações deve seguir atraindo investidores de olho na valorização das empresas de tecnologia por causa de IA, o que deve desestimular aportes em emergentes.
Juros parados
O BofA prevê que o Banco Central brasileiro deve manter a taxa Selic em 14,25% ao ano até dezembro, apesar de o mercado passar a questionar essa manutenção à luz da queda do preço do petróleo, inflação levemente melhor que o esperado e atividade mais fraca.
“O Banco Central cortou 0,25 pp quando alguns acreditavam não haver espaço; a extensão do horizonte relevante e a mudança do balanço de riscos devem ser lidas como calibragem do BC para permitir corte marginal se os dados ajudarem, sem alterar a trajetória estrutural”, enfatizou Beker.
O BofA prevê quatro cortes de 0,25 pp no segundo semestre de 2027, levando a Selic a 13,25%; e mais quatro cortes de 0,25 p.p. em 2028, potencialmente levando os juros para 12,25% ao ano. O PIB deve crescer 2,3% este ano e a inflação, de acordo com o banco, deve fechar 2026 em 5,5%. Para 2027, o BofA revisou a inflação de 4,1% para 4,7%.
“Dois riscos relevantes não foram incorporados integralmente no cálculo de inflação: o El Niño, que no pior cenário pode adicionar 180 pp à inflação em 12 meses; e a PEC 6×1, a qual ainda não calculamos o impacto”, afirmou o economista.
Embora reforce que a política fiscal do governo brasileiro é percebida como expansionista, Beker acredita que, após as eleições, algum ajuste é considerado inevitável, mesmo com a reeleição do atual governo.
“Neste caso, prevemos uma rediscussão de pisos de saúde/educação, revisão de benefícios fiscais, com olhar específico nos programas sociais; a dúvida é qual será magnitude deste ajuste”, afirmou.
Segundo ele, o governo Lula conta com alguns trunfos na percepção por parte dos investidores estrangeiros. Um deles é que esse investidor, no comparativo global, relativiza o problema fiscal brasileiro, pois “todo mundo tem fiscal ruim”; porém, níveis de dívida/superávit primário preocupam se subirem persistentemente.
Além disso, o executivo do BofA descartou temores de uma eventual reeleição de Lula, pelo menos no nível pré-eleição de 2022. “O investidor estrangeiro não tem medo do Lula, já sabe o que esperar.”
De qualquer forma, o BofA acredita que eventuais impactos do cenário macroeconômico nacional só devem ser maiores no segundo semestre, quando a campanha eleitoral decolar. “Não temos nem candidatos presidenciais definidos ainda”, disse.
Para o BofA, a bolsa brasileira carece de gatilhos claros para uma alta sustentada. As expectativas de lucro para o próximo ano, excluindo commodities e bancos, superam 40%, ancoradas em menor despesa financeira e maior crescimento — premissas hoje pressionadas por menor queda de juros e atividade revisada para baixo, implicando risco de “downside”.
“Apesar da correção, o mercado não está em “barganha”; o investidor estrangeiro segue como principal driver e vem reduzindo posições”, observou Beker.
Segundo ele, a indústria de fundos doméstica apresenta resgates semanais médios de R$ 500 milhões em fundos de ações. Os recursos migram sobretudo para renda fixa (CDB, LCI, LCA, títulos do Tesouro).
“Os fundos de crédito tiveram saídas nos dois últimos meses, ainda não grandes, mas a inadimplência corporativa (3,7%, maior desde 2017) é um ponto de atenção, principalmente se juros altos persistirem, elevando risco de eventos de crédito”, concluiu.




